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quarta-feira, 1 de julho de 2026

A diáspora de cientistas brasileiros



Antonio Carlos Lua

O Brasil enfrenta, silenciosamente, a perda acelerada de capital humano altamente qualificado para o exterior. O fenômeno, conhecido como “fuga de cérebros”, deixou de ser um movimento isolado de pesquisadores buscando oportunidades mais vantajosas fora do país e se consolidou como um retrato fiel das fragilidades do sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação. Hoje, o país exporta talentos formados com recursos públicos e importa soluções tecnológicas produzidas por nações que entenderam a ciência como prioridade estratégica. Nos últimos anos, a curva de emigração científica tornou-se mais íngreme. 

Dados do Ministério das Relações Exteriores indicam que a comunidade brasileira no exterior saltou de cerca de 2,1 milhões para 4,7 milhões de pessoas em duas écadas, com crescimento mais acentuado entre profissionais de alta qualificação.

Estima-se que, apenas entre 2015 e 2022, mais de 6.700 pesquisadores doutores deixaram o país para desenvolver suas carreiras em universidades e centros tecnológicos no exterior — número que não inclui jovens que saíram antes de completar a pós-graduação. 

A migração precoce se transformou em tendência entre estudantes de excelência. Programas de intercâmbio e bolsas internacionais têm atraído talentos ainda na graduação, criando uma evasão intelectual antecipada. 

A dimensão econômica dessa perda é contundente. A formação de um doutor no Brasil custa entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão em recursos públicos — desde a educação básica até a pós-graduação — sem contar investimentos indiretos em laboratórios, infraestrutura, bolsas e orientação acadêmica. 

Quando esses profissionais deixam o país, o investimento se converte em subsídio involuntário a economias mais desenvolvidas, que incorporam pesquisadores altamente treinados sem arcar com os custos de sua formação. 

Trata-se de uma perda dupla. Além do capital humano que se vai, perde-se também o valor multiplicador que cada pesquisador é capaz de gerar em inovação, produtividade e desenvolvimento tecnológico. A raiz desse fenômeno está na fragilidade estrutural do sistema científico brasileiro. 

O cenário contrasta com o crescimento expressivo do sistema de pós-graduação. O Brasil formou mais de 24 mil doutores em 2023, mas o mercado acadêmico e científico nacional só absorveu uma fração ínfima desse contingente. 

Instituições públicas enfrentam cortes, concursos rareiam, laboratórios sofrem com falta de equipamentos e a instabilidade orçamentária mina a continuidade de pesquisas estratégicas. O resultado é um abismo entre formação e oportunidade. Para milhares de jovens altamente qualificados, o Brasil deixou de ser um ambiente previsível para construir uma carreira científica. A fuga de cérebros tem ainda efeitos diretos na produção de conhecimento. 

Após atingir um pico de publicações em 2021, a produção científica brasileira indexada em bases internacionais recuou 16,1% em 2022. Embora múltiplos fatores contribuam para essa queda, a redução de equipes, de financiamento e de especialistas é um componente central. Quando pesquisadores deixam o país, grupos de estudo se desestruturam, projetos ficam incompletos e linhas de pesquisa consolidadas se dissolvem por falta de continuidade. 

O impacto ultrapassa a academia e atinge o desenvolvimento nacional. Áreas estratégicas como biotecnologia, inteligência artificial, saúde pública, energia limpa e agritechnology perdem competitividade quando o país não consegue reter seus especialistas. Enquanto isso, brasileiros têm se destacado em centros de excelência no exterior: laboratórios de nanotecnologia nos Estados Unidos, grupos de genômica no Reino Unido, polos de energia renovável na Alemanha, projetos de IA na Suíça. São brasileiros liderando avanços globais — mas longe de casa. 

A desigualdade regional amplifica o problema. Estados do Norte e Nordeste, já historicamente subfinanciados em infraestrutura científica, são os que mais sofrem com a saída de pesquisadores. A concentração de recursos em poucos estados — São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul — reforça a fragmentação de um sistema que deveria ser nacional. Sem políticas de descentralização, regiões emergentes perdem suas mentes mais inovadoras e permanecem distantes do protagonismo científico. 

Em contraste, países que hoje lideram a economia do conhecimento adotaram políticas persistentes de atração e retenção de talentos. A Coreia do Sul implementou planos decenais de investimento contínuo em inovação. A China criou programas robustos para repatriar cientistas, oferecendo salários competitivos e laboratórios de ponta. A União Europeia mantém fundos bilionários para pesquisa colaborativa. Nos Estados Unidos, universidades e empresas disputam pesquisadores estrangeiros com pacotes de incentivo substanciais. 

Todos esses países compreenderam que soberania científica é soberania econômica. O Brasil tem tentado reagir. Nos últimos anos, novas chamadas de repatriação e cooperação internacional foram abertas, e o orçamento do MCTI começou a ser parcialmente recomposto. Mais de 2.500 cientistas brasileiros em 56 países manifestaram interesse em colaborar ou retornar ao país, demonstrando que ainda existe desejo de contribuir com a ciência nacional. Mas sem estabilidade orçamentária, valorização profissional e infraestrutura adequada, esses movimentos continuam tímidos diante da magnitude do êxodo. 

A ciência que não cultivamos hoje será a dependência que pagaremos amanhã. Reconhecer essa crise invisível é o primeiro passo para reinventar o futuro — um futuro que, por ora, continua embarcando em voos de partida.

A cobiça internacional pelos minerais estratégicos do Brasil



Antonio Carlos Lua

Os chamados “pulmões do planeta” deixaram de ser apenas uma metáfora ambiental para se tornarem o centro de uma disputa estratégica global. As grandes florestas tropicais, especialmente a Amazônia brasileira, hoje concentram interesses que vão muito além da preservação, abrigando sob seu solo riquezas minerais consideradas essenciais para o futuro tecnológico e energético do mundo. Nesse cenário, a combinação entre desmatamento, mudanças climáticas e a crescente cobiça internacional por terras raras transforma essas regiões em um dos pontos mais sensíveis do século XXI.

A economia global vive uma transição profunda. A busca por fontes de energia limpa, a digitalização acelerada e o avanço de tecnologias de ponta dependem diretamente de minerais estratégicos. As chamadas terras raras são apenas parte de um conjunto mais amplo de recursos conhecidos como minerais críticos e estratégicos — entre eles lítio, nióbio, cobalto, grafite e níquel — indispensáveis para a produção de baterias de carros elétricos, turbinas eólicas, painéis solares, equipamentos eletrônicos e sistemas militares. Em outras palavras, são a base material da nova economia verde e digital. Durante anos, a produção global esteve concentrada em poucos países, criando uma dependência que hoje preocupa grandes potências. A necessidade de diversificar fornecedores impulsiona uma corrida silenciosa por novas reservas. O Brasil surge como um dos principais alvos dessa disputa, não apenas por suas reservas de terras raras, mas também por seu potencial em minerais críticos considerados essenciais para cadeias produtivas estratégicas globais.

Com vasto território e grande potencial mineral ainda pouco explorado, o país passa a ocupar posição estratégica no cenário internacional. No entanto, essa riqueza está, em grande parte, localizada em áreas ambientalmente sensíveis, muitas delas cobertas por florestas tropicais. A Amazônia, nesse contexto, deixa de ser apenas um símbolo de biodiversidade para se tornar também um território de interesse econômico global por concentrar reservas relevantes desses minerais.

A cobiça por minerais críticos e estratégicos não se manifesta apenas de forma direta. Ela aparece em investimentos, acordos comerciais, pressões diplomáticas e no crescente interesse de empresas multinacionais. Trata-se de uma disputa silenciosa, mas constante, que redefine o papel do Brasil no equilíbrio geopolítico contemporâneo. Ao mesmo tempo, o desmatamento segue avançando. Impulsionado por atividades como agropecuária, exploração ilegal de madeira e mineração, ele fragiliza a floresta e abre caminho para novas frentes de exploração. A derrubada de árvores provoca impactos imediatos: destruição de habitats, perda de biodiversidade e liberação de grandes quantidades de carbono na atmosfera.

As mudanças climáticas intensificam esse processo. O aumento das temperaturas, a irregularidade das chuvas e a maior frequência de eventos extremos tornam a floresta mais vulnerável. Áreas antes resilientes passam a enfrentar dificuldades de regeneração, enquanto incêndios se tornam mais frequentes e intensos. Forma-se, assim, um ciclo de degradação. O desmatamento contribui para o aquecimento global, que enfraquece a floresta e facilita novas áreas de exploração. A demanda crescente por minerais críticos e estratégicos acelera esse processo, ampliando a pressão sobre territórios já fragilizados. A mineração desses recursos, incluindo terras raras, representa um dos maiores desafios. Embora seja vista como oportunidade econômica, sua exploração pode gerar impactos ambientais significativos. A abertura de áreas, o uso intensivo de recursos hídricos e a geração de resíduos tóxicos colocam em risco ecossistemas inteiros. Além disso, há uma dimensão social que não pode ser ignorada. Muitas das áreas com potencial mineral coincidem com territórios de povos indígenas e comunidades tradicionais. A pressão por exploração, frequentemente sem consulta adequada, ameaça modos de vida e intensifica conflitos.

A disputa por minerais críticos e estratégicos, portanto, vai além da economia. Ela envolve questões de soberania, justiça social e preservação ambiental. O Brasil passa a ser visto não apenas como guardião de uma das maiores florestas do mundo, mas como fornecedor potencial de recursos essenciais para as grandes potências. Esse cenário revela um paradoxo global. Países que defendem a preservação ambiental são, ao mesmo tempo, grandes consumidores de tecnologias que dependem desses minerais. A transição energética, embora necessária, gera uma nova forma de pressão sobre ecossistemas frágeis.

Diante disso, o desafio brasileiro é equilibrar interesses. A exploração de minerais críticos e estratégicos pode representar desenvolvimento econômico, mas exige planejamento, controle e responsabilidade. Sem isso, há risco de repetir modelos extrativistas que geram lucro imediato, mas deixam um legado de degradação. A governança ambiental torna-se, nesse contexto, um elemento central. Fiscalização eficaz, regulamentação rigorosa e transparência são fundamentais para evitar a exploração desordenada. Também é essencial garantir os direitos das populações afetadas e promover um desenvolvimento que respeite limites ambientais.

A ciência e a inovação oferecem alternativas. Tecnologias menos impactantes, reciclagem de materiais e economia circular podem reduzir a pressão sobre novas áreas de exploração. No entanto, essas soluções ainda enfrentam desafios para se consolidar em larga escala. No plano internacional, cresce a necessidade de cooperação. A preservação das florestas tropicais não pode ser responsabilidade exclusiva dos países que as abrigam, especialmente quando há uma demanda global pelos recursos ali existentes. É necessário construir mecanismos que conciliem conservação e desenvolvimento.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

O jornalista é um poeta da alma humana

 Antonio Carlos Lua

Há algo de profundamente poético na missão do jornalista. À primeira vista, pode parecer que ele se limita aos fatos, à objetividade, à busca incessante pela verdade nua e crua. No entanto, sob a superfície das manchetes e do ruído informativo, pulsa um coração que tenta compreender — e traduzir — o mundo humano em toda a sua complexidade. Na essência, o jornalista é um poeta da realidade. 

Ambos — o repórter e o poeta — partilham a escuta atenta, um ato raro e quase sagrado em tempos de vozes que se atropelam. Tanto os jornalistas como os poetas tentam — à sua maneira — traduzir a vida. A diferença é que, enquanto o poeta pode reinventar o real, o jornalista precisa revelar o que nele já está — mesmo quando a verdade é áspera.

Há quem acredite que o jornalista vive de fatos, que sua função é contar o que aconteceu com a frieza técnica de quem pesa palavras em gramas. Mas quem já vestiu o colete de repórter e enfrentou desafios em busca de uma história sabe que há poesia no ofício de informar. O bom jornalismo nasce da curiosidade, se sustenta na apuração rigorosa, mas só ganha vida quando guiado pela sensibilidade.

O saudoso jornalista colombiano, Gabriel García Márquez —considerado um dos autores mais importantes do século XX, com mais de 40 milhões de livros vendidos em 36 idiomas — foi repórter antes de ser romancista. Ele dizia que “o jornalismo é o melhor ofício do mundo”. E talvez seja justamente por unir o rigor da apuração ao espanto diante do humano — uma combinação rara, quase alquímica.

Grandes nomes da literatura também começaram no jornalismo. Ernest Hemingway, João Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Machado de Assis passaram pelas redações. Todos compreenderam que o jornalismo, assim como a poesia, é uma forma de escuta do mundo. E como dizia Ryszard Kapuściński — considerado um dos maiores jornalistas do século XX ¬— “para ser jornalista, é preciso ser, antes de tudo, humanisticamente, uma boa pessoa”.

Quando um repórter se senta diante de alguém para ouvir sua história, ele se torna tradutor de vidas. Traduz em palavras o que o outro viveu, sem perder o tom, o ritmo, o respiro. Nesse gesto, o jornalismo se aproxima da poesia, buscando nas entrelinhas a verdade que mora dentro das pessoas, recolhendo pedaços da alma humana e costurando-os em narrativa. 

É claro que a objetividade é necessária. Mas sem sensibilidade, a notícia se torna fria, mecânica, distante. O jornalismo, afinal, é feito de gente — e de histórias que batem à porta pedindo para ser contadas com respeito, empatia e alma. O repórter que escuta a dor de uma mãe em meio a uma tragédia, que acompanha o desalento de uma comunidade esquecida ou a luta anônima de alguém por dignidade, precisa dominar a técnica, mas também a ternura.

O poeta trabalha com metáforas e o jornalista com palavras que precisam resistir à prova da realidade. Ainda assim, ambos partem da mesma fonte: a condição humana. Cada reportagem é uma tentativa de decifrar o homem diante de suas alegrias, dores, contradições e esperanças — uma crônica viva do nosso tempo. O filósofo francês Michel Foucault dizia que “todo conhecimento é atravessado pelo poder e pela subjetividade”. O jornalista, ao narrar os fatos, precisa ser vigilante para que a verdade conte mais que os interesses. 

Hoje, num cenário dominado pela velocidade das redes sociais, pela desinformação e superficialidade das narrativas digitais, o papel poético — e ético — do jornalista se torna ainda mais urgente. Estudos recentes da UNESCO alertam para o avanço das fake news e para as ameaças contra a democracia. Assim, em tempos de excesso de informação, o jornalista precisa ser farol, filtrando o ruído para revelar o essencial. 

Contar o real também é um ato de arte e de responsabilidade social. O jornalismo de profundidade — investigativo, humano, comprometido — tem o poder de transformar realidades, denunciar injustiças e provocar mudanças estruturais. Foi assim com o caso Watergate, com reportagens sobre violações de direitos humanos e com coberturas que mobilizaram políticas públicas. 

A boa reportagem nasce quando o jornalista se deixa atravessar pelo que vê — sem permitir que a emoção o cegue, mas também sem deixar que a frieza o desumanize. Ele precisa equilibrar a precisão do cronista com a delicadeza do poeta. Afinal, o jornalismo mais profundo não apenas descreve o mundo, mas também o interpreta, o reconecta às pessoas. 

O jornalista revela o que está por trás do aparente, o que o olhar apressado ignora, o que o silêncio insiste em dizer. A palavra é a ferramenta do jornalista e do poeta. Mas, para o jornalista, ela carrega uma dupla missão: informar e humanizar. Cada reportagem é uma ponte entre quem vive a história e quem a lê, entre a dor e a compreensão, entre o fato e o sentido.

A boa escrita jornalística, quando feita com ética e sensibilidade, é capaz de despertar consciências e inspirar empatia — sendo um eficaz antídoto contra a indiferença. Num mundo em que algoritmos priorizam o que viraliza, cabe ao jornalista resgatar o que importa. É por isso que o jornalista precisa de rigor técnico, mas também de ternura. É justamente a ternura que o impede de reduzir pessoas a números, tragédias, estatísticas e manchetes. É ela que transforma o repórter em poeta — não do lirismo romântico, mas da verdade vivida.

Ser jornalista é habitar o espaço onde o fato encontra o sentimento. É escrever sobre o real com o cuidado de quem segura algo precioso: a história humana. É, enfim, exercer uma forma de poesia que não inventa mundos, mas revela a poesia que já existe neles. Entre o lirismo e o rigor, o jornalista traduz o mundo — e, ao fazê-lo, nos lembra de que toda notícia, no fundo, é um poema sobre o que é ser humano. 

Como disse o imortal um poeta português identificado com o modernismo, Fernando Pessoa — cuja obra também revela um olhar jornalístico sobre a existência: o jornalista é um poeta da alma humana. 

domingo, 5 de outubro de 2025

Efeitos da globalização assimétrica

Antonio Carlos Lua

A distância entre as nações foi reduzida, mas a elite de super-ricos no mundo continua isolando-se cada vez mais, deixando claro que as injustiças não são naturais, mas cuidadosamente produzidas. A desigualdade entre os seres humanos aumentou vertiginosamente. Persistem grandes abismos. Os pobres são deixados para trás em todos os países. O aumento da desigualdade avança em espiral. A globalização assimétrica produziu efeitos em todo o mundo, atingindo inclusive os Estados Unidos, referência econômica no cenário internacional.

O resultado é uma corrida para baixo com a desigualdade sendo um desastre moral cada vez mais chocante. Os oito indivíduos mais ricos do mundo concentram riqueza equivalente ao patrimônio dos 3,8 bilhões de pessoas que formam a camada mais pobre da população mundial, ou seja, 50% dos habitantes do planeta. Os dados não surpreendem. É uma tendência progressiva e irrefreável. A cada dois dias surge um bilionário. As fortunas aumentam 2,5 bilhões de dólares por dia.

Os Estados Unidos integram a escalada de distorções, registrando uma desigualdade com efeitos devastadores em termos de desenvolvimento social e bem-estar coletivo. Para além das meras estatísticas sobre o Produto Interno Bruto (PIB), existem hoje nos Estados Unidos mais de 20 milhões de pobres, dos quais 13 milhões em pobreza absoluta, desprovidos de assistência, num empobrecimento brutal e generalizado.

Em vários indicadores de desenvolvimento social os Estados Unidos aparecem em posição desconfortável em relação a outros países considerados ricos – e, às vezes, lado a lado com nações em desenvolvimento, sendo considerado 40º do mundo em desigualdade, atrás de alguns países latino-americanos, como Chile e Costa Rica, mostrando uma incrível diferença no bem-estar entre os pobres latino-americanos e os norte-americanos com mais recursos. A expectativa de vida dos americanos sem educação superior é equivalente à dos cidadãos do Paquistão, Butão e Mongólia.

Os números sobre mortalidade infantil – dados de crianças que morrem por mil nascidos vivos – é outro indicador clássico que coloca os Estados Unidos no 44º lugar do mundo, com índices inferiores ao de Cuba, Bósnia e Croácia. A taxa de mortalidade infantil entre os norte-americanos é semelhante à de Togo, na África, e da Ilha de Granada, no Caribe. 

O bem-estar das crianças norte-americanas também é colocado em xeque quando são considerados indicadores de pobreza infantil. Um estudo do Unicef – que comparou a situação de crianças em 35 países de economia avançada – coloca os Estados Unidos no penúltimo lugar. O indicador de pobreza infantil relativa, que mede a porcentagem de crianças que vivem em uma família cuja renda – ajustada ao tamanho e à composição da família – é inferior a 50% da renda média nacional, registrando 23,1% das crianças norte-americanas nesta situação.

Desde o início do Século XXI, foi registrado nos Estados Unidos um aumento nos índices de mortalidade materna, cuja taxa passou de 17,5 mortes por mil nascimentos, para 26,5 óbitos com a mesma quantidade de nascimentos. No relatório mais recente da ONU sobre Drogas e Crime, os Estados Unidos aparecem com uma taxa de homicídio de 4,88 óbitos por 100 mil pessoas, o que o coloca o país em 59º lugar no mundo. Esse número contrasta com o de países europeus, como Áustria (0,51), Holanda (0,61), Canadá (1,68) e até a Albânia (2,28) e Bangladesh (2,51).

Os Estados Unidos sediam as melhores universidades do mundo. Mas isso não significa que a formação média dos americanos esteja à altura desses centros de excelência. No teste sobre a capacidade de leitura, entre aqueles que não haviam terminado o ensino médio, os americanos ficaram entre os cinco países com os piores resultados. Entre aqueles que completaram esse nível de estudos, o país ficou abaixo da média de todos.

Na avaliação das habilidades numéricas, os americanos ficaram consistentemente abaixo da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico nos três níveis educacionais estudados. Além disso, o país ficou na lanterna em dois níveis: entre os que não terminaram o ensino médio e aqueles que concluíram esta etapa.

Na União Europeia, a situação também é ruim, mas se tomada como um conjunto de países é menos grave que a dos Estados Unidos. Tratando-se de desigualdade, as nações europeias têm índices melhores que os EUA, mas socialmente insignificantes. Na China, a desigualdade é semelhante à verificada na África do Sul, com os 10% mais ricos ficando com 60% da renda. A Índia acumula diversos bilionários, mas continua sendo o país com mais pobres no mundo.

Não é uma coincidência o aumento da desigualdade no mundo. Ela é uma consequência das políticas do receituário neoliberal, palavra que se tornou uma arma retórica, uma ideologia que venera o mercado, desregula economias ao redor do mundo e nos afasta das coisas que nos tornam humanos.

Colonialismo e eurocentrismo

Antonio Carlos Lua

Os séculos de colonização e eurocentrismo – que fizeram predominar no Brasil a centralidade e a superioridade da visão europeia sobre as outras visões de mundo com a imposição da cultura, língua, religião e valores do Hemisfério Norte – não conseguiram esconder a forte presença dos escritores negros Machado de Assis, Lima Barreto, Nei Lopes, Muniz Sodré, Paulo Lins, Ana Maria Gonçalves, Abdias do Nascimento, Silviano Santiago e o líder abolicionista, Luiz Gama.

Machado de Assis, por exemplo, usou 23 pseudônimos nos jornais para atirar petardos nas correntes políticas retrógradas e antiabolicionistas que atribuíram a ele maldosamente um falso embranquecimento.

Na mesma linha de Machado de Assis, o escritor Abdias do Nascimento denunciou o silencioso projeto de genocídio do negro brasileiro em diversos livros de sua autoria.

Morto, em maio de 2011, Abdias do Nascimento nadou contra a corrente do rio da mestiçagem do escritor Gilberto Freyre que, na sua obra “Casa Grande&Senzala, camuflou a memória do passado africano e negou a alteridade e a dignidade dos afrodescendentes.

Embora reconhecendo a contribuição africana para o Brasil, Gilberto Freyre suavizou os aspectos violentos da escravidão, destacando a miscigenação como um fator de harmonia e integração racial, minimizando o sofrimento dos negros, a violência e a crueldade da escravidão.

Dando ênfase a miscigenação como fator de integração racial, ele tentou obscurecer a importância da cultura e da identidade afrobrasileira amenizando a crueldade dos brancos na manutenção do sistema escravista.

Gilberto Freyre deu, também, pouca atenção à resistência negra à escravidão, contribuindo, assim, para a construção de um mito de harmonia e democracia racial no Brasil.

Em contraposição a essa falsa ideia, o escritor Lima Barreto utilizou o jornalismo como arma de denúncia para a mudança da consciência nacional, desmascarando o preconceito para que a liberdade de viver dos negros não continuasse sendo limitada pelo racismo.

Denominado um país multiétnico, o Brasil esqueceu deliberadamente dos pioneiros autores negros e insiste em pintar até hoje um retrato ambíguo dos escritores e jornalistas afro-brasileiros que, pela cor da pele, tiveram acesso limitado ao ensino e se tornaram autodidatas, adquirindo conhecimento de forma independente.

Pobre, negro e epilético, Machado de Assis, por exemplo, enfrentou enormes dificuldades em condições completamente adversas para que se tornasse, ainda em vida, um dos mais célebres escritores brasileiros de todos os tempos.

Outro escritor e jornalista que também sofreu com o racismo foi Lima Barreto que, a exemplo de Machado de Assis, pagou caro para levar adiante a sua carreira de jornalista e escritor.

Considerado um autor de subúrbio, ele sofreu discriminação racial, sendo acusado de tudo, inclusive de desleixo verbal e falta de profundidade psicológica.

Negro num Brasil eugênico, Lima Barreto testemunhou, aos 7 anos, a abolição da escravatura. Ele faleceu aos 41 anos – meses depois da Semana de Arte Moderna.

No livro “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, Lima Barreto denunciou a hipocrisia da sociedade brasileira, que relegou os negros ao campo dos subalternos. Ele combateu energicamente o mito da escravidão benigna, que de benigna mesmo não tinha nada.

Infelizmente, o olhar racista no Brasil persiste até hoje, ignorando e não reconhecendo o papel de muitos escritores e jornalistas negros com uma história diretamente associada à resistência protagonizada em mais de 400 anos de escravidão num país que – desde quando recebeu o primeiro europeu e se tornou uma colônia do Império extramarítimo lusitano – forjou modos de viver baseados na expropriação, repressão e desigualdade, insuflando um sentimento despótico no país.

Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, o Brasil adotou as leis mais progressistas para a proteção dos direitos humanos, mas, no entanto, continua persistindo um enorme fosso entre o espírito dessas leis e a efetiva implementação da legislação de combate ao racismo no país.

Mesmo com o arcabouço legal estimulado pela Constituição Federal, promulgada em 1988, o crime de racismo continua sendo tratado de forma inadequada no Brasil, onde o ódio racial contra a população negra existe desde que o primeiro navio negreiro aqui chegou.

É importante frisar que há uma ambiguidade presente no período pós-abolição. Hoje, não é negado aos negros o direito de serem livres, mas lhe são negadas condições dignas de vida, repetindo-se, muitas vezes, lógicas semelhantes à da escravidão com práticas racistas, sejam elas explícitas ou não.

A linha tênue que separa realidade e ficção

Antonio Carlos Lua 

Mesmo com a crise no mercado editorial impresso internacional que obrigou muitas livrarias a fecharem as portas, a literatura continua cada vez mais perto das pessoas proporcionando conhecimento com o incontestável caráter visionário de algumas obras, onde a ficção consegue ser um espelho da realidade com as acertadas previsões de escritores sobre o futuro da humanidade.

A linha que separa ficção e a realidade pode ser mais tênue do que se imagina. No entanto, a fronteira entre o que é real e o que é inventado pode se tornar cada vez mais difusa, convidando o leitor a refletir sobre a natureza da verdade e da realidade. Antecipando cenários, a literatura se torna um instrumento poderoso para entender melhor a nós mesmos e ao mundo que se movimenta ao nosso redor.

As revelações do escritor britânico, George Orwell, no livro “1984”, por exemplo, foram amplamente difundidas pelo mundo. Escrito em 1948 – ano que corresponde ao inverso do nome do livro – a obra antecipou a existência de uma sociedade constantemente vigiada, seja através de câmeras espalhadas em todos os ambientes, seja através dos próprios olhares dos cidadãos. O tema abordado por George Orwell foi resgatado, em 1975, sob o conceito do panóptico de Michael Foucault, na obra “Vigiar e Punir”. A expressão Big Brother (Grande Irmão), utilizada na obra de George Orwell, e que traduz essa visibilidade excessiva, foi incorporada décadas depois pelo ‘reality show’ mais famoso do mundo, o “Real World”, lançado em 1992.

Outro autor consagrado por sua literatura futurista e que acabou por prever muitas conquistas no mundo foi Isaac Asimov. Ele antecipou, por exemplo, a criação de uma rede de computadores na qual todos os humanos estariam conectados, tal qual a internet, e dedicou atenção especial à robótica.

Isaac Asimov dedicou obras inteiras ao tema e um de seus livros mais conhecidos – a coletânea de contos “Eu, Robô” – discorre sobre a evolução dessas máquinas através do tempo. Outro a prever o futuro, com guerras, tanques, bombardeios aéreos e bombas nucleares foi o escritor H. G. Wells, autor do consagrado “A Guerra dos Mundos”.

Considerado um dos mais antigos visionários da literatura mundial, Julio Verne relatou, em 1869, em seu livro “Vinte Mil Léguas Submarinas”, uma máquina capaz de se locomover com um combustível eficiente e inesgotável. Sua “profecia” concretizou-se oito décadas depois, com a criação do primeiro submarino movido à propulsão nuclear.

Os dons proféticos de Julio Verne não pararam por aí. No livro “Da Terra à Lua”, ele descreve uma viagem espacial que quatro anos mais tarde também se concretizaria com a experiência norte-americana Apollo, que levou o homem pela primeira vez à Lua.

Douglas Adams, no livro “O Guia do Mochileiro das Galáxias” também fez previsões sobre novidades tecnológicas e até mesmo sobre o surgimento da Wikipédia, uma enciclopédia de conhecimentos construída de forma coletiva e compartilhada.

Arthur Clarke foi outro escritor que antecipou invenções, a exemplo dos Tablets e Ipads. Em seu livro “2001: Uma Odisséia no Espaço”, ele discorre sobre um computador usado para exibir conteúdo de jornais atualizados automaticamente – o Newspad – que se parece muito com os atuais Ipads até mesmo no nome.

No livro “A Cidade e as Estrelas”, Arthur Clarke chegou a imaginar um jogo de realidade virtual dois anos antes do lançamento do primeiro jogo para videogame, em 1958.

Ele descreve a forma de lazer como um sonho, no qual não é possível se distinguir ficção de realidade. Infelizmente, Arthur Clarke não soube aproveitar os dons proféticos em benefício próprio.

Em 1945, ele apresentou um artigo defendendo os satélites como forma de melhorar as telecomunicações, mas não patenteou a ideia e perdeu uma fortuna. Outro escritor que colecionou uma lista de previsões que se concretizaram depois foi Aldous Huxley. Dentre suas previsões mais notáveis está sua descrição sobre a manipulação genética e a clonagem na obra “Admirável Mundo Novo”.

O que se constata é que os escritores possuem um alto grau de sensibilidade que os conectam com outros estágios e formas de percepção da realidade. Eles são capazes de enxergar e analisar não apenas o presente mas também o futuro, prevendo tendências e antecipando mudanças.

Dimensões éticas da liberdade de expressãoA

Antonio Carlos de Oliveira

A liberdade de expressão tem sido amplamente debatida no Brasil contemporâneo, especialmente quanto aos seus limites e à sua inter-relação com outros direitos fundamentais, como a honra, a dignidade e os pilares da democracia. Trata-se de um tema que desperta intensas discussões, marcadas por posicionamentos divergentes sobre os possíveis excessos e restrições desse direito.

A Constituição Federal de 1988 consagra a lib
erdade de expressão como um direito fundamental, indispensável à dignidade da pessoa humana e ao funcionamento pleno do regime democrático. No entanto, como todo direito, sua aplicação não é absoluta. Ela encontra limitações no necessário respeito a outros direitos igualmente fundamentais, como a proteção à honra, à imagem e à integridade moral, além da vedação a manifestações que configurem discurso de ódio ou incitação à violência.

O debate sobre a liberdade de expressão é multifacetado e exige constante reflexão teórica e jurídica, pois envolve o desafio de compatibilizar direitos potencialmente conflitantes. A ponderação entre esses valores é imprescindível para assegurar tanto a livre manifestação do pensamento quanto a proteção de indivíduos e grupos sociais contra abusos.

A concepção da liberdade de expressão como um direito humano universal ganhou relevância no cenário internacional após a Segunda Guerra Mundial, com a promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948. Tal documento consolidou princípios jurídicos e filosóficos que foram desenvolvidos ao longo dos séculos, especialmente a partir do Iluminismo europeu e norte-americano do Século XVIII.

O Iluminismo – movimento intelectual caracterizado pela valorização da razão, da ciência e dos direitos individuais – estabeleceu as bases filosóficas da liberdade de expressão como elemento essencial para o progresso social. Autores como John Locke, Voltaire, Rousseau e Diderot defenderam que o livre debate de ideias era condição ‘sine qua non’ para o aprimoramento moral e político da sociedade.

Nesse contexto, a liberdade de expressão não apenas favorecia o desenvolvimento do indivíduo, como também era vista como instrumento de crítica social e de controle do poder político. A imprensa e, por extensão, o jornalismo moderno emergiram nesse cenário como ferramentas cruciais para a disseminação das ideias iluministas. O jornalismo passou a ser concebido como uma atividade de interesse público, orientada pela busca da verdade e pela função educativa.

Ao proporcionar acesso à informação, ele contribuiu para a formação de uma opinião pública crítica e participativa — valores centrais para os ideais iluministas. Assim, ficou estabelecida uma relação simbiótica entre o Iluminismo e o jornalismo. Ao valorizarem a razão e a liberdade, os princípios iluministas moldaram a atuação jornalística como prática comprometida com a objetividade, a imparcialidade e a responsabilidade social.

Por outro lado, o jornalismo se tornou um canal efetivo de divulgação e consolidação dos valores iluministas na esfera pública. Exemplos históricos ilustram essa interdependência.

Intelectuais como Voltaire e Diderot utilizaram a imprensa para contestar estruturas autoritárias e promover uma cultura de reflexão crítica. Essa prática contribuiu decisivamente para a transformação das instituições sociais e políticas, além de fomentar o pensamento ilustrado entre diferentes camadas da população. No cenário contemporâneo, o jornalismo segue desempenhando papel central na consolidação democrática, ao garantir o acesso à informação e estimular o debate público plural.

No entanto, para que essa função seja plenamente exercida, é imprescindível que a liberdade de imprensa — entendida como manifestação concreta da liberdade de expressão — seja efetivamente protegida e respeitada. Em síntese, a liberdade de expressão representa um pilar civilizatório construído historicamente, cuja importância transcende o campo jurídico e alcança dimensões éticas, filosóficas e sociais. Sua preservação – nos marcos do Estado Democrático de Direito – é essencial para assegurar uma sociedade plural, informada e participativa.