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domingo, 17 de março de 2019

Planeta de plástico


Antonio Carlos Lua

Desde o pós-guerra, quando a natureza passou a sofrer com os impactos do derrame de petróleo no mar, os problemas com os oceanos não pararam, com a enorme quantidade de peixes contaminados por poluentes. 

Com o tempo, novos poluentes se agregaram aos já existentes, a exemplo dos plásticos que hoje ameaçam a sociedade humana. Seus efeitos podem afetar os ecossistemas durante centenas ou até milhares de anos.

São 13 milhões de toneladas de plástico jogadas a cada ano em nossos oceanos, ameaçando a vida marinha, os ecossistemas e a nossa saúde, já que o produto contamina nossa água.

Os microplásticos – fragmentos de polímeros inferiores a 5 mm – já não são mais um problema apenas para as criaturas que vivem nos oceanos atulhados. 

Os mosquitos ou as libélulas ingerem os microplásticos, que entram na cadeia alimentar de outras espécies quando estes insetos são comidos por animais, disseminando o consumo de resíduos plásticos entre os seres vivos da Terra.

Cerca de  83% da água da torneira contém partículas de plástico e seus químicos tóxicos podem ser encontrados em nossa corrente sanguínea. A quantidade desse tipo de resíduo aumentou em 100 vezes no Oceano Pacífico.

Pesquisa da Universidade de Reading, no Reino Unido aponta que, em 2050, a quantidade de lixo plástico nos oceanos deverá superar a de peixes. Partículas de microplástico hoje presentes no oceanos superam as estrelas de nossa galáxia.

Assim, o domínio do egoísmo humano sobre o novo período geológico – no limiar de uma nova era (Antropoceno) – está provocando a sexta extinção em massa das espécies, acelerando a degradação dos ecossistemas. 

O consumismo compulsivo está destruindo o processo civilizatório iniciado deste o surgimento do homo sapiens até a sua transformação em homo economicus

É um problema global e onipresente. Assim como uma baleia morta não tem nacionalidade, o lixo que a mata também não tem passaporte, vem de qualquer lugar do mundo, levado pelos ventos e pelas correntes marítimas. 

O Brasil é quatro país que mais produz plástico no mundo, gerando 11,3 milhões de toneladas desse resíduo – número três vezes maior que sua produção anual de café. 

Fica atrás apenas dos Estados Unidos (70,8 milhões de toneladas), China (54,7 milhões) e Índia (19,3 milhões). Na Europa Ocidental, a liderança é da Alemanha (8,2 milhões).

O superpetroleiro de nome ‘Knock Nevis’ foi o maior navio já construído pelo homem na história mundial da navegação. Desmontado em 2010, ele tinha um comprimento equivalente a quatro campos de futebol e a largura de um prédio de 23 andares. 

Era capaz de transportar, de uma só vez, uma carga com peso máximo de 564 mil toneladas. Mesmo um colosso dessa magnitude se apequenaria se tivesse que desempenhar a inglória tarefa de transportar o lixo domiciliar gerado anualmente no mundo. 

Uma montanha de lixo de 730 milhões de toneladas necessitariam de 1,3 mil viagens do ‘Knock Nevis’. Isso tratando-se só do rejeito gerado nos domicílios. 

Se o ‘Knock Nevis’ tivesse que transportar a somatória do lixo que é gerado anualmente por todas as atividades humanas levadas a cabo no mundo – estimadas em 30 bilhões de toneladas – ele precisaria fazer mais de 53 mil viagens. 

Nossa insana e insone máquina de acumulação de riqueza e capital funciona na base do modelo “Extrai-Produz-Descarta”, levando os resíduos a ocuparem um nexo central nas preocupações humanas. 

É bom saber que as batatas de Marte não são acessíveis à maioria dos humanos. Portanto, uma temporada em solo vermelho para fugir de uma calamidade civilizatória na terra soa improvável. 

Sendo assim, a saída é fazermos da era do homem a era da sustentabilidade e não a era do lixo plástico que agora vivemos. A avalanche de lixo está dominando o planeta e é a nova fronteira da evolução humana. 

domingo, 10 de março de 2019

Quem foi de aço nos anos de chumbo

Antonio Carlos Lua

A Estação Primeira Mangueira – a tradicional verde e rosa do Carnaval carioca – trouxe a memória dos heróis brasileiros marginalizados para a Sapucaí, no Rio de Janeiro.

Os versos do samba-enredo fazem memória a “quem foi de aço nos anos de chumbo”. Em outros tempos bicudos, o escritor, ensaísta e dramaturgo brasileiro, Oswald de Andrade, certamente afirmaria que “a alegria é a prova dos nove!”. 

A verdade é que se a nossa atual política causa espanto mundo afora, o Carnaval continua sendo nosso apogeu estético e – por que não, político – onde as feridas de um país machucado sangram sob os pés dos passistas, que no esplendor de sua arte popular revelam o Brasil da diversidade étnica, religiosa e cultural.

Dos versos do samba-enredo da Estação Primeira Mangueira – “História para ninar gente grande” – sobram referências à história oficial que é colocada em contraste com as violações às mulheres, à população negra e à personagens marcantes como Dandara.

Mulher guerreira, obstinada por liberdade, Dandara – mulher de Zumbi com quem teve três filhos – se suicidou, em 1694, para não voltar novamente à condição de escrava. Até hoje não se sabe a sua verdadeira origem. Não há registro histórico que confirme se ela nasceu em terras brasileiras ou na África. 

Presume-se que sua ascendência tem ligação com a nação africana de Jeje Mahin, culto dos Voduns da região Mahi a noroeste de Abomei. Dentre os daomeanos escravizados, uma mulher chamada Ludovina Pessoa, natural da cidade Mahi foi escolhida pelos Voduns para fundar três templos na Bahia.

No dia em que Zumbi teve a cabeça decepada num golpe à resistência negra, um ano e nove meses já teriam transcorrido desde a morte igualmente trágica de Dandara, face feminina do Quilombo de Palmares, que se tornou um importante símbolo da resistência à escravatura.

Além de Dandara, existiram outras mulheres guerreiras no tempo da escravidão, a exemplo de Maria Felipa – heroína da independência da Bahia e, por conseguinte, do Brasil – e Luísa Mahin, líder dos Malês e participante da Sabinada. 

Porém, o olhar racista dos livros didáticos ignoram e não reconhecem o papel dessas mulheres, cuja história é diretamente associada à resistência protagonizada pelo povo negro durante mais de 400 anos de escravidão. 

terça-feira, 5 de março de 2019

A atuação política e eclesiástica de dom Ivo Lorscheiter

Antonio Carlos Lua

As recentes notícias sobre a espionagem na Igreja Católica do Brasil pelo Palácio do Planalto relembram o período ditatorial do país – 1964 a 1985. 

O general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, disse que o Governo Bolsonaro está “preocupado e quer neutralizar” o debate do Sínodo da Amazônia. 

O evento  que tem como tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral"  é uma resposta do Papa Francisco à realidade daquela porção do Povo de Deus, especialmente os indígenas, frequentemente esquecidos e sem perspectivas de um futuro sereno por causa da crise da Floresta Amazônica, pulmão de capital importância para nosso planeta.

O fato nos faz lembrar os tempos da ditadura militar, quando alguns religiosos como dom Ivo Lorscheiter, dom Paulo Evaristo Arns e dom Hélder Câmara eram vistos como possíveis inimigos a serem vigiados e perseguidos pelo governo militar.

Quando as medidas mais repressivas dos Anos de Chumbo estavam instauradas, dom Ivo Lorscheiter – ex-bispo auxiliar de Porto Alegre (RS) e ex-bispo da Prelazia gaúcha de Santa Maria – optou claramente por um lado e definiu sua atuação como oposição e resistência a um governo autoritário, discordando das torturas e violações dos direitos humanos.

Seus movimentos o tornaram visado tanto para aqueles que viam nele um porto-seguro contra a ditadura, como para os militares que viam nele um ferrenho opositor, pela sua atuação eclesiástica, política, social, e pela sua luta em defesa dos direitos humanos.

Dom Ivo Lorscheiter foi o último bispo brasileiro nomeado pelo papa Paulo VI, no decorrer do Concílio Vaticano II, em 1965. Foi secretário-geral e depois presidente da CNBB, durante o período mais obscuro do Regime Militar Brasileiro.

Na época, apoiou vários defensores da Teologia da Libertação, além de bispos e sacerdotes progressistas, entre eles o seu próprio primo, o cardeal Aloísio Lorscheider, que foi por muito tempo arcebispo de Forlaleza (Ceará). 

Em sua gestão na CNBB, assuntos como reforma agrária, orientações sobre atuação política, organizações populares, comunidades eclesiais de base (CEBs), Teologia da Libertação, entre outros, pautavam os diálogos institucionais na Igreja. 

Um bom número de bispos, entre eles o poeta, profeta do povo e bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia (Mato Grosso), dom Pedro Casaldáliga, apropriavam-se destes temas sociais e tinham dom José Ivo Lorscheider como um referencial.

Dom Ivo Lorscheiter adotou verdadeiramente o seu lema episcopal 'Nova et Vetera', ou seja “Coisas novas e Velhas”, passagem bíblica extraída de Mateus 13,52. Desafiou-se ao “novo” e discordou quando o papa João Paulo II e o cardeal Ratzinger manifestaram-se contrários à Teologia da Libertação e à atuação do então frei Leonardo Boff no Brasil.

Seu maior desafio foi o de defender seus posicionamentos diante de um governo autoritário, tendo a coragem de dizer o que pensava com a audácia profética, apoiar as causas dos pobres, dos perseguidos, dos injustiçados, desafios permanentes em um período de chumbo.

Ele fez a CNBB assumir uma audaciosa coragem, sem com isso perder a Caridade. Sua vida se dividiu em anunciar, denunciar e esperançar. Anunciou o Amor de Deus para todos e todas, denunciou as injustiças que o povo sofreu pelos ditadores e esperançou tempos de paz, solidariedade, fraternidade, vida digna. 

Esse tripé de anúncio-denúncia-esperança são os mais célebres ensinamentos de dom Ivo Lorscheider em vida. Mesmo depois de 12 anos de sua Páscoa definitiva, completados nesta terça-feira (5), seus exemplos repercutem na vida daqueles que acompanharam a sua trajetória. 

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Escalada de distorções


Antonio Carlos Lua

Os oito indivíduos mais ricos do mundo concentram riqueza equivalente ao patrimônio dos 3,8 bilhões de pessoas que formam a camada mais pobre da população mundial, ou seja, 50% dos habitantes do planeta.

Os dados não surpreendem. É uma tendência progressiva, irrefreável. A cada dois dias surge um bilionário. As fortunas aumentam 2,5 bilhões de dólares por dia. 

Os Estados Unidos – referência econômica para alguns – integra a escalada de distorções, registrando uma desigualdade com efeitos devastadores em termos de desenvolvimento social e bem-estar coletivo.

Para além das meras estatísticas sobre o Produto Interno Bruto (PIB), existem hoje nos Estados Unidos 20 milhões de pobres, dos quais 13 milhões em pobreza absoluta e desprovidos de assistência, num empobrecimento brutal e generalizado.

Em vários indicadores de desenvolvimento social os Estados Unidos aparecem em posição desconfortável em relação a outros países considerados ricos – e, às vezes, lado a lado com nações em desenvolvimento.

O relatório mais recente do Programa da ONU para o Desenvolvimento (Pnud) indica que a expectativa de vida dos americanos é de 79,2 anos. 

Esse dado coloca o país como o 40º do mundo, atrás de alguns países latino-americanos, como Chile e Costa Rica – uma incrível diferença no bem-estar entre os pobres e os americanos com mais recursos. 

A expectativa de vida para os homens afro-americanos sem educação superior é equivalente à dos cidadãos do Paquistão, Butão e Mongólia. 

Os números sobre mortalidade infantil – número de crianças que morrem por mil nascidos vivos – é outro indicador clássico que coloca os EUA no 44º lugar do mundo, com índices inferiores ao de Cuba, Bósnia e Croácia.

A taxa de mortalidade infantil entre os afro-americanos é  semelhante à de Togo, na África, e da Ilha de Granada, no Caribe. O bem-estar das crianças americanas também é colocado em xeque quando são considerados indicadores de pobreza infantil. 

Um estudo do Unicef – que comparou a situação de crianças em 35 países de economia avançada – coloca os Estados Unidos no penúltimo lugar.

O indicador de pobreza infantil relativa, que mede a porcentagem de crianças que vivem em uma família cuja renda – ajustada ao tamanho e à composição da família –  é inferior a 50% da renda média nacional, registrou 23,1% das crianças americanas nesta situação.

Desde o início do Século XXI, os Estados Unidos registraram um aumento nos índices de mortalidade materna, cuja taxa passou de 17,5 mortes por mil nascimentos, para 26,5 óbitos com a mesma quantidade de nascimentos

No relatório mais recente da ONU sobre Drogas e Crime, os Estados Unidos aparecem com uma taxa de homicídio de 4,88 óbitos por 100 mil pessoas, o que o coloca o país em 59º lugar no mundo. Esse número contrasta com o de países europeus, como Áustria (0,51), Holanda (0,61), Canadá (1,68) e até a Albânia (2,28) e Bangladesh (2,51).

A gravidez na adolescência é frequentemente associada à vulnerabilidade. Segundo dados do Banco Mundial, os EUA registram uma taxa de 21 nascimentos desse tipo para cada mil mulheres entre 15 e 19 anos de idade – colocando o país no 68º lugar do mundo, mesmo nível de Djibouti, na África, e Aruba, território autônomo neerlandês do Caribe, ao largo da costa da Venezuela. 

Os Estados Unidos sediam as melhores universidades do mundo. Mas isso não significa que a formação média dos americanos esteja à altura desses centros de excelência. 

No teste sobre a capacidade de leitura, entre aqueles que não haviam terminado o ensino médio, os americanos ficaram entre os cinco países com os piores resultados. Entre aqueles que completaram esse nível de estudos, o país ficou abaixo da média de todos.

Na avaliação das habilidades numéricas, os americanos ficaram consistentemente abaixo da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico nos três níveis educacionais estudados. Além disso, o país ficou na lanterna em dois níveis: entre os que não terminaram o ensino médio e aqueles que concluíram esta etapa.

Na União Europeia, a situação também é ruim, mas se tomada como um conjunto de países é menos grave que a dos Estados Unidos. Tratando-se de desigualdade, as nações europeias têm índices melhores que os EUA, mas socialmente insignificantes.

Desde a metade dos anos 1980, os 10% mais ricos de cada país no mundo capturam uma crescente parte da renda gerada pela economia, enquanto os 10% mais pobres estão perdendo terreno. No Japão, 100 milhões de pessoas se diziam de classe média, mas desde o fim da década de 1990 foi constatado aumento da desigualdade.

Na China, a desigualdade é semelhante à verificada na África do Sul, com os 10% mais ricos ficando com 60% da renda. A Índia acumula diversos bilionários, mas continua sendo o país com mais pobres no mundo. 

Não é uma coincidência o aumento da desigualdade no mundo. Ela é uma consequência das políticas do receituário neoliberal, palavra se tornou uma arma retórica, uma ideologia que venera o mercado, desregula economias ao redor do mundo e nos afasta das coisas que nos tornam humanos.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

A humanidade sob ameaça

Antonio Carlos Lua

Para uma civilização cujo desenvolvimento é medido em milênios, 25 anos é um período que não representa praticamente nada. Certamente não deveria ser suficiente para devorar um planeta inteiro, mas, infelizmente, é para isso que estamos caminhando. 

As previsões de cientistas não são nada animadoras para a humanidade. No espaço de uma ou duas gerações poderemos tomar o caminho da autodestruição. 

As atividades humanas estão destruindo os ecossistemas, conduzindo a própria humanidade a uma crise global, sem precedentes. Estamos provocando um dano irreversível ao planeta Terra. 

Com mais um passo errado atingiremos os limites de tolerância da biosfera. Para evitar o colapso do sistema Terra – com o ser humano incluído – será necessário uma mudança drástica na gestão dos recursos terrestres.

Não é um alarmismo com viés catastrófico-ficcional. Vários cientistas norte-americanos e europeus – inclusive ganhadores do prêmio Nobel – alertam sobre os sinais claros de que estamos seguindo ladeira abaixo, rumo a um percurso insustentável. 

Estudos recentes registram progressos na redução de compostos químicos responsáveis pelo buraco de ozônio, no aumento da produção de energia a partir de fontes renováveis, no declínio da fertilidade e da taxa de desmatamento, que passou de 0,18% para 0,08%. 

É grave a situação dos recursos hídricos per capita, que diminuíram em 26%, desde o ano de 1992. Isso significa que em algum lugar alguém provavelmente ficou sem água. 

Continuam a diminuir os estoques de pescado, embora o boom da aquicultura tenha dado algum fôlego para os oceanos. Aumentam dramaticamente, as "zonas mortas" marinhas. 

Milhares de quilômetros de costa tornaram-se estéreis pelo afluxo de poluentes originados pelo setor agropecuário, como, por exemplo, os fertilizantes para a agricultura.

Hoje, estamos derrubando menos árvores, mas ainda assim perdemos 122 milhões de hectares de florestas em 25 anos, dizendo um não a um dos melhores seguros contra o aquecimento global. 

Disso decorre – segundo especialistas  o problema da atmosfera, aquecida por emissões de gases de efeito estufa que aumentaram implacavelmente em 62% em vinte anos. 

Tudo isso causou um aumento na temperatura média global na Terra de 167%, e repercute sobre nossos coinquilinos do reino animal. Desde 1992, perdemos 29% das espécies, entre mamíferos, anfíbios, répteis, peixes e aves.

Os cientistas insistem que, para superar essa longa descida rumo ao colapso, é crucial a redução da taxa de crescimento da população humana, que aumentou em 2 bilhões em 25 anos, equivalente a um aumento de 35%.

O último relatório divulgado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) aponta que o mundo tem apenas 12 anos para evitar um colapso ecológico, pois para que a meta mais ambiciosa de 1,5°C seja atingida, as emissões de gases de efeito estufa pelas atividades antrópicas teriam que ser reduzidas em cerca de 45% até 2030, chegando a zero por volta de 2050. 

A Terra está sob ameaça. O tempo é curto para evitar o pior. Sem uma ampla rede ecológica não haverá mais vida evoluída no Planeta. Sem estabilidade climática o céu pode se tornar um inferno. Não existe futuro para a humanidade se o planeta se tornar uma “Terra estufa”. 

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Tirania do capital

Antonio Carlos Lua

O posicionamento do Papa Francisco nas questões ligadas à democracia, justiça social, economia, meio ambiente e globalização tem gerado reações no mundo midiático que faz pouco esforço para compreender o que é que sustenta verdadeiramente o pontífice. 

Impõe-se a Francisco – primeiro Papa latino-americano, primeiro pontífice não europeu em mais de 1.200 anos e o primeiro Bispo de Roma jesuíta da história – o clichê pouco concentrado nos dogmas de fé, acusando ele de dedicar-se muito à denúncia dos males terrenos.

Aqueles com gostos pelos paradoxos definem Francisco como o melhor líder da esquerda, reforçando o discurso dos ultraconservadores que acham o Papa demasiadamente político.

Qualquer pessoa que analisar a postura do pontífice perceberá que os seus argumentos e suas as críticas têm um fio condutor. 

Não é absurdo o Papa dizer que a única força que agora parece governar o mundo é a busca do lucro, quando qualquer manifestação humana é submetida ao “deus dinheiro”. 

Hoje, o poder da riqueza foge de todas as regras, expandindo-se sem controle e determinando muitas injustiças. Bilhões de seres humanos são lançados na miséria pelo egoísmo de poucos. 

Todos sabem que o sistema econômico atual é uma gangrena que – mesmo maquiada – mais cedo ou mais tarde seu mau cheiro será sentido, com a fraude moral daqueles que ignoram os que estão em sofrimento.

Quando se produz a bancarrota de um banco, imediatamente aparecem somas escandalosas para salvá-lo, mas quando se produz esta bancarrota da humanidade não há nem uma milésima parte para salvar os cidadãos que sofrem. 

Temos um sistema cruel que escraviza, rouba, fere, ameaça e abate os pobres como gado até onde o dinheiro quer. 

O terrorismo de base que emana do controle do dinheiro nos ameaça a todo instante com a tirania semeado na sociedade que alimenta a exclusão, a opressão, a desigualdade e a violência econômica e social, gerando cada vez mais miséria numa espiral que parece não acabar nunca. 

Os governantes olham para aqueles que estão na miséria sem tocá-los, adotando um discurso repleto de eufemismos, mas sem fazer nada para resolver efetivamente os problemas sociais.

Esta atitude hipócrita expressa a ausência de compromisso com a sociedade. O desemprego é real, a violência é real, a corrupção é real, o esvaziamento da democracia é real. 

Com o ecossistema destruído pela exploração selvagem dos recursos naturais e com uma paz ameaçada em sua raiz pelos mercadores de armas cada vez mais destrutivas, temos povos culturalmente colonizados pelo pensamento único liberal e individualista.

Que mal há em dizer que a única origem desses males é a tirania do capital? 

A questão não é ser contra o livre mercado, contra o capitalismo, mas sim ser contra seus excessos, principalmente na América Latina, que continua sendo o “terceiro mundo”, como definia o saudoso jornalista Neiva Moreira, que por muito tempo cobriu o processo de desenvolvimento nos países latino-americanos como editor da revista “Cadernos do Terceiro Mundo”.

Ninguém vê com suspeita os empresários. O que não se admite é a especulação financeira, concorrência desleal, sonegação – estes sim comportamentos completamente indiferente ao destino da sociedade. 

Denunciar a raiz humana da crise ecológica e pedir para parar o crescimento baseado na espoliação do planeta não é querer voltar ao tempo das cavernas. 

Nenhuma visão cristã pode ser passiva ao ponto de não dizer que o mundo está à beira do suicídio e corre o risco de nele cair se não mudar decisivamente de rota e enfrentar os problemas ligados às mudanças climáticas, fruto do atual modelo de desenvolvimento.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Os muros estavam chorando

Se os muros físicos que separam países simbolizam a nossa incapacidade de resolver diferenças usando os instrumentos das democracias modernas para a Justiça, solidariedade e a Paz Social, a destruição dos muros de celebração de amizades provocam angústia, por nos conduzir a fazer rupturas profundas, difíceis de consertar, quebrando liturgias, vínculos e valores civilizatórios de convivência humana.

É o que podemos interpretar com a leitura do poema carregado de sentimento e sensibilidade “Os muros estavam chorando”, da lavra do renomado advogado e ex-presidente da Seccional Maranhense da OAB, Raimundo Marques

O poema expressa o drástico retrocesso não só na paisagem urbana, como também humana, nos levando a perder o desejo de andar e apreciar a cidade, exercendo o nosso direito consagrado de observação livre da vida e das coisas que fazem parte do nosso cotidiano. 

Muros sem vida, sujos, mal cuidados, com concepção estética caracterizada pela propaganda de banalidades pregando valores sociais não generosos, comprometem o desenho urbano, destroem a beleza da cidade, num cruel retrocesso social, cultural e humano.

São simulacros de paisagem fortalecidos pela aculturação ditada por uma política exploratória e destrutiva, evidenciando os sintomas de um urbanismo sem qualquer coesão social com o tecido humanístico.

Leia, abaixo, o poema: 

OS MUROS ESTAVAM CHORANDO

Raimundo Marques

Os muros estavam chorando.
Por pouco tempo, é verdade.
Detive-me olhando a rua Coronel Lago.
Inevitável surto de saudade.
Cadê a casa? as casas? o muro? A mim mesmo indago.
Mas que muro? O do seu Bena?
A separar a nossa, da casa do vizinho amigo?
Sim, só podia ser este, viva lembrança, que pena!
Uma farmácia agora, no local, nenhum sinal do antigo
Até a casa, grande, morada inteira, gente amiga.
Agora, lojão do famoso “sucesso em qualquer lugar”.
Nenhum resquício da mansão antiga.
Continuei procurando outro silente muro.
Não encontrei nenhum, “limpo e puro”.
Mas ví alguns que expressavam dores.
Agredidos e humilhados , pelos   pichadores.
Tolas propagandas comerciais.
Anúncios, ainda visíveis, banais.
Mal apagados, de políticos profissionais.
Enfim, a mudez dos muros, bem olhando.
Sem pinturas, tintas mortas, no seu lugar, gotas lacrimais.
Os muros estavam chorando.