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segunda-feira, 9 de março de 2020

Uma nova cultura política


Antonio Carlos Lua

Diante de uma das maiores crises políticas já enfrentadas no país, a tarefa mais urgente no momento é repensar o Brasil, revendo, com serenidade, consciência, lucidez e — acima de tudo — com conhecimento, nossa experiência nacional. 

Esta é uma tarefa básica, fundamental. Temos de nos conhecer cada vez mais, em vez de ficar repetindo clichês falsificadores da nossa trajetória no tempo.

A crise política brasileira — que tem uma de suas raízes fincadas nos partidos políticos — é fortalecida pelas forças populistas que se convertem num rito vazio na hora da formulação das políticas públicas. Elas corroem a representatividade e fragilizam a democracia, ao dizer uma coisa e fazer outra, num jogo cínico e manipulador.

Essas forças retrógradas impedem que viremos a página para entrarmos no capítulo inaugural de uma nova cultura política e de um novo sistema de poder, construindo um país diferente, coisa que não interessa àqueles que tiveram a oportunidade histórica de dar o pontapé inicial nessa partida e não o fizeram por incompetência, rasurando o mapa político da democracia.

O que se defende de maneira rápida  mas nem por isso irrelevante — é a necessidade de configuração de uma política com a cidadania se constituindo como tendência à autorrepresentação, aposentando os velhos expedientes surrados e apodrecidos. 

A mudança até agora não foi concretamente sinalizada, mas há uma reivindicação adormecida, não extinta, que mais cedo ou mais tarde, promete subir acesa ao centro do palco político nacional, para nos levar a repensar a sociedade e reinventar o Brasil como Nação.

Não estamos realmente encarando, em toda a sua complexidade, a experiência nacional, com a história oficial substituindo mentiras antigas por mentiras novas. 

No quintal da política brasileira, as plantas crescem, mas não se sustentam. O agricultor remove as plantas e coloca novas mudas, mas o problema persiste, pois a terra não foi revolvida e o substrato continua comprometendo o pleno desenvolvimento da planta. 

Vivemos uma crise política sem precedentes, que coloca em xeque todo o sistema político estabelecido. Nossos partidos se renderam à lógica do corporativismo. Eles não representam os interesses da sociedade e tão somente os seus próprios interesses. 

A queixa não é apenas relativa à baixa qualidade da nossa atual representação política, que é, sobremaneira, entristecedora, com o deficit democrático. Na verdade, nós não temos partidos políticos. Temos partidos eleitorais — e só. 

Muitos fatores parecem nos levar a um descolamento da realidade social, que culmina na falta de adesão da população aos programas partidários, uma vez que estes não procuram saída alguma para a crise nacional.

Os partidos não encarnam o interesse nacional e parecem querer tudo, menos pensar. O pensamento — principalmente, o pensamento livre, nada dogmático, nada subserviente a dogmas e princípios apriorísticos — virou uma espécie de maldição e é estigmatizado.

Nossas agremiações partidárias se acham infalíveis e nunca reconhecem os erros e nem os crimes gravíssimos que cometem contra a democracia e o povo brasileiro. Pairam acima dos mortais e falam sobre coisas reais numa linguagem que ninguém entende, sem nenhum sinal de autocrítica. 

Estão em total desconexão com a realidade, com as pessoas, mas, mesmo assim, superestimam o seu lugar, sua força, em detrimento de uma leitura clara do real histórico político brasileiro. 

Chegamos ao grau absoluto da redundância política e não vamos sair disso se não rediscutirmos impiedosamente as idiotices que fizeram o país alcançar tão nítido e espetacular fracasso no campo político-democrático.

Os partidos políticos brasileiros só toleram a democracia na medida em que possam controlar o aparelho estatal e, a partir de então, fazer o que bem quiser com a sociedade. Jamais lutam pela democracia e criam uma fantasia bem distante da realidade. Eles olham a democracia como instrumento de manipulação alienante. 

Essa realidade aparece clara e escandalosamente na frente de nossas caras com a simbiose entre o público e o privado que reina soberanamente na política nacional. Exemplos extremos da promiscuidade entre o público e o privado não faltam no país.

Muita coisa aconteceu e vem acontecendo na história política do Brasil, O substrato político presente nos faz viver uma conjuntura de retrocessos, narrada no livro ‘Raízes do Brasil’, de autoria do jornalista, historiador e crítico literário, Sérgio Buarque de Holanda, que continua muito atual, fornecendo chaves de leitura para pensarmos sobre o vazio da política representativa que se vive no momento.

O contexto em que surge ‘Raízes do Brasil’ é a década de 1930. Desde lá, continua no ar a pergunta sobre o pacto político. No livro, Sérgio Buarque de Holanda chega a dizer que “a democracia no Brasil sempre funcionou como um lamentável mal-entendido”. Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus direitos e privilégios. 

Em um momento em que o Brasil passa por crises em distintas ordens – notadamente nos aspectos político, econômico e ético – a obra reveste-se de particular significado, propondo um outro olhar sobre nossa história, com uma interpretação original da emergência de novas estruturas políticas. 

Por que continuamos a insistir nos erros que constituem esse mal-entendido apontado no “Raízes do Brasil”, quando este aborda aspectos singulares, próprios da organização sociopolítica do país? Como pensar — e construir — outra democracia no Brasil? 

Não temos como desdobrar o futuro porque não possuímos dom premonitório, mas podemos afirmar que o Brasil está encolhendo cada vez no campo democrático e, por isso mesmo, deve ser rigorosamente repensado, dando-se início ao processo de reafirmação da ideia sobre o que é democracia.

O simples fato de repensar o Brasil colocará em pauta a reapresentação da ideia democrática em condições novas. Isso pode até parecer um discurso velho, antiquado, mas diante do que estamos vendo é extremamente atual como muitos célebres conceitos de Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil” sobre uma nova forma de fazer política no país. 

Ou repensamos o Brasil de forma inovadora ou não haverá mais lugar para nós. Diante da incompatibilidade entre as doutrinas políticas e a realidade nacional, faz-se necessário organizar a desordem política no país.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Machado de Assis e o seu posicionamento na arena ideológica de seu tempo


Antonio Carlos Lua

O escritor e jornalista Machado de Assis – fundador da prosa moderna brasileira – tem uma obra genial, pela complexidade e sutileza, mantendo-se atual até hoje com temas clamorosamente contemporâneos. 

Machado de Assis sentia uma profunda ligação com suas raízes e tinha algumas ideias interessantes e heterodoxas sobre o Brasil. O livro ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’ – publicado em 1881 – é considerado sua maior obra e uma das mais importantes em língua portuguesa. 

Com seus enigmas, foi revestido de uma equivocada aura de leitura erudita – o que ele nunca foi em seu tempo, senão não teria publicado crônicas num português coloquial nos jornais onde atuou como jornalista e crítico literário

Em determinado momento da sua trajetória, Machado de Assis soltou a imaginação publicando ‘Brás Cubas’, um livro muito engraçado e nada convencional. Foi quando abandonou o moralismo e o esquematismo de seus primeiros romances, partindo para uma literatura mais livre na linguagem e mais rica nos temas.

Tanto ‘Brás Cubas’ como as demais obras de sua segunda fase vão muito além dos limites do realismo, apesar de serem normalmente classificadas nessa escola, mesmo tendo como características a introspecção, o humor e o pessimismo com relação à essência do homem e seu relacionamento com o mundo. 

Há muitos elementos em sua obra explicados a partir de dados autobiográficos. A composição de personagens que fazem parte do imaginário brasileiro, como ‘Brás Cubas’ e ‘Quincas Borba’, carregavam traços do escritor, em seus posicionamentos como intérprete do comportamento humano de sua época.

Filho do descendente do escravo alforriado, Francisco José de Assis, e da imigrante portuguesa, Maria Leopoldina, que trabalhava como lavadeira, Machado de Assis, mesmo sem ter acesso a cursos regulares na escola, empenhou-se em aprender e se tornou um dos maiores intelectuais do país, ainda muito jovem.

Não obstante a posição elevada que ele assumiu durante seu surgimento na cena intelectual, houve uma série de críticos da época, enfatizando a biografia ou a raça do escritor. 

Acusado de pouca brasilidade de possuir um estilo problemático, Machado de Assis ganhou certos rótulos redutores e injustos que não merecia e não merece. As afirmações nesse sentido tem um lado perverso, calcado em muitas acusações de omissão e indiferença frente aos problemas sociais de seu tempo, especialmente quanto à escravidão. 

Dada a importância que as identidades étnicas e de gênero assumem na perspectiva dos estudos culturais, é necessário que sejam trazidas à tona as verdades sobre um escritor que mesmo sendo afrodescendente ascendeu socialmente, ocupando postos de prestígio num ambiente hostil às raças não-brancas. 

Machado de Assis foi um analista e um crítico das instituições da sociedade e da política da sua época. Ele atacou as raízes das mazelas sociais e humanas protegido pela linguagem alegórica e pela agudeza da ironia, motivo pelo qual era lido principalmente por aqueles que constituíam o alvo maior de sua denúncia – as classes abastadas da elite imperial e depois republicana. 

Não há uma linha sequer escrita por Machado de Assis onde defenda os senhores ou o direito de propriedade sobre seres humanos. Aos 21 anos, já em seus primeiros escritos, ele se posicionava contra o horror da instituição do cativeiro. Foi, portanto, um abolicionista. Muitas vezes, suas insinuações tomaram o lugar da denúncia explícita, do repto, da acusação bombástica. 

O fato é que, no tocante às relações entre brancos e negros, Machado de Assis não adota nem o discurso cristão do bom senhor e nem o discurso do Positivismo ou do Cientificismo darwinista, que rebaixa negros e mestiços como “raça inferior”. 

Mesmo sofrendo pesadas críticas em várias obras suas, não adotou em seus textos os estereótipos que rebaixam e aprisionam os afrodescendentes em imagens deturpadas e preconceituosas. 

O lugar da fala machadiana é o do ‘Outro’, do discurso contra-hegemônico. Nas crônicas e poemas como “Sabina” e “13 de maio”, ou nos contos “Pai contra mãe”, “Mariana”, “O caso da vara” ou “Virginius”, fica evidente a elevação dos afro-brasileiros a uma posição de dignidade e respeito.

O mesmo ocorre em algumas cenas de ‘Brás Cubas’, ‘Helena’ e outras obras. A poética comanda a construção da maioria dos escritos, voltados para a carnavalização e desconstrução das elites brancas e de seus pontos de vista. Nesse contexto ganha destaque a recorrência do tema da morte do senhor, presente em vários romances como indicador da decadência do patriarcado escravista.

A grande diferença para Machado de Assis estava nos meios de comunicação. Na arena ideológica de seu tempo, tendo consciência da perenidade do produto jornalístico, utilizou bastante da imprensa como arma formadora de opinião, escrevendo textos no calor da hora dos acontecimentos, seguindo o ritmo acelerado imposto às redações nos jornais.

Homem contido, tímido, Machado de Assis jamais seria capaz de subir ao palco para discursar em defesa do abolicionismo. Mas, à sua maneira, ele participou da sociedade abolicionista e escreveu nos jornais muitas páginas memoráveis sobre a questão. 

Machado de Assis não tinha delírios de grandeza. Isso permitiu que ele observasse todas as classes sociais de sua época, com todos os seus paradoxos. Não aderiu a nenhum dos credos cientificistas do seu tempo. 

Teve influências francesas e britânicas (Shakespeare,Sterne) e alemãs (Schopenhauer), para não falar das brasileiras (José de Alencar), de Cervantes e de Leopardi. 

Essas influências contribuíram na criação da prosa moderna brasileira e o ajudaram a adotar um estilo original, que vai além de uma combinação delas. Inspirado em Leibniz, em seu conceito de “mônada” criticado por Voltaire – um dos seus ídolos – Machado de Assis tinha um pessimismo parecido com o de Schopenhauer. 

Nos intriga hoje o fato de um escritor do século XIX, vivente numa sociedade imperial defasada em termos de progresso, escravocrata e de rígidos padrões sociais e morais, tenha adquirido tamanha estatura universal. É por isso que sua obra carece, pois, de estudos condizentes com sua relevância literária, para nos fornecer uma visão completa de seu conjunto.

Ultimamente, Machado de Assis vem sendo recuperado como escritor, inclusive com o relançamento de toda sua obra, que é síntese e corolário do processo histórico evolutivo da literatura nacional e eixo de um equilíbrio dinâmico da própria língua literária brasileira, sendo inevitável mais pesquisas para as diversas nuances da sua obra. 

Seus textos permanecem atuais até hoje, atendendo a distintos horizontes. É um nome essencial para se compreender diversos aspectos da literatura brasileira. Estudos atuais focam o aspecto da afrodescendência em Machado de Assis. 

Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro. Um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e seu primeiro presidente, só se tornou um escritor conhecido a partir de 1872, com a publicação do romance ‘Ressurreição’. 

domingo, 8 de dezembro de 2019

Euclides da Cunha: como pensar um Brasil despido de preconceitos


Antonio Carlos Lua

O jornalismo tem a capacidade de fazer a crítica social como nenhuma ciência humana, apresentando fatos, verdades políticas e potencialidades da sociedade, ajudando-nos a pensar o Brasil, um país que nunca amadureceu nem como Nação nem como democracia, sendo algo que nunca se realiza, nunca termina, nunca se concretiza, criando, com isso, um ambiente de tensão, pesadelo e violência. 

A crítica jornalística é importante para a compreensão política e social do Brasil, país racista que recalca continuamente o próprio racismo, com efeitos perversos, colocando-se na ponta de lança da vanguarda do retrocesso, diante dos paradigmas de violência sob o qual vive sua população.

Há séculos, o jornalismo relaciona – de forma híbrida e tensa – a política, a linguagem e a materialidade, para resgatar os fatos marcantes na história do país, a exemplo do livro-reportagem ‘Os Sertões’, do jornalista e escritor Euclides da Cunha, que até hoje continua fazendo perguntas ao Brasil e ao mundo.

A interpretação jornalística que Euclides da Cunha faz da identidade brasileira tornou-se, verdadeiramente, um clássico e, como tal, sofreu e sofre múltiplas interpretações. Obviamente, a cada nova interpretação, novas características de sua obra são postas em evidência. 

No livro-reportagem ‘Os Sertões’, Euclides da Cunha estabelece uma compreensão da realidade brasileira a partir da oposição entre litoral e interior. 

Para ele, dois tipos de mestiços existiam no país: o do litoral  que vivia sob uma “civilização de empréstimo”  e o do interior, que mesmo se afastando dos parâmetros tomados como certos pelo eurocentrismo científico do final do Século XIX, apresentava o que mais faltava aos brasileiros do litoral: o vínculo à terra. 

O sertanejo torna-se, antes de tudo, um forte, por estar harmonizado com o sertão, por defendê-lo na luta e não abandoná-lo na seca. Deste modo, além da oposição entre litoral e o interior, Euclides da Cunha procura interpretar o Brasil profundo a partir das lentes etnocêntricas do cientificismo de sua época. 

Ele soube, com maestria, aglutinar esteticamente a contribuição de variados conhecimentos. É neste ponto que entra sua riqueza estilística e literária.‘Os Sertões’ – que tornou-se um livro-estuário – pode ser entendida como uma resposta à questão sobre quem é o brasileiro. 

Pela lógica de Euclides da Cunha, o sertão é o cerne do interior do Brasil e a essência da Nação. Quando ele fala do jagunço, está falando, de alguma forma, de todos os habitantes do interior, dos lugares mais recônditos e inóspitos. 

Euclides da Cunha foi um homem do seu tempo. Nesse sentido, deve ser entendida a famosa referência que ele fez sobre a força "motriz da história”. 

A ideia remete a uma percepção universalista, racionalista, teleológica e ontológica do tempo histórico. Remete também à tradição iluminista, à crença da época que dizia que a História tinha um “H” maiúsculo, tinha um rumo único, etapas de desenvolvimento bem estabelecidas e universais.

As dualidades tradição/modernidade e objetividade/subjetividade não estão dissociadas na obra de Euclides da Cunha acerca da nacionalidade brasileira. Elas aparecem em dois planos: o individual e o coletivo. Ou seja, o do intelectual, do autor, e o do discurso sobre a Identidade Nacional. 

No primeiro, o individual, é fundamental perceber que Euclides da Cunha muda seu posicionamento político em relação à Guerra de Canudos, conforme ele vai se aproximando do local da Batalha e conhecendo de perto o sertanejo e o sertão. 

Seu espanto pela força indômita do jagunço, pela beleza do sertão em época de chuvas, pela diferença radical entre aquelas paragens e o centro do país vai alterando gradualmente suas certezas. 

A subjetividade de Euclides da Cunha interfere, então, profundamente na certeza do intelectual que era. No meio do caminho entre Salvador e Monte Santo, ele se ajoelha e reza num povoado simples, ao lado dos sertanejos, prenhes daquela religiosidade simples e sincrética que lhe é própria. 

Euclides da Cunha desnudou os limites da objetividade universal, e, portanto, do próprio conteúdo emancipatório da ciência, Quando afirmou que a Guerra de Canudos foi um crime, ele apontou para um problema epistemológico sério que só depois da Segunda Guerra Mundial o Ocidente começou a encarar. 

Afinal, o genocídio de Canudos foi feito em nome do Progresso Nacional, contra rebeldes monárquicos inventados, onde os liderados por Antonio Conselheiro tiveram apenas o papel de "bucha de canhão", pois foram construídos, na época, como os inimigos do país. 

Euclides da Cunha contribuiu para o debate sobre os principais dilemas que envolvem a formação histórica do Brasil e até hoje nos leva a questionar como pensar o Brasil despido de preconceitos. 

Este ainda é o nosso desafio e foi também o do jornalista e escritor Euclides da Cunha, que fez de ‘Os Sertões’ uma obra matricial para pensarmos a cultura brasileira, inaugurando a percepção desta tensão epistemológica e cultural.

domingo, 24 de novembro de 2019

Gabriel García Márquez: a literatura e o jornalismo como lugar de encontro


Antonio Carlos Lua

Quando o jornalista colombiano, Gabriel García Márquez, lançou – há meio século – o romance ‘Cem Anos de Solidão’, ainda não era reconhecida no mundo a grande matriz cultural que constitui a América Latina. 

O livro – uma das melhores obras hispano-americanas – criou paradigmas de identidade, contribuindo para a reinvenção de um continente plural, que agrega circunstâncias múltiplas e abarca uma gama considerável de culturas e práticas sociais.

Sobre a narrativa da obra mais célebre do jornalista colombiano, a primeira premissa a ser pensada é a que se refere à circularidade, com os fatos sendo sempre uma repetição com nova roupagem de fatos anteriores. Os personagens são espelhados e multiplicados uns nos outros. As histórias são releituras umas das outras.

O romance permite uma visão privilegiada sobre a Colômbia, com a exposição clara do imaginário e da simbologia que perpassa a consolidação do país, onde a vida é uma luta pelo mínimo necessário e a fratura que divide as classes pobres das elites que as desprezam.

‘Cem Anos de Solidão’ é uma busca pela identidade latino-americana, revelando sua história, decifrando suas origens, tendo a literatura e a arte como lugar de encontro. É um livro extraordinário, que exerce uma espécie de encantamento permanente, com uma narrativa impregnada de duplicidades e antagonismos. 

A crítica literária cunhou a expressão “realismo mágico” ou “realismo fantástico”, para classificar “Cem Anos de Solidão”, cuja principal característica é lidar com situações inusitadas e, até, irreais, como se estas fizessem parte do cotidiano. 

Com a obra, Gabriel García Márquez – vencedor do Prêmio Nobel da Literatura, em 1982 – fez eclodir a bomba literária na América Latina. Foi a partir do livro que a literatura mundial começou a enxergar os escritores latino-americanos, abrindo as portas da cultura ocidental.
‘Cem Anos de Solidão’ é um marco literário sem precedentes e se firmou como clássico, não apenas da literatura latino-americana, como também da literatura mundial. Publicado em 1967, foi o livro mais lido do chamado boom da literatura latino-americana. 

Sedutora pelo enredo, a obra – estudada pela crítica literária em numerosos ângulos e facetas – relaciona jornalismo, literatura, lendas e mitos da América Latina, mostrando que no universo cultural do continente o real e o irreal convivem e se complementam.

A paisagem estabelecida por Gabriel García Márquez no livro é a da coleção de histórias, lendas e mitos do continente latino-americano. Dialogando com magia, ele  busca na cultura popular os elementos de sustentação literária.

A obra é uma releitura magistral da relação que a Colômbia construiu historicamente dentro da ideia de Nação que as elites andinas representadas por Bogotá se identificavam. Nela encontramos lado a lado episódios que poderiam ser chamados de “realistas” no sentido tradicional do termo e que poderiam estar presentes em qualquer romance realista.

‘Cem Anos de Solidão’ continua sendo fundamental na criação de uma identidade da Colômbia, onde existe hoje um forte movimento cultural que se deve, em grande medida, a obra de Gabriel Garcia Márquez. Assim, podemos dizer que se Cervantes fundou a Espanha, Gabriel García Márquez fundou a Colômbia.
Além de ‘Cem Anos de Solidão’, o jornalista Gabriel García Márquez – um dos escritores mais admirados e traduzidos, com mais de 40 milhões de livros vendidos em 36 idiomas – é autor de obras clássicas como ‘O Amor nos Tempos do Cólera’, ‘Ninguém Escreve ao Coronel’ e ‘Crônica de uma Morte Anunciada’. 

Gabriel García Márquez nasceu em Aracataca e criou um território eterno chamado Macondo, onde convivem imaginação, realidade, mito, sonho e desejo. 

Assim como o escritor Guimarães Rosa e o ensaísta, escritor e músico cubano, Alejo Carpentier, Gabriel García Márquez tenta em suas obras retratar e estabelecer a cultura popular, sendo este o elemento de legitimidade de suas narrativas. 

Tanto Gabriel García Márquez como Guimarães Rosa e Alejo Carpentier fizeram viagens para dentro. Em fevereiro de 1952, Gabriel García Márquez faz a sua “mítica viagem” à Aracataca, povoado colombiano onde nasceu e de onde teria surgido sua vocação de escritor.

Em junho do mesmo ano, ou seja, três meses depois, Guimarães Rosa fez uma longa viagem pelo sertão. Nessa viagem ele desenvolveu a pesquisa para a produção do livro ‘Grande sertão: veredas’ e outras obras, a exemplo do ‘Buriti’. 

Em janeiro de 1953, o cubano Alejo Carpentier termina o seu mais importante livro, ‘Los pasos  perdidos’, obra que narra uma viagem ao interior de um país sul-americano por um artista frustrado, que teve a oportunidade de revitalizar sua força criadora. 

No livro ‘Buriti’, de Guimarães Rosa, Miguel retorna ao sertão em busca de seu passado e encontra o amor em Maria da Glória depois de uma vida vazia na cidade. 

Ou seja, dessa forma, tanto Gabriel García Márquez como, Guimarães Rosa e Alejo Carpentier colocam a viagem a razão de ser de suas obras,

Gabriel García Márquez nem sempre foi uma unanimidade como nos parece hoje. Partes de sua obra foram censuradas na antiga União Soviética, onde passou uma temporada escrevendo uma série de reportagens sobre a vida no bloco comunista, na década de 1950. 

A tradução feita nos Estados Unidos passou inicialmente despercebida, e, nos países árabes, como o Irã, os livros eram vendidos no mercado negro, pois não havia permissão para publicá-los. Até mesmo na Colômbia, ele inicialmente não foi uma unanimidade. 

Amigo de Fidel Castro, ele não era visto com bons olhos pelo governo da Colômbia, o que dificultou a aceitação da obra pelo particular posicionamento que o relacionava com o pensamento utópico de esquerda, que depois da Revolução cubana, começava a ter grande acolhida em todos os países latino-americanos e caribenhos.

Por conta de sua forte relação com a esquerda, Gabriel García Marquez teve que sair da Colômvia, na década de 1970, protegido diplomaticamente pela embaixada do México, depois da emissão de uma ordem de prisão contra ele, na qual era acusado de cooperar com a guerrilha e apoiar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs), criada em 1964 numa ação política do Partido Comunista Colombiano. 

A profissão de jornalista – exercida durante muitos anos por Gabriel García Márquez – fez com que ele testasse em seus livros muitas de suas técnicas narrativas de documentário, com longas reportagens escritas em forma de romance, como ‘Notícias de um sequestro’, ‘A aventura de Miguel Littín clandestino em Chile’,’Relato de um náufrago’, entre outras publicações do jornalista.

São textos híbridos, formados pela mistura de romance e reportagem. Contudo, não se pode esquecer que Gabriel García Márquez se formou na escola jornalística norte-americana da qual saíram também nomes como o do escritor e jornalista norte-americano, Truman Capote. 

Gabriel García Márquez – que faleceu em 17 de abril de 2014 – partia da ideia de que a reportagem é uma construção linguística, que pretende ter como referencial a “realidade”. Mas como construção linguística, estaria sujeita mais à própria linguagem que aos imperativos do fato.

Gabriel García Márquez iniciou a carreira de jornalista no “El Espectador', o jornal mais importante da Colômbia. Dizia sempre que ser repórter era a melhor profissão do mundo. Ele justificava isso a partir da ideia de que o repórter escuta as histórias alheias e tem por obrigação contá-las a outros.

Ponto de vista

‘Cem anos de solidão’ é um livro sedutor pelo enredo, com várias gerações se sucedendo. É um romance com sopro épico. A obra dá notícia de um mundo fenecido, um mundo soterrado pela modernização das relações de mercado, mundo que no romance aparece na forma de uma consciência irracional, ou pré-racional, presente em grande parte dos personagens. 

Cem anos de solidão contribuiu para modificar a visão que o restante do mundo tinha da América Latina. Ele fez parte do "boom" dos anos 1960 e 1970, quando grandes escritores latino-americanos, particularmente hispano-americanos, entraram em circulação na Europa e nos Estados Unidos, algumas vezes em tradução para o francês e o inglês. 

Foi uma revelação para os europeus cansados de narrativas pálidas, autocentradas, ligadas a um mundo solipsista, de indivíduos sem rumo vivendo em cidades opressivas. 

Escritores como Gabriel Garcia Márquez sopraram nas brasas do romance e deram um novo fôlego para a narrativa ocidental, enquanto narravam as mazelas do continente americano, contando as histórias locais que estavam soterradas, que nunca tinham encontrado voz literária, porque se tratava de imaginário muito ligado ao mundo indígena, de gente miserável que não se tinha integrado à cidade moderna.

Há características que aproximam a obra ‘Cem anos de solidão’ de sagas como ‘O tempo e o vento’, de Erico Veríssimo. Há, em primeiro plano, uma multiplicidade de personagens, cujas histórias são contadas por várias gerações. 

Sob esse ponto de vista, pode-se fazer uma aproximação entre o fato de García Márquez compor a cidade de Cem anos de solidão, Macondo (que já havia aparecido, por exemplo, na obra O enterro do diabo), com características da cidade onde nasceu, Aracataca, assim como em O tempo e o vento pode-se estabelecer uma ligação entre Santa Fé e Cruz Alta.

Essas questões têm bastante relação. Um escritor e roteirista brasileiro chamado Doc Comparato  relata que García Márquez conheceu O tempo e o vento e admirou muito o modo como Erico Verissimo tinha equacionado o relato das várias gerações e tempos. 

Ele teria afirmado que depois da leitura do clássico de Erico é que ele teria encontrado o caminho para escrever Cem anos. Quanto ao aspecto biográfico, seguramente há algo de depoimento verdadeiro nas cidades imaginadas pelos dois grandes narradores.


O livro Cem anos de solidão é como uma saga familiar profundamente histórica que dá notícia interna do funcionamento da opressão e do funcionamento do choque radical entre um mundo que funciona pela lógica pré-mercantil e outro em que essa regra já está no comando, tudo isso contado com maestria, misto de lirismo, caráter épico e humor.


quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Zumbi: símbolo de luta e resistência


Antonio Carlos Lua

O Dia da Consciência Negra, comemorado nesta quarta-feira, 20 de novembro – data da morte em combate de Zumbi dos Palmares – é o momento para rememorar as conquistas, reconhecer os avanços e refletir sobre os desafios e obstáculos ainda a superar na luta por uma sociedade mais equânime, capaz de reconhecer a sua origem e a sua história a partir da herança cultural negra

Herói negro genuinamente brasileiro que teve sua trajetória negligenciada durante muito tempo pela historiografia oficial, Zumbi foi líder do Quilombo dos Palmares, comunidade formada na Serra da Barriga, em Alagoas, que representa um dos mais significativos movimentos de resistência e luta contra a opressão.

Zumbi nasceu com o corpo e o espírito livres da escravidão. Com poucos dias de vida ele é levado por tropas militares após um ataque à sua comunidade. Recém-nascido, Zumbi é entregue a um padre que o batiza com o nome de Francisco. O religioso o educou, o alfabetizou e ensinou-lhe Latim. Considerado muito inteligente pelo padre, o menino torna-se coroinha aos dez anos.

Aos 15 anos de idade Francisco foge para o Quilombo dos Palmares, assumindo o nome africano de Zumbi. Passa então a lutar por liberdade à frente de um exército formado por negros fugidos, índios e brancos pobres. 

Em sua trajetória de lutas está Dandara dos Palmares, sua companheira de vida e de combate na defesa do quilombo. Dandara se tornou ícone da força feminina na resistência contra a escravidão, representando a importância do papel das mulheres na história.

Após décadas de combates e vitórias, o Quilombo dos Palmares foi aniquilado pelo forte armamento de fogo e grande contingente militar. No último confronto, em 20 de novembro de 1695, Zumbi foi morto lutando.

domingo, 17 de novembro de 2019

O pecado original da nossa República


Antonio Carlos Lua

Em 15 de novembro de 1889, um grupo de militares liderados pelo marechal Manuel Deodoro da Fonseca destituiu o imperador Pedro II e instalou um governo provisório republicano. 

Unindo-se aos latifundiários contrários à abolição, os militares transformaram os Estados em feudos dos coronéis da política e colocaram o Brasil sob a tutela do Estado por quase um Século. 

Ressentidos com o fim da escravidão, eles instalaram um sistema político arcaico e quase feudal, transformando o Brasil numa vulgar República de chefetes de aldeia e caudilhos regionais

Embora a historiografia tradicional ainda aponte que o marechal Manuel Deodoro da Fonseca foi o líder do movimento, sabe-se que, de fato, a República foi proclamada na Câmara-Geral do Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Esse teria sido apenas o ponto alto de um longo movimento republicano que tensionava o Império. 

A verdade é que a celebração dos 130 anos da instalação da República não é uma festa plena. Vivemos numa grande República que ainda não pratica valores republicanos dentro do lastro dos princípios de igualdade, que nunca foi um valor, uma qualidade extensiva para o país.

Passados 130 anos da Proclamação da República, permanece um sentimento de mal-estar, de um projeto que ainda não deu certo, mesmo com os vários movimentos republicanos – Revolução Pernambucana, Guerra de Canudos e Sabinada – que tentaram trazer um legado para o Brasil. 

Na Revolução Pernambucana – movimento que eclodiu no dia 6 de março de 1817 no Estado de Pernambuco – quatorze revoltosos foram executados pelo crime de lesa-majestade, a maioria enforcados e esquartejados. Outros foram fuzilados. Centenas morreram em combate ou na prisão. 

A Guerra de Canudos ocorreu entre 1893 e 1897. Foi o maior movimento de resistência à opressão dos grandes proprietários rurais. Houve um verdadeiro massacre, com o extermínio de mulheres, idosos e crianças. Muitos foram degolados durante a invasão com o bombardeio do Exército. Quase não restaram sobreviventes. 

A Sabinada foi um movimento contrário à Regência, ocorrido entre 1837 e 1838, na Bahia, que já havia sido palco da Conjuração Baiana, em 1798, da Federação dos Guanais, em 1832, e da Revolta dos Malês, em 1835. A província já tinha um histórico de revoltas e lutas. 

O médico e jornalista, Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira, foi o principal mentor da revolta, que não desejava a independência da província da Bahia, mas sim a instalação de uma República independente do Império Brasileiro até o fim da Regência.

Além da Revolução Pernambucana, Guerra de Canudos e Sabinada, outros conflitos ainda ocorreram como as Guerrilhas do Tocantins, a Revolta da Armada, a Revolução Federalista, a Guerra do Contestado, as “revoluções” em 1923, 1924, 1930 e 1932 e os levantes dos comunistas e dos integralistas, numa média de um confronto militar a cada cinco anos. 

O certo é que com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, a espada de Dom Pedro mudou de mão, mas o perfil liberal inspirador das nossas primeiras Constituições – pouco amenizado em 1934, com o reconhecimento da função social da propriedade – não ficou ausente nem mesmo na Constituição de 1988. 

Isso pode ser constatado examinando-se, com cuidado, as muitas Emendas Constitucionais que a nossa Carta Magna já sofreu e o padrão predominante da sua interpretação e aplicação..

Se, antes de 1988, havia fidelidade ideológica ao liberalismo, por parte da Administração Pública, o fato de ele agora ser antecedido pelo prefixo “neo”, revigorou-o de modo desastroso. 

No artigo 170 da Constituição Federal vigente está escrito que “a ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por finalidade assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da Justiça Social”. 

A realidade, no entanto, vem atestando que a liberdade da iniciativa econômica se refletiu em liberdade garantida apenas para as coisas, as mercadorias. Dogmática, mercadocêntrica e isenta de questionamento, ela engoliu a valorização do trabalho, a segurança prevista para a existência digna dos cidadãos e não tem nenhum interesse por Justiça Social.

Isso pode ser constatado na preocupação dos governos brasileiros com as políticas sociais compensatórias. Elas visam compensar uma desigualdade social criada e reproduzida pela liberdade que sequestra as demais – a do poder superior ao do Estado, no caso, o capital. 

Reformas importantes e capazes de modificar a sua estrutura, como a agrária, a tributária e a política – indispensáveis à liberdade de todos – só caminham à custa de remendos novos em pano velho.

Ao primeiro impacto o pano se encarrega de aumentar o rasgão da nossa República, embora não faltem advertências contra essa situação, convenientemente ignoradas para não permitir libertações de muitos, em nome de “liberdades” já impostas por poucos. 

domingo, 10 de novembro de 2019

João Cabral de Melo Neto e o emblema da miséria nordestina


Antonio Carlos Lua

João Cabral de Melo Neto – poeta e escritor que viveu em luta contra as próprias emoções – tentou domar, secar, objetivar os sentimentos com a faca das palavras, com uma poesia contida, dura, sobrecarregada de dúvidas, hesitações e tensões. 

Com a alma cheia de conflitos, João Cabral de Melo Neto sempre foi um poeta impessoal. Sem poemas autobiográficos, ele deixou – em certo momento da sua vida – de ler poemas porque não suportava mais a emoção dos versos. 

Lutou muito para se conter, para se esconder, para não se confessar, para não falar de si, mas – contra sua vontade – deixou sempre muita coisa escapar. Esse aspecto de luta, de conflito extremo, é a origem da força da poesia de João Cabral de Melo Neto. 

Embora tenha escrito um poema em que cita Clarice Lispector como alguém que gostava de falar na morte, ele também tratava da questão em muitos de seus poemas, mostrando pontos em comum com a escritora, embora os dois se mostrassem, aparentemente, muito diferentes, antípodas. 

Na verdade, João Cabral de Melo e Clarice Lispector se encontram na mesma paixão pela palavra. Para Clarice, a literatura era uma espécie de religião sem Deus. Para Cabral, era uma carpintaria, uma engenharia. Para ambos, a poesia foi a coisa mais importante de suas vidas. Essa entrega absoluta à literatura conduziu aos grandes livros que os dois escreveram.

João Cabral de Melo Neto falava dos males – severidade, repressão íntima, fobias – que ficaram de sua educação com os irmãos maristas. Declarava-se ateu – embora ressaltando que acreditava no inferno. Melhor pensar que, na verdade, ele temia o inferno, isto é, o castigo. 

A melancolia ficou encoberta durante quase toda a vida de João Cabral de Melo Neto, que, indiscutivelmente, foi um dos maiores poetas brasileiro do Século XX. Em tempos de retirantes globais, podemos citar “Morte e Vida Severina” como sua obra mais marcante e significativa para a literatura brasileira.

Não há como fazer uma leitura de “Morte e Vida Severina” sem ter em mente o contexto social e econômico da época em que a obra foi escrita (1954/1955). No Nordeste da década de 1950, a morte era uma força precoce e devastadora. 

Calor, seca, desnutrição, pobreza, concentração fundiária, coronelismo. Este é o mundo árido e brutal onde o personagem Severino empreende sua epopeia trágica enunciada conforme a tradição medieval pelo escritor, que concebeu versos preferencialmente heptassílabos (redondilha maior), variando vocábulos regionais com outros de registro erudito. 

João Cabral de Melo Neto nasceu em Recife (Pernambuco) e passou sua infância nos engenhos de açúcar de propriedade de sua família. Neste ambiente arraigado na tradição fundiária e econômica do Nordeste, costumava ler cordéis para os empregados, impregnando-se de referências próprias do ambiente regional. 
A geografia, os traços regionais e as condições sociais dos anos 1950 foram decisivas para a constituição da poesia de João Cabral de Melo Neto. 

João Cabral era diplomata. Trabalhando, em Londres, em 1959, durante o governo de Getúlio Vargas, surgiu uma denúncia de que ele e outros quatro colegas estavam implantando uma célula comunista no Itamaraty, época em que o Partido Comunista do Brasil estava na ilegalidade. 

Um despacho presidencial de março de 1953 afastou ele e os outros companheiros de trabalho do serviço diplomático. João Cabral retornou para Recife, a fim de trabalhar no escritório do pai e garantir o sustento da família. Ele retomou a carreira diplomática em 1954, depois de recorrer ao Supremo Tribunal Federal. 

Nesse intervalo de tempo, encontrou Maria Clara, que era filha de Aníbal Machado, seu amigo. Ela pediu que o poeta escrevesse um auto de Natal para encenar com o seu grupo. Assim surgiu ‘Morte e Vida Severina’. Maria Clara, porém, leu o texto e o devolveu, alegando que não teria como montá-lo. 

Na época, o editor José Olympio queria lançar a primeira coletânea do poeta. Como “Morte e Vida Severina’ era extensa, o autor retirou as marcações próprias da montagem teatral e o poema integrou o livro ‘Duas águas’, lançado em 1956, sendo muito bem acolhido pelos escritores, intelectuais alinhados ao pensamento de esquerda. 

O também poeta e diplomata Vinícius de Morais ficou maravilhado com a história de Severino. A princípio, João Cabral ficou contrariado, pois sua pretensão era alcançar com sua poesia os analfabetos que ouviam cordel na feira de Santo Amaro, em Recife – o que não deixava de ser um tanto ingênuo, tendo em vista a elaboração formal do poema. 

Dez anos depois da estreia editorial, o texto ganhou mais projeção com a montagem teatral dirigida por Silnei Siqueira. Era 1966, quando João Cabral de Melo Neto recebeu a carta do jovem diretor solicitando autorização para montar um espetáculo em que ‘Morte e Vida Severina’ seria musicado por outro estreante, o compositor e cantor Chico Buarque de Holanda. 

No livro ‘A literatura como turismo’ (Companhia das Letras), a cineasta Inêz Cabral, filha do poeta, diz que ele ficou preocupadíssimo ao saber que sua poesia ganharia música. Porém, nunca se sentiu no direito de cercear qualquer criação nascida de seu trabalho.

Em 2007, na apresentação que fez da edição de ‘Morte e Vida Severina’, lançada pela Editora Alfaguara, o escritor, dramaturgo, letrista e poeta paraibano, Bráulio Tavares, aponta que, para Gilberto Freyre, havia pelo menos dois nordestes: o agrário e o pastoril; o litorâneo da cana-de-açúcar e o sertanejo das fazendas de gado. 

Estabelecendo uma lógica paralela, Bráulio Tavares propôs que, a partir da poesia de João Cabral, também se pode identificar dois Nordestes: o seco e o úmido; o da pedra e o da lama; o que é mumificado vivo pelo sol e o que é apodrecido pelo mar. 

‘Morte e Vida Severina descreve a caminhada do retirante Severino que percorre a linha do rio até Recife, o mangue e o mar, a fim de escapar da seca. Na primeira obra, a voz que emana do texto é do poeta. Na segunda, do próprio rio, que trata de si mesmo em primeira pessoa. São diversos personagens espalhados ao longo do leito que se enunciam. 

O título do poema já lança uma senha para se entender o universo descrito, ao inverter o sintagma vida e morte – a morte precede a vida – e ao adjetivar o substantivo próprio Severino. 

A esposa de João Cabral de Melo Neto, Stella Maria Barbosa de Oliveira, morreu em 1986. Depois disso, ele se casou com a poeta Marly de Oliveira. Durante toda a sua vida sofreu com intermitentes dores de cabeça, tanto que a aspirina era um traço distintivo em sua vida e mote para alguns textos. 

Ao final da vida, estava cego e deprimido. Avesso à religiosidade – mesmo que este universo seja latente em sua obra mais conhecida, que já ganhou mais de 100 edições – conta-se que, quando morreu, em 1999, estava de mãos com Marly, orando.