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domingo, 6 de outubro de 2019

Vícios históricos


Antonio Carlos Lua

A Constituição Federal – lei fundamental suprema do país, que serve de parâmetro de validade a todas as demais espécies normativas, situando-se no topo do ordenamento jurídico – está completando 31 anos de existência, exercendo nesse período uma influência marcante em todos os ramos do Direito. 

A atual Carta Magna – que revogou antigas orientações constitucionais que regravam um Estado autoritário – foi promulgada simbolizando a liberdade democrática, com ênfase na soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político. 

As mudanças que ocorreram ao longo desses 31 anos exigem, no entanto, uma avaliação. Assim, será possível saber se as cláusulas pétreas – fundamentais para o cidadão e para a sociedade – ainda continuam sendo o núcleo fundamental do nosso ordenamento jurídico, e se as perspectivas otimistas que existiam na época da Assembleia Nacional Constituinte foram, de fato, consolidadas. 

Nos deparamos com algumas conclusões desanimadoras. A atual Carta Magna foi a que mais sofreu alterações com as reformas de Estado, capitaneadas pela onda neoliberal, que se abateu inclusive sobre os direitos previdenciários, após mais de três décadas do início do processo de redemocratização do país. 

As garantias constitucionais não estão sendo respeitadas. A violência, a injustiça social e a corrupção se agravaram. O país ainda não conseguiu transformar direitos declarados em direitos efetivos. 

Quando a Constituição foi promulgada, acreditava-se que ela seria o suficiente para transformar a realidade do Brasil. Infelizmente, o país ainda carrega vícios históricos de injustiça social, de absoluta confusão entre o público e o privado. 

É lamentáveis verificar a falta de efetividade das leis brasileiras e admitir que ao longo desse anos o país foi palco de um verdadeiro festival de normas de todos os tipos, a maioria desfavoráveis aos cidadãos. 

São mais de 4,35 milhões de novas regras federais, estaduais e municipais editadas. Das 4,5 milhões de novas normas aprovadas nos últimos 25 anos, 155.954 mil são federais e – além das mais de 70 emendas – incluem duas leis delegadas, 80 leis complementares, 4.762 leis ordinárias, 1.162 medidas provisórias originárias, 5.491 reedições de medidas provisórias, 10.590 decretos federais e 133.793 normas complementares, o correspondente a uma média de 18,57 normas federais editadas por dia. 

A quantidade de regras editadas corresponde a 518 novas normas por dia, ou 776 por dia útil, gerando um emaranhado confuso de assuntos, trazendo instabilidade e insegurança jurídica para os cidadãos brasileiros, que ficam impossibilitados de entender conteúdo das leis, inclusive para saber seus direitos e obrigações. 

No âmbito estadual, foram editadas mais de 1.136.185 normas, sendo 259.889 leis complementares e ordinárias, 376.994 decretos e 499.301 normas complementares. Em média, foram editadas 135,28 normas por dia. Os municípios brasileiros são responsáveis pela edição de 3.061.526 normas, divididas em 542.745 leis complementares e ordinárias, 577.500 decretos, e 1.941.282 normas complementares.

Das 4,35 milhões normas criadas a partir da promulgação da atual Constituição Federal, mais de 275 mil se referem a tributos. Dessas novas normas tributárias, 29,5 mil são federais, 85,7 mil estaduais e 159,8 mil municipais. Chama a atenção a quantidade de taxas e impostos criados e modificados – na maioria dos casos, aumentados – no período.

Foram produzidas mais de 33 normas tributárias por dia, com a edição de 6,1 a cada hora útil. Ocorreram também 15 reformas parciais de natureza tributária, que resultaram na criação de inúmeros tributos, entre eles a Cofins, Cides, CIP, CSLL, entre outros.

Do total de normas editadas, 13,02% (566.847) permanecem em vigor. Atualmente, 20.082 normas tributárias estão em vigor. Cada empresa cumpre, em média, 3.507 normas tributárias. Para realizar o acompanhamento das modificações da legislação, as  empresas gastam cerca de R$ 45 bilhões por ano. Só para o ICMS, existem no país 27 legislações diferentes. 

No Brasil, para ser considerado um especialista em impostos o cidadão deve conhecer pelo menos 30.384 artigos, 91.764 parágrafos e 293.408 incisos.  Nunca o país produziu tantas leis quanto nas últimas duas décadas, muitas delas destinadas à lata de lixo da História por inconstitucionalidade ou irrelevância. 

O fracasso das regras absurdas não inibe a fúria legiferante do Poder Legislativo. Atualmente tramitam no Senado mais de 700 projetos de lei e, na Câmara Federal, mais de quatro mil proposições para criação de normas.

Foram mais de 73 emendas e mais seis emendas de revisão desde a sua promulgação. Para se ter uma ideia, a Carta Magna dos Estados Unidos, que tem 34 artigos e 225 anos, recebeu até agora apenas 27 emendas. 

Diante de tantas e tão extravagantes normatizações resultantes da compulsão na produção de regras legais, as leis essenciais também acabam negligenciadas. Falta senso de objetividade aos legisladores brasileiros, que desconhecem o ensinamento do historiador romano Cícero, para quem “o mais corrupto dos Estados tem o maior número de leis”. 

domingo, 29 de setembro de 2019

É urgente voltar a Marx

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Antonio Carlos Lua

Karl Marx – filósofo, historiador e jornalista – está mais vivo e atual do que nunca. O mundo hoje se parece, surpreendentemente, ao que ele e seu amigo Friedrich Engels prognosticaram no admirável ‘Manifesto Comunista’, conclamando pela união dos produtores de riqueza contra a elite burguesa expropriadora da mais-valia. 

Marx sofreu o destino de todos os grandes gênios, sempre incompreendido pela mediocridade reinante e pelo pensamento encadeado ao poder e às classes dominantes. 

Assim como Copérnico, Galileu, Servet, Darwin, Einstein e Freud, foi perseguido, humilhado e ridicularizado pela pequenez de intelectuais e por políticos complacentes com os poderosos, que repugnavam suas concepções revolucionárias.

Foi por isso que a Universidade cuidou muito bem de fechar suas portas a Karl Marx, Nem ele, nem seu eminente colega Friedrich Engels, jamais ascenderam aos claustros acadêmicos. No entanto, os dois produziram uma autêntica revolução nas ciências sociais. 

Depois de Marx, nem a humanidade nem as ciências sociais voltaram a ser o que eram antes, com a amplitude enciclopédica de seus conhecimentos e a profundidade de sua visão política empenhada na busca de evidências sobre a exploração do trabalho que transforma o homem numa mercadoria coisificada e alienada e sobre a desigualdade social discrepante que cresce de maneira exponencial.

Este sórdido mundo de oligopólios predatórios, de guerras, de degradação da natureza e roubo de bens comuns, da desintegração social, das sociedades polarizadas e de nações separadas por abismos de riqueza, poder e tecnologia é o mundo que Karl Marx antecipou em todos os seus escritos. 

O caráter decisivo da acumulação capitalista – estudada como ninguém mais em “O Capital” – era negado por todo o pensamento da burguesia e pelos governos, que até hoje pensam equivocadamente que a história é movida pela paixão dos grandes homens, pelas crenças religiosas, pelos resultados de batalhas heroicas ou imprevistas contingências da história. 

Karl Marx tirou a economia das catacumbas e não somente destacou sua centralidade, mas demonstrou que toda a economia é política, que nenhuma decisão econômica está despojada de conotações políticas. 

Mais do que isso, ele mostrou que não existe saber mais político e politizado que o da economia, rematando os tecnocratas, de ontem e de hoje, cujas elucubrações econométricas obedecem a meros cálculos técnicos, com as monumentais sandices de ultraliberais como Paulo Guedes e tantos outros tão ineptos quanto corruptos.

Por méritos próprios Marx está mais vivo do que nunca. O farol do seu pensamento projeta uma luz cada vez mais esclarecedora sobre a tenebrosa realidade do mundo atual.

domingo, 8 de setembro de 2019

Descaminhos da politica


Antonio Carlos Lua

Desde 1824 – logo depois que se instaurou a independência, declarada, em 7 de setembro de 1822, pelo então regente do país, Pedro de Alcântara, que se tornou o primeiro imperador do Brasil, consagrando-se como D. Pedro I – vivemos um arranjo democrático, que perdura ao longo dos anos, passando pela monarquia e os períodos de regime republicano.

O Brasil nunca foi uma autêntica democracia no sentido original da palavra na língua do poeta épico da Grécia Antiga, Homero. Entre nós, o poder supremo, ou seja, a soberania, jamais pertenceu ao povo (demos).

Embora tenhamos uma Constituição Federal, muito bem-acabada, enquanto peça legal, um código político velado vem assegurando a dominação elitista na sociedade. Nem mesmo o processo constituinte que culminou na Carta Magna de 1988 foi capaz de romper com essa lógica. 

Nossa construção democrática sempre caminhou com uma Constituição oficial, institucional, e outra ilegal, paralela, subliminar e não escrita, com a cooptação política da oligarquia nacional que, com a complacência de alguns partidos, se sobrepõe e solapa as regras democráticas.

No Brasil, a diferença entre o que está na lei e o que existe na prática não é de hoje, é de sempre. Encontramos no artigo 1º, parágrafo único, da Constituição Federal, a declaração fundamental de que todo poder emana do povo que o exerce diretamente por intermédio de representantes eleitos. 

Na verdade, o povo não tem poder algum no Brasil. Ele faz parte de um conjunto teatral, embora não sendo parte propriamente do elenco, mas ficando em torno do elenco. Toda a nossa vida política é decidida nos bastidores. 

Para mudar isso não basta mudar as instituições políticas. É preciso mudar a mentalidade coletiva e os costumes sociais, que fazem com que o povo não saiba que democracia é um regime político em que ele tem o poder, em última instância, para decidir as questões fundamentais para o futuro do país, não somente elegendo os seus representantes, mas também tendo o poder de destituí-los. 

Essa noção pouco clara de democracia é fruto de quase quatro séculos de escravidão. Quando Tomé de Souza desembarcou no Brasil, em 1549, trouxe o seu famoso regulamento de governo, no qual tudo estava previsto, mas faltando, porém, a coisa mais importante: a constituição de um povo. 

Ao longo da história, o Brasil não conseguiu constituir esse povo. Isso porque o poder sempre foi oligárquico, ou seja, de uma minoria, fazendo-nos chegar ao Século XXI a uma situação de duplicidade completa. 

A história mostra que nós nunca vivemos de modo republicano e democrático. O primeiro historiador do Brasil, Frei Vicente do Salvador, apresentou uma declaração que até hoje permanece intocável, ao dizer que “nenhum homem dessa terra é repúblico, nem zela e trata do bem comum, se não cada um do bem particular”. 

Não existe a possibilidade de democracia sem que haja uma comunidade em que o bem público esteja acima dos interesses particulares. O chamado povão, as classes mais populares e humildes já trazem há séculos essa mentalidade de submissão. 

Procuram resolver os seus problemas através do auxílio paternal de certos políticos ou através do desvio da lei. Vemos isso cotidianamente. No Brasil, o povo geralmente não se insurge contra uma lei considerada injusta, pois o costume é sempre desviar-se da proibição legal.

Essa mentalidade foi forjada por uma instituição política colonial, depois imperial e falsamente republicana, mas, sobretudo, pela vigência do sistema capitalista, que entrou em vigor no Brasil no ano do seu descobrimento. 

O sistema capitalista tem essa característica específica, com o poder sempre oculto e dissimulado. Os grandes empresários, por exemplo, dizem que não são eles que fazem a lei, mas, na verdade, são eles que fazem o Congresso Nacional. São eles que dobram os presidentes da República. 

Enquanto isso, o povo continua não tendo a menor participação, ainda que reduzida, no exercício da soberania. Isso acontece desde a proclamação da República, quando ele assistiu bestializado a tudo o que acontecia, talvez imaginando tratar-se de uma parada militar, como descreveu o jurista, jornalista e abolicionista no tempo do Império, Aristides Lobo.

domingo, 1 de setembro de 2019

Democracia sem memória

Antonio Carlos Lua

Há 40 anos era promulgada a controversa Lei da Anistia, que concedeu perdão a todos que cometeram crimes políticos, crimes conexos e crimes eleitorais entre os dias 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979. 

A anistia foi estendida ainda aos que tiveram seus direitos políticos suspensos, aos servidores públicos ligados à administração estatal, aos militares e aos dirigentes e representantes sindicais punidos pelos Atos Institucionais e Complementares durante a ditadura militar.

A Lei da Anistia não é um tema do passado, como muitos dizem. É um assunto atual, adiado por muito tempo. O debate em torno da referida Lei é extremamente  necessário, para a uma avaliação da qualidade da democracia que o Brasil vem tentando construir nos últimos 30 anos. 

A ambiguidade da Lei de 1979 teve dois ingredientes. Por um lado, significou a interrupção da perseguição política em larga escala com a capilaridade que vinha tendo através do Sistema Nacional de Informações (SNI). 

Significou também o retorno dos exilados e a libertação dos presos políticos, com a diferença de que os presos que estavam condenados pelos chamados “crimes de sangue” — como se falava à época — ou seja, os condenados por terem tomado parte na luta armada, não estavam incluídos e ficaram de fora do texto final da Lei da Anistia. 

Por outro, houve injustiças, pois aqueles agentes públicos que praticaram crimes contra a humanidade, torturaram, mataram e, portanto, também praticaram “crimes de sangue”, não viriam a ser investigados e, consequentemente, não vieram a sofrer responsabilizações sob o ponto de vista criminal. 

Assim, a seletividade que a lei estabeleceu foi prejudicial àqueles que foram perseguidos políticos. A sociedade organizada nos Comitês de Anistia queria a responsabilização dos torturadores. No entanto, a forma como o governo controlou esse processo impediu que isso viesse a acontecer.

Dessa forma, a Lei da Anistia estabeleceu um tratamento discriminatório em relação aos perseguidos políticos. Ou seja, reverberou a seletividade da perseguição política e também trouxe um bloqueio para que se pudesse investigar os crimes praticados pela ditadura, caminhando, assim, em direções ambíguas. 

A Lei da Anistia trouxe consigo um ingrediente de reposição do período de perseguição política, repetida em muitos dos seus artigos na Emenda Constitucional (EC 26/1985), que chamou a Assembleia Nacional Constituinte. 

A emenda repetiu os termos da Lei da Anistia de 1979 com uma mudança que diz respeito à definição do que seriam crimes conexos. A definição muito pouco precisa fez com que um julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre a constitucionalidade da referida lei, em 2010, ressuscitasse essa interpretação heterodoxa do conceito de crime conexo. O entendimento do STF foi de que conexão criminal seria tudo o que se relacionaria a crime político, de qualquer natureza. 

A ditadura construiu uma interpretação para a ideia de crime conexo, afirmando que um eventual “crime” que o agente público teria cometido para perseguir quem praticava o crime político ou o crime que é conexo ao político, também seria considerado crime conexo. 

Isso é algo que não é sustentável em nenhum livro de Direito Penal ou reflexão acadêmica, teórica ou técnica, do Direito Penal. Foi um estratagema utilizado para anistiar os crimes dos agentes da ditadura sem assumi-los, sem dizer com todas as letras que estariam anistiados os crimes de tortura, de assassinato, entre outros crimes praticados, inclusive, por agentes públicos.

Essa foi a interpretação que na época da ditadura predominou, alcançando uma elasticidade impressionante, inclusive do ponto de vista temporal, valendo para trás e para frente, de maneira muito aberta e generalizada, para impedir que as investigações pudessem caminhar. 

Uma das questões atuais da Lei da Anistia de 1979 está presente, sem dúvida alguma, nessa barreira de esquecimento e de silêncio que se impôs a partir da sua promulgação, com a desculpa e a referência institucional dela. Talvez esse seja um dos aspectos atuais mais evidentes dessa herança gerada na Lei da Anistia, com as limitações da nossa redemocratização.

Como uma boa parte da nossa democracia desse período que chamamos de República Nova se estabeleceu com a crença de que estávamos num processo ascendente de fortalecimento democrático, colocamos as deficiências da lei debaixo do tapete, sem o devido enfrentamento. 

Mas, agora, vivemos um processo social e político no qual essas questões não conseguem mais ficar onde estavam. Elas estão ressurgindo sem que possamos manter escondidos os desafios que foram postergados. 

Precisamos lutar contra essa tendência, que é própria da modernidade, de querer pensar sempre para frente, no sentido de esquecer o que veio antes e de achar que o progresso é inevitável e linear. Não é. Se formos pensar numa sociedade mais justa e menos violenta, vamos olhar para trás e ver que não houve muito progresso. 

Para podermos chegar nos pontos cegos da nossa sociedade temos que ter esse compromisso de conversar com o passado e de saber que a interpretação que temos do passado é determinante para o nosso presente e para o nosso futuro. 

Se não fizermos isso, andaremos às cegas. Um país violento como o Brasil clama por essa atitude. Devemos nos colocar entre aqueles que veem na rememoração da anistia brasileira e na discussão dela não um tema do passado, mas um tema atual.

domingo, 25 de agosto de 2019

Lógica maquiavélica

Antonio Carlos Lua

O mundo poderá testemunhar a terceira revolução da arte da guerra, depois das invenções da pólvora e da bomba atômica. A China, Reino Unido, EUA, Israel e Rússia estão desenvolvendo armas autônomas de destruição em massa, que poderão decidir, sozinhas, matar, sem envolvimento humano.

São os avançados robôs assassinos, criados pela junção das tecnologias da robótica, da cibernética, da Realidade Aumentada (RA) e da Inteligência Artificial (IA). 

Tudo começa, é claro, com o trabalho da comunidade tecnológica assentada no Vale do Silício, Califórnia, no aprimoramento de Inteligência Artificial e sua aplicação em múltiplas funções, incluindo identificação de imagens e reconhecimento de voz. 

Os robôs assassinos estão sendo desenvolvidos nos esconderijos supersecretos das potências militares, mostrando que “a guerra é a continuação da política por outros meios”, como disse o estrategista militar prussiano, Carl Von Clausewitz (1780/1831), no livro “Da Guerra”.

Com sua versão autônoma, os robôs assassinos garantem tudo o que atualmente constitui uma arma – tanques, caças, submarinos – tendo o poder de enviar um milhão de minidrones em um contêiner ou em um avião cargueiro, com a capacidade destrutiva de uma bomba atômica. 

Enquanto sonhamos com o momento utópico em que os robôs simpáticos, bonzinhos e trabalhadores façam todo o serviço necessário para sustentar a humanidade, a realidade distópica investe na criação de autômatos de guerra e em robôs superinteligentes e assassinos.

Os robôs assassinos – com memória ilimitada e capacidade cognitiva – já foram testados nos conflitos armados do Iêmen e outros países do Oriente Médio. Os membros do grupo ISIS – segunda organização terrorista mais mortífera do mundo – que o digam.

Esses robôs voam e atuam durante o dia e à noite. Enxergam os inimigos com luz infravermelha e lançam mísseis contra os alvos cirúrgicos definidos pela Inteligência Artificial. São projetados para matar e ainda absorvem o recuo das armas poderosas.

Há algum tempo o Pentágono vem avançando no uso de armas robóticas, associadas à Inteligência Artificial, que podem responder às ameaças recebidas de artilharia e mísseis, envolvendo-se em ações militares contra forças inimigas sem a supervisão humana. 

Assim, as forças políticas e militares dos países mais desenvolvidos estão a ponto de abrir a caixa de Pandora, com vastos enxames de armas robóticas guiadas por Inteligência Artificial se enfrentando em uma velocidade superior ao que os comandantes de guerra conseguem acompanhar no curso de uma batalha.

Hoje, podemos dizer que o princípio ético primum non nocere (“primeiro, não prejudicar”) não se aplica mais, pois na guerra as primeiras vítimas são a verdade e a ética.

Os cérebros cibernéticos, de grande memória e capacidade de processamento conseguem se conectar aos dispositivos móveis – drones, carros, tanques autônomos, navios autoguiados, transformers, ciborgues, androides – partindo para a ação, independentemente do controle humano.

Não é necessário um cérebro particularmente ágil para entender por que oficiais do Pentágono buscariam se munir com tal tecnologia, que lhes dará uma considerável vantagem em futuras guerras. Assim, qualquer conflito de grande escala entre EUA, China ou Rússia – ou ambas – seria, para dizer o mínimo, extremamente violento.

A lógica da guerra é terrível. Os interesses mesquinhos sempre prevalece no império da lógica consequencialista maquiavélica, nos fazendo lembrar que, na Segunda Guerra Mundial, o poder da potência emergente criou o primeiro supercomputador (ENIAC) e lançou duas bombas atômicas, em Hiroshima (06/08/1945) e em Nagasaki (09/08/1945).

A questão merece vários questionamentos. Como fazer com que o Direito Internacional humanitário seja respeitado quando máquinas tomam a decisão de matar? O que pensar do robô da Samsung, capaz de matar automaticamente na fronteira coreana? O que pensar das empresas americanas Amazon e Microsoft participando de projetos militares para o desenvolvimento de robôs assassinos?

Esses questionamentos são realistas. Não é uma conjectura baseada em filmes de ficção científica ou narrativas distópicas. O receio é que num futuro próximo toda a deslumbrante tecnologia que funciona a nosso favor passe a se unir e se virar contra os humanos.

domingo, 11 de agosto de 2019

O capital quer ocupar o lugar da arte e do homem


Antonio Carlos Lua

Acessar o subterrâneo da obra de Guimarães Rosa, em sua complexa teia subjetiva, é tarefa sempre incompleta, mas iluminadora sobre a força de uma literatura que se traduz na duplicidade entre o regionalismo e o universal, tendo como argumento central o próprio fazer literário. 

Com suas estratégicas linguísticas, Guimarães Rosa – como bom mineiro – come o angu pelas bordas, deixando pistas para desvelar o que é velado, clamando pela revelação. Ler o povo brasileiro na sua obra é vivenciar o humanismo e ser tocado a compreender a multifacetada realidade brasileira.

Sua principal obra – “Grande Sertão: veredas” – nasceu do pó da terra que constitui o Brasil. Embora alguns insinuem  uma resistência de Guimarães Rosa à manifestações de cunho político, é importante proclamar que o fazer literário do escritor mineiro faz as vezes de seus manifestos, com enorme vantagem. 

Infelizmente, no atual momento brasileiro, não se parece cumprir o que Guimarães Rosa esperava para o século XXI, uma vez que a chamada ‘brasilidade’ que ele tanto falava está em baixa, num momento em que as ações do capital querem ocupar o lugar da arte e do homem, ficando cada vez mais distantes os prognósticos do escritor.

A última palavra de sua obra “Grande Sertão: Veredas” é a que liga o fio do tempo, o passado e o presente, de um Brasil que, tanto antes como agora, é o país que poderia ter sido, mas nunca foi. A “jagunçagem”, para usar um termo do autor, é uma forma política presente no país e nos coloca diante de enormes contradições. 

É somente renovando a língua que se pode renovar o mundo. Foi com esse intuito que Guimarães Rosa se entregou de corpo e alma à tarefa de revitalização da linguagem, vista por ele como verdadeira missão.

Em tempos de polarização política e consequente emburrecimento dos extremos, seria bom aprendermos algo mais com Guimarães Rosa, cuja obra envolve inteiramente os que se atrevem a lê-lo. 

Ele joga luzes sobre as sombras da alma humana, revelando as contradições presentes na feitura do homem, não com o espanto de quem não conhece nem a si próprio, mas, sim, como um verdadeiro médico que conhece as dores mais profundas, tanto as suas como as daqueles que se forem vistos com um olhar descuidado passam por sadios, normais e comuns.

Enquanto Gilberto Freyre usava o símbolo de um entrelaçamento harmonioso entre senhores e escravos, Guimarães Rosa acentua em sua obra o antagonismo entre os donos de ‘casas grandes’ e os que moram em casebres nas ‘veredas’. 

“Grande sertão: veredas” versa sobre a ausência de diálogo entre os ricos e os pobres. Não se trata da diferença entre um Brasil sertanejo e um Brasil urbano, até porque hoje nas favelas das grandes cidades esses ‘dois Brasis’ se misturam. Trata-se, na verdade, da falta de diálogo entre a classe dominante e as classes populares.

domingo, 4 de agosto de 2019

A ditadura do algaritmo

Antonio Carlos Lua

Hoje, falamos apenas uma língua no planeta: a matemática. Morar na China, na Austrália ou no Brasil, não faz diferença. A língua que domina a economia e a política é a matemática. 

Da linguagem universal da matemática nasceu a revolução dos algaritmos, com a inteligência artificial nos oferecendo a possibilidade de mudar a própria humanidade.

Com o poder de transformar o corpo, o cérebro e a mente, a inteligência artificial poderá criar seres com características diferentes de nós e bem maior daquilo que nos diferencia de outros hominídeos.

Cientistas têm anunciado ao mundo inteiro que uma superespécie está prestes a nascer. Somos os últimos exemplares de uma espécie a ser superada. A velocidade da tecnologia nos tornou limitados. 

A transformação – dizem os cientistas – começará com a modificação do nosso DNA através da engenharia genética e a biotecnia, que entrarão em ação para criar cyborgs – uma mistura de partes orgânicas e inorgânicas.

É algo que nunca vimos no curso de quatro bilhões anos de vida na Terra. Nem mesmo na literatura ficcionista de Isaac Asimov, Ursula Le Guin, Philip Dick e Aldous Huxley houve qualquer vislumbramento sobre a mistura de corpo humano e robô. 

Agora, o humano e o tecnológico estão se fundindo, e isso está acontecendo em nosso presente. É a mudança mais significativa na evolução da vida. 

Presenciamos hoje uma inversão da relação entre humano e tecnológico. Confiamos cada vez mais no poder dos computadores e algoritmos, nos deixando guiar totalmente por eles. É o totalitarismo das máquinas. A ditadura do algaritmo.