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domingo, 18 de outubro de 2026

Envelhecimento e a ressignificação da existência humana


Antonio Carlos Lua

Envelhecer é confrontar-se com uma das mais profundas contradições da existência humana. À medida que o tempo passa, nossas limitações físicas se tornam mais evidentes, a consciência da finitude se aprofunda e somos levados a fazer escolhas e renúncias. Ao mesmo tempo, a vida nos oferece a oportunidade de descobrir dimensões de nós mesmos que permaneceram ocultas durante grande parte da nossa trajetória. A velhice não deve ser vista apenas como o território das perdas, como insiste em sugerir uma sociedade obcecada pela juventude, pela produtividade e pela aparência. É, sobretudo, uma etapa de reconstrução da consciência, de revisão dos valores e de compreensão mais profunda daquilo que realmente importa. Afinal, envelhecer não significa apenas acumular anos, mas também adquirir a possibilidade de olhar para a vida com mais lucidez, reconhecer o essencial e atribuir novos significados à própria existência. 

É nessa fase da vida que somos convidados a rever nossas certezas, questionar antigas convicções e reconhecer que nem tudo aquilo que perseguimos com tanto empenho merece, de fato, o valor que lhe atribuímos. Com o passar dos anos, aprendemos que o acúmulo de bens, o reconhecimento social e a busca incessante por conquistas não são suficientes para garantir a plenitude da existência. Descobrimos, muitas vezes depois de longas jornadas, que a verdadeira riqueza está na qualidade dos vínculos que construímos, na serenidade com que enfrentamos as adversidades e na capacidade de encontrar sentido nas experiências mais simples do cotidiano. 

Envelhecer também exige coragem para aceitar as transformações que o tempo produz em nosso corpo, em nossas relações e na maneira como percebemos o mundo. Nem sempre é fácil reconhecer que determinadas capacidades já não respondem como antes, que algumas pessoas deixam de fazer parte da nossa caminhada e que certos sonhos precisam ser ressignificados. Entretanto, aceitar essas mudanças não significa desistir de viver, tampouco se render à ideia de que o melhor da existência ficou para trás. Significa compreender que cada etapa da vida possui suas próprias possibilidades e que a disposição para descobri-las é fundamental para preservar a autonomia, a dignidade e a vontade de seguir adiante. 

Há, nessa trajetória, uma oportunidade de desenvolver uma relação mais honesta com nós mesmos. Ao revisitar o passado, podemos reconhecer erros sem nos aprisionarmos à culpa, compreender escolhas sem alimentar arrependimentos permanentes e valorizar conquistas que, durante muito tempo, talvez tenham passado despercebidas. A experiência acumulada não nos torna necessariamente mais sábios, mas pode nos ensinar a distinguir o que merece nossa atenção daquilo que apenas consome nossas energias. A sabedoria depende, sobretudo, da disposição para aprender com o vivido, rever posições e reconhecer que ninguém chega a uma idade avançada com todas as respostas. 

Também é necessário questionar os preconceitos que associam o envelhecimento à inutilidade, à dependência e ao afastamento da vida social. Uma sociedade que transforma a juventude em padrão absoluto de valor acaba desconsiderando a contribuição de milhões de pessoas que continuam capazes de aprender, criar, trabalhar, amar, ensinar e participar ativamente da construção coletiva. A idade cronológica não determina, por si só, a capacidade de pensar, sentir, produzir ou estabelecer novos objetivos. Cada pessoa envelhece de maneira singular, e respeitar essa diversidade é reconhecer que a dignidade humana não diminui com o passar dos anos. 

Por isso, envelhecer com consciência significa também recusar a ideia de que precisamos corresponder às expectativas alheias para justificar nossa existência. É compreender que não temos obrigação de demonstrar produtividade a todo instante, competir com gerações mais jovens ou esconder as marcas que o tempo deixa em nós. Nosso valor não está condicionado à aparência, ao ritmo de trabalho ou à aprovação dos outros. Está na nossa humanidade, na história que construímos, nos afetos que cultivamos e na capacidade de continuar atribuindo significado à vida, mesmo quando as circunstâncias exigem mudanças profundas. 

Talvez uma das maiores lições do envelhecimento seja entender que a vida não perde seu sentido quando deixa de corresponder aos planos que fizemos no passado. Ela pode adquirir novos significados quando aprendemos a acolher o presente sem ignorar as limitações, mas também sem renunciar às possibilidades que permanecem abertas. Enquanto houver curiosidade para descobrir, disposição para aprender, afeto para compartilhar e liberdade interior para repensar caminhos, haverá espaço para novas experiências. 

No fim, envelhecer é compreender que a existência não precisa ser medida apenas pelo tempo que passou, mas pela maneira como vivemos cada etapa. Não podemos impedir o avanço dos anos, recuperar todas as oportunidades perdidas ou evitar as transformações inevitáveis do corpo e da realidade. Podemos, entretanto, escolher como nos relacionamos com essas mudanças. E talvez seja nessa escolha, entre a resistência inútil ao tempo e a aceitação consciente da vida, que encontramos uma das formas mais profundas de liberdade, que é a possibilidade de continuar vivendo com lucidez, dignidade e esperança, reconhecendo que cada idade, inclusive a mais avançada, ainda pode nos ensinar algo essencial sobre quem somos e sobre o que significa estar vivo. 

Envelhecer é confrontar-se com a verdade essencial da existência. Afinal, somos seres finitos em permanente busca de sentido. O tempo desfaz ilusões, relativiza conquistas e nos ensina que a grandeza de viver não está em negar a passagem dos anos, mas em compreender que cada instante, mesmo diante da finitude, oferece a possibilidade de ressignificar a própria existência.

domingo, 26 de julho de 2026

O jornalista é um poeta de alma humana

Antonio Carlos Lua

Há algo de profundamente poético na missão do jornalista. À primeira vista, pode parecer que ele se limita aos fatos, à objetividade, à busca incessante pela verdade nua e crua. No entanto, sob a superfície das manchetes e do ruído informativo, pulsa um coração que tenta compreender — e traduzir — o mundo humano em toda a sua complexidade. Na essência, o jornalista é um poeta da realidade.  

Ambos — o repórter e o poeta — partilham a escuta atenta, um ato raro e quase sagrado em tempos de vozes que se atropelam. Tanto os jornalistas como os poetas tentam — à sua maneira — traduzir a vida. A diferença é que, enquanto o poeta pode reinventar o real, o jornalista precisa revelar o que nele já está — mesmo quando a verdade é áspera.

Há quem acredite que o jornalista vive de fatos, que sua função é contar o que aconteceu com a frieza técnica de quem pesa palavras em gramas. Mas quem já vestiu o colete de repórter e enfrentou desafios em busca de uma história sabe que há poesia no ofício de informar. O bom jornalismo nasce da curiosidade, se sustenta na apuração rigorosa, mas só ganha vida quando guiado pela sensibilidade.

O saudoso jornalista colombiano, Gabriel García Márquez — considerado um dos autores mais importantes do século XX, com mais de 40 milhões de livros vendidos em 36 idiomas — foi repórter antes de ser romancista. Ele dizia que “o jornalismo é o melhor ofício do mundo”. E talvez seja justamente por unir o rigor da apuração ao espanto diante do humano — uma combinação rara, quase alquímica.

Grandes nomes da literatura também começaram no jornalismo. Ernest Hemingway, João Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Machado de Assis passaram pelas redações. Todos compreenderam que o jornalismo, assim como a poesia, é uma forma de escuta do mundo. E como dizia Ryszard Kapuściński — considerado um dos maiores jornalistas do século XX ¬— “para ser jornalista, é preciso ser, antes de tudo, humanisticamente, uma boa pessoa”.

Quando um repórter se senta diante de alguém para ouvir sua história, ele se torna tradutor de vidas. Traduz em palavras o que o outro viveu, sem perder o tom, o ritmo, o respiro. Nesse gesto, o jornalismo se aproxima da poesia, buscando nas entrelinhas a verdade que mora dentro das pessoas, recolhendo pedaços da alma humana e costurando-os em narrativa. 

É claro que a objetividade é necessária. Mas sem sensibilidade, a notícia se torna fria, mecânica, distante. O jornalismo, afinal, é feito de gente — e de histórias que batem à porta pedindo para ser contadas com respeito, empatia e alma. O repórter que escuta a dor de uma mãe em meio a uma tragédia, que acompanha o desalento de uma comunidade esquecida ou a luta anônima de alguém por dignidade, precisa dominar a técnica, mas também a ternura.

O poeta trabalha com metáforas e o jornalista com palavras que precisam resistir à prova da realidade. Ainda assim, ambos partem da mesma fonte: a condição humana. Cada reportagem é uma tentativa de decifrar o homem diante de suas alegrias, dores, contradições e esperanças — uma crônica viva do nosso tempo. O filósofo francês Michel Foucault dizia que “todo conhecimento é atravessado pelo poder e pela subjetividade”. O jornalista, ao narrar os fatos, precisa ser vigilante para que a verdade conte mais que os interesses.  

Hoje, num cenário dominado pela velocidade das redes sociais, pela desinformação e superficialidade das narrativas digitais, o papel poético — e ético — do jornalista se torna ainda mais urgente. Estudos recentes da UNESCO alertam para o avanço das fake news e para as ameaças contra a democracia. Assim, em tempos de excesso de informação, o jornalista precisa ser farol, filtrando o ruído para revelar o essencial. 

Contar o real também é um ato de arte e de responsabilidade social. O jornalismo de profundidade — investigativo, humano, comprometido — tem o poder de transformar realidades, denunciar injustiças e provocar mudanças estruturais. Foi assim com o caso Watergate, com reportagens sobre violações de direitos humanos e com coberturas que mobilizaram políticas públicas. 

A boa reportagem nasce quando o jornalista se deixa atravessar pelo que vê — sem permitir que a emoção o cegue, mas também sem deixar que a frieza o desumanize. Ele precisa equilibrar a precisão do cronista com a delicadeza do poeta. Afinal, o jornalismo mais profundo não apenas descreve o mundo, mas também o interpreta, o reconecta às pessoas. 

O jornalista revela o que está por trás do aparente, o que o olhar apressado ignora, o que o silêncio insiste em dizer. A palavra é a ferramenta do jornalista e do poeta. Mas, para o jornalista, ela carrega uma dupla missão: informar e humanizar. Cada reportagem é uma ponte entre quem vive a história e quem a lê, entre a dor e a compreensão, entre o fato e o sentido.

A boa escrita jornalística, quando feita com ética e sensibilidade, é capaz de despertar consciências e inspirar empatia — sendo um eficaz antídoto contra a indiferença. Num mundo em que algoritmos priorizam o que viraliza, cabe ao jornalista resgatar o que importa. É por isso que o jornalista precisa de rigor técnico, mas também de ternura. É justamente a ternura que o impede de reduzir pessoas a números, tragédias, estatísticas e manchetes. É ela que transforma o repórter em poeta — não do lirismo romântico, mas da verdade vivida.

Ser jornalista é habitar o espaço onde o fato encontra o sentimento. É escrever sobre o real com o cuidado de quem segura algo muito precioso: a história humana. É, enfim, exercer uma forma de poesia que não inventa mundos, mas revela a poesia que já existe neles. Entre o lirismo e o rigor, o jornalista traduz o mundo — e, ao fazê-lo, nos lembra de que toda notícia, no fundo, é um poema sobre o que é ser humano.  Como disse o imortal poeta português, Fernando Pessoa, o jornalista é um poeta da alma humana. 

terça-feira, 21 de julho de 2026

Colonialismo espacial



Antonio Carlos Lua

Durante séculos, o colonialismo foi apresentado como uma aventura civilizatória. Sob o discurso do progresso, da expansão do conhecimento e da prosperidade econômica, impérios ocuparam países, subjugaram povos e transformaram a exploração em modelo de organização do mundo. Hoje, em pleno século XXI, esse imaginário retorna revestido por uma estética futurista, por foguetes reutilizáveis, inteligência artificial e promessas tecnológicas de salvação. Agora, o novo território a ser conquistado não está mais além-mar. Está além da atmosfera terrestre. 

O chamado “colonialismo espacial” vem emergindo como uma das expressões mais sofisticadas da lógica contemporânea de concentração de riqueza e poder. Grandes magnatas da tecnologia, como Elon Musk, Jeff Bezos, entre outros, defendem abertamente projetos de expansão humana para o espaço, argumentando que a humanidade estaria ameaçada por guerras, superpopulação, escassez de recursos, mudanças climáticas e estagnação econômica. A solução, segundo essa visão, seria tornar a espécie multiplanetária por meio da implantação de infraestruturas permanentes fora da Terra, criando habitats artificiais capazes de abrigar bilhões de pessoas e estabelecer uma economia extraplanetária. Mas, por trás desse projeto visionário, surge uma questão central: quem terá acesso a esse futuro? 

A discussão não pertence apenas ao campo da ficção científica. Instituições internacionais, especialistas em direito espacial, geopolítica e economia já debatem os impactos da crescente participação da iniciativa privada na exploração do espaço. Embora o Tratado do Espaço Exterior, de 1967, estabeleça que o espaço deve ser utilizado para fins pacíficos e em benefício de toda a humanidade, os avanços tecnológicos, a exploração comercial de recursos extraterrestres e a ampliação das atividades de empresas privadas vêm impondo desafios regulatórios que o direito internacional ainda não conseguiu responder de forma plenamente satisfatória. 

A promessa da colonização espacial não nasce como um projeto universal de emancipação humana. Ao contrário. Ela é concebida, financiada e controlada por uma elite econômica extremamente restrita. O que se apresenta como salvação coletiva carrega, em muitos aspectos, a lógica histórica da exclusão. Não se trata de abandonar o sistema que produz as crises contemporâneas, mas de expandi-lo para novos territórios. 

Há algo profundamente simbólico no fato de que os mesmos grupos econômicos que acumulam fortunas em modelos intensivos de consumo, extração de dados, concentração financeira e exploração de recursos naturais sejam também aqueles que oferecem uma rota de fuga para o espaço. Diante disso, vem a pergunta inevitável: eles querem salvar a humanidade ou salvar determinados modos de acumulação? 

Nesse contexto, a infraestrutura torna-se instrumento de poder. Satélites, redes digitais, centros de processamento de dados, sistemas de lançamento e futuras estações orbitais não são apenas avanços técnicos e constituem mecanismos de organização política e econômica. Quem controla essas estruturas controla fluxos de informação, circulação de mercadorias e possibilidades de existência. A utopia espacial contemporânea transforma o mercado em princípio absoluto da realização humana. 

O discurso é sedutor e tenta convencer que a inovação resolverá todos os problemas, que o empreendedorismo substituirá políticas públicas e que a eficiência privada será mais eficaz do que decisões coletivas. Entretanto, o resultado pode ser o aprofundamento das desigualdades. Imagine uma sociedade em que a sobrevivência dependa literalmente da capacidade de pagar por acesso a ambientes habitáveis, com espaços privados em órbita, com espaço deixando de ser patrimônio comum da humanidade para tornar-se um condomínio de luxo.

A corrida espacial contemporânea inaugura também uma nova geopolítica. Se no século XX a disputa pelo espaço simbolizava a rivalidade entre Estados durante a Guerra Fria, hoje ela incorpora grandes conglomerados privados capazes de influenciar políticas públicas, desenvolver tecnologias estratégicas e disputar protagonismo em áreas tradicionalmente reservadas às potências nacionais. O resultado é a formação de uma governança híbrida, na qual interesses públicos e privados tornam-se cada vez mais difíceis de distinguir, ampliando a influência corporativa sobre decisões que podem definir o futuro da humanidade. 

O colonialismo espacial desloca esse paradigma. Em vez de enfrentar as causas estruturais das crises que ameaçam a existência humana, propõe abrir novas fronteiras de expansão econômica no cosmos. No entanto, nenhum avanço tecnológico elimina conflitos sociais; apenas os acompanha. Se reproduzirmos no espaço os mesmos modelos econômicos que aprofundaram as desigualdades na Terra, estaremos apenas transferindo antigas hierarquias para um novo cenário. 

Isso não significa não reconhecer avanços extraordinários nas telecomunicações, na medicina, na produção de conhecimento científico, mas questionar quem controlará seus benefícios. O problema não está na tecnologia. Está na concentração privada do poder de decidir quem participa do futuro. A questão central não é saber se a humanidade chegará ao espaço. Provavelmente chegará. A pergunta decisiva é saber se chegaremos como espécie ou como mercado. 

Entre uma exploração espacial guiada pelo interesse público e um projeto imperial de expansão corporativa existe uma diferença fundamental. Uma busca ampliar as possibilidades humanas. A outra transforma a sobrevivência em privilégio. O colonialismo espacial talvez não seja apenas uma disputa sobre foguetes ou planetas distantes. É, sobretudo, uma disputa sobre imaginação política, sobre quem terá o direito de sonhar, existir e permanecer no futuro. Porque, ao final, o verdadeiro desafio civilizacional talvez não seja construir cidades orbitais para poucos, mas impedir que a Terra se torne um lugar inabitável para muitos.

A democracia na encruzilhada digital

Antonio Carlos Lua

A democracia nunca foi um sistema político acabado. Ao contrário, sua história é marcada pela permanente necessidade de adaptação às mudanças sociais, econômicas e tecnológicas. Ela sobreviveu ao absolutismo, às guerras mundiais, às ditaduras e às crises econômicas que abalaram continentes inteiros. Em cada época, reinventou seus mecanismos de representação, ampliou direitos e incorporou novas formas de participação popular. 

Hoje, porém, enfrenta um adversário diferente cuja ação é silenciosa, permanente e invisível nas telas dos smartphones por meio de algoritmos que selecionam aquilo que vemos, pensamos e compartilhamos. Nunca a democracia esteve tão conectada. Paradoxalmente, talvez nunca tenha estado tão vulnerável. 

A internet nasceu cercada por promessas quase utópicas. Imaginava-se que o livre acesso à informação produziria sociedades mais esclarecidas. Em certa medida, isso aconteceu. As redes sociais romperam monopólios históricos da comunicação, democratizaram a produção de conteúdo e permitiram que movimentos sociais, minorias e cidadãos comuns ocupassem espaços antes reservados aos grandes grupos econômicos e aos tradicionais meios de comunicação. Foi uma revolução comparável, em importância histórica, à invenção da imprensa de Gutenberg. Mas toda revolução tecnológica produz efeitos que seus próprios criadores dificilmente conseguem antecipar. 

A mesma tecnologia que deu voz a milhões de pessoas também eliminou grande parte dos filtros que separavam informação de propaganda, jornalismo de boato, conhecimento de opinião. Na velocidade das plataformas digitais, uma reportagem cuidadosamente apurada disputa atenção com um vídeo manipulado, uma fotografia adulterada ou uma narrativa fabricada por inteligência artificial. 

A consequência é uma profunda crise de credibilidade. Não porque existam mais mentiras do que antes — elas sempre acompanharam a política —, mas porque jamais foi tão simples produzi-las, distribuí-las e fazê-las parecer verdadeiras. As grandes plataformas digitais não são neutras. Seus algoritmos não foram concebidos para fortalecer a democracia, promover o pluralismo ou qualificar o debate público. Foram desenhados para maximizar receitas publicitárias. 

Seu principal ativo econômico é a atenção humana. E poucas coisas capturam mais atenção do que o medo, a indignação e o conflito. A frase de efeito vale mais do que o argumento consistente. O vídeo viral supera a análise cuidadosa. A emoção derrota a razão. Hoje, os algoritmos funcionam como espelhos que devolvem ao usuário apenas aquilo que ele deseja enxergar. Formam-se bolhas informacionais onde opiniões divergentes desaparecem e certezas são permanentemente reforçadas. O contraditório, elemento essencial da democracia, passa a ser percebido como agressão. 

Quando a sociedade deixa de conversar consigo mesma, a democracia começa a perder sua principal virtude, que é a capacidade de construir consensos mínimos entre pessoas que pensam diferente. O adversário político deixa de ser um interlocutor legítimo para tornar-se inimigo moral. A divergência converte-se em hostilidade. A crítica transforma-se em ofensa. A polarização deixa de ser circunstancial para tornar-se identidade permanente. 

Mais preocupante ainda é a industrialização da desinformação. As chamadas ‘fake news’ já não podem ser tratadas como episódios isolados ou simples desvios éticos. Grupos econômicos e redes internacionais utilizam métodos profissionais para produzir narrativas falsas, desacreditar instituições e manipular percepções coletivas. O objetivo raramente é confundir. Quanto maior a dúvida sobre os fatos, menor a confiança nas instituições. Nenhuma democracia resiste por muito tempo quando seus cidadãos deixam de acreditar na imprensa, na ciência. A ascensão da inteligência artificial tornou esse cenário ainda mais complexo. 

Entramos na era dos deepfakes, dos discursos fabricados e das imagens sintéticas praticamente indistinguíveis da realidade. Pela primeira vez na história, tornou-se possível produzir provas falsas com aparência de absoluta autenticidade. A velha máxima segundo a qual "uma imagem vale mais do que mil palavras" perdeu sentido quando a própria imagem deixou de ser garantia de verdade. Vivemos, talvez, a maior crise epistemológica da história contemporânea. Não discutimos apenas opiniões diferentes, mas realidades diferentes. 

É evidente que a solução não está na censura. Toda democracia madura deve proteger a liberdade de expressão, inclusive o direito à crítica contundente. Mas liberdade não pode ser confundida com licença para destruir deliberadamente o espaço público por meio da mentira organizada. O verdadeiro desafio consiste em encontrar um equilíbrio entre liberdade, responsabilidade e transparência. 

As plataformas digitais precisam assumir responsabilidades compatíveis com o enorme poder que exercem sobre a circulação de informações. Seus algoritmos não podem permanecer como caixas-pretas inalcançáveis ao escrutínio público. 

Mais do que alfabetização digital, precisamos de alfabetização democrática. É preciso ensinar crianças e jovens a distinguir informação de propaganda, evidência de opinião, jornalismo de manipulação. É preciso compreender que a democracia depende menos da unanimidade do que da capacidade de convivermos civilizadamente com a divergência. Sem jornalismo forte, a democracia perde um de seus principais mecanismos de autocorreção. 

O futuro da democracia será determinado pela capacidade da sociedade de preservar princípios que nenhuma tecnologia poderá substituir, que é a liberdade acompanhada de responsabilidade com o diálogo acima do fanatismo, a razão acima da manipulação e a verdade acima da conveniência. Afinal, a democracia é um pacto de confiança entre cidadãos e nenhuma sociedade permanece livre quando perde a capacidade de distinguir fatos de ficções, argumentos de insultos e informação de propaganda. O maior desafio do nosso tempo não é tecnológico. É civilizatório.

Sociedade dos desiguais

Antonio Carlos Lua

Durante muito tempo, a desigualdade foi tratada como um efeito colateral do desenvolvimento econômico. A crença predominante sustentava que o crescimento da economia seria suficiente para reduzir diferenças sociais e ampliar oportunidades. Com o passar das décadas, porém, essa expectativa mostrou-se insuficiente. Em vez de diminuir, a desigualdade assumiu novas formas e consolidou-se como um dos principais obstáculos ao desenvolvimento humano. Em boa parte do mundo — especialmente na América Latina — ela deixou de ser consequência para tornar-se um elemento estrutural da organização econômica e social. 

Vivemos na sociedade dos desiguais. Essa realidade vai muito além da tradicional divisão entre ricos e pobres. A desigualdade determina quem tem acesso à educação de qualidade, aos melhores serviços de saúde, ao crédito, ao mercado de trabalho mais qualificado e até à possibilidade de participar das decisões que moldam o futuro da sociedade. Em outras palavras, ela define quem pode construir projetos de vida e quem permanece limitado pelas circunstâncias do nascimento.

As transformações tecnológicas ampliaram ainda mais esse desafio. A inteligência artificial, a automação e a economia digital prometem ganhos extraordinários de produtividade, mas também podem aprofundar novas formas de exclusão. Hoje, não basta ter acesso à internet. A diferença está na capacidade de compreender, produzir e utilizar conhecimento tecnológico. Países, empresas e indivíduos que dominam essas ferramentas acumulam vantagens crescentes, enquanto aqueles que não conseguem acompanhar essas mudanças correm o risco de ocupar posições cada vez mais vulneráveis.

Entretanto, talvez o aspecto mais preocupante da desigualdade contemporânea seja sua naturalização. A convivência diária com pessoas vivendo nas ruas, crianças fora da escola, trabalhadores sem proteção social e famílias privadas de direitos básicos produz um efeito perigoso. Assim, a desigualdade deixa de causar indignação e passa a ser encarada como algo inevitável.

Quando isso acontece, instala-se a falsa ideia de que cada indivíduo é exclusivamente responsável por sua condição econômica. Essa interpretação ignora que ninguém escolhe onde nasce, a renda da família, a qualidade da escola que frequenta, o acesso à alimentação adequada ou as oportunidades disponíveis durante a infância. O mérito individual é importante, mas depende da existência de condições mínimas para que esforço e talento possam produzir resultados.

Sociedades extremamente desiguais desperdiçam talentos, reduzem sua capacidade de inovação e limitam o crescimento econômico, científico e cultural. Por isso, a desigualdade não prejudica apenas aqueles que vivem nas camadas mais pobres da população. Ela reduz a capacidade de crescimento de todo o país. Ambientes marcados por grandes diferenças sociais tendem a conviver com maiores índices de violência, menor confiança entre os cidadãos e fragilidade institucional. A ausência de oportunidades compartilhadas compromete a coesão social e enfraquece o sentimento de pertencimento, tornando mais difícil a construção de um projeto coletivo de desenvolvimento.

Os caminhos para enfrentar esse cenário são conhecidos. Passam pela ampliação da educação pública de qualidade, pelo fortalecimento das políticas voltadas à primeira infância, pela redução das desigualdades regionais, pela inclusão digital, pelo investimento contínuo em ciência, tecnologia e inovação, pela geração de empregos qualificados e por um sistema tributário mais equilibrado, capaz de distribuir de forma mais justa os custos e benefícios do desenvolvimento.

No entanto, nenhuma dessas medidas produzirá resultados duradouros sem compromisso político e institucional. Reduzir desigualdades exige planejamento de longo prazo, continuidade das políticas públicas e fortalecimento das instituições democráticas. Não se trata apenas de crescimento econômico, mas da capacidade de transformar riqueza em oportunidades para toda a população.

É importante enfatizar que a sociedade dos desiguais não surgiu por acaso. Ela foi construída por decisões econômicas, políticas e históricas acumuladas ao longo de décadas. Da mesma forma, sua transformação depende de escolhas conscientes e de um pacto social que coloque a igualdade de oportunidades como objetivo permanente.

O maior risco não é apenas conviver com a desigualdade, mas aceitá-la como uma característica inevitável da sociedade. Quando um país perde a confiança na mobilidade social, rompe-se um dos fundamentos da democracia, que é a convicção de que o futuro pode ser melhor que o presente e de que o esforço individual pode produzir mudanças reais.

Nenhuma nação alcança desenvolvimento pleno quando apenas uma parcela de sua população avança. Crescimento econômico sem inclusão produz riqueza concentrada, reduz a confiança nas instituições e amplia tensões sociais.

A grande questão do nosso tempo já não é saber se existe desigualdade. Ela está presente nas escolas, nos hospitais, nas periferias, nas diferenças de renda e no acesso desigual às novas tecnologias. A pergunta verdadeiramente decisiva é saber por quanto tempo uma sociedade conseguirá manter sua estabilidade democrática convivendo com distâncias tão profundas entre cidadãos que compartilham o mesmo território, os mesmos direitos constitucionais e as mesmas expectativas de futuro.

Responder a essa pergunta significa reconhecer que combater a desigualdade não é apenas uma questão de justiça social. É uma condição indispensável para garantir desenvolvimento econômico sustentável, fortalecer a democracia e construir um país capaz de oferecer oportunidades reais para todos os seus cidadãos.

O crime digital e a reconfiguração da insegurança no século XXI

Antonio Carlos Lua

O crime mudou de endereço. Se antes ele se concentrava nas ruas, nos assaltos físicos e nas disputas territoriais visíveis, hoje ele circula por cabos de fibra óptica, servidores invisíveis e telas iluminadas que cabem no bolso. O século XXI testemunha o crescimento de uma forma de violência que não depende de força física, mas de conhecimento técnico, engenharia social e exploração das vulnerabilidades humanas. Trata-se do crime digital, uma nova fronteira da criminalidade que ampliou o alcance dos criminosos e alterou profundamente a noção de segurança. 

Em poucos segundos, uma pessoa pode ter sua conta bancária invadida, seus dados expostos, sua identidade clonada ou sua vida inteira sequestrada por meio de um simples clique. A violência, antes associada ao contato direto, tornou-se silenciosa, remota e, em muitos casos, invisível até que os danos já estejam feitos. 

O avanço das tecnologias digitais criou uma sociedade hiperconectada. Bancos, hospitais, governos, empresas e relações pessoais passaram a depender de sistemas digitais para funcionar. Esse ecossistema, embora eficiente, abriu brechas para um novo tipo de exploração criminosa. 

Hoje, ataques de ransomware podem paralisar hospitais inteiros, impedindo o acesso a prontuários médicos e colocando vidas em risco. Golpes de ‘phishing’ conseguem enganar até usuários experientes, simulando comunicações oficiais de bancos, empresas ou órgãos públicos. Vazamentos de dados expõem milhões de pessoas de uma só vez, transformando informações pessoais em mercadoria no mercado ilegal da internet. O crime digital não escolhe vítimas apenas pela riqueza, mas pela vulnerabilidade. Qualquer usuário conectado pode ser alvo. E essa universalização do risco cria uma sensação difusa de insegurança permanente.

Ao contrário do que muitos imaginam, o crime digital não depende apenas de alta sofisticação técnica. Na maioria dos casos, ele se apoia em algo muito mais antigo e previsível: o comportamento humano. Os criminosos exploram emoções como medo, urgência, curiosidade e confiança. Uma mensagem que simula uma emergência bancária, um link que promete um benefício financeiro ou um e-mail aparentemente legítimo são suficientes para induzir vítimas ao erro. Esse processo é conhecido como engenharia social — e é uma das armas mais poderosas do crime contemporâneo.

O ponto central é que, no ambiente digital, a confiança é constantemente simulada. A aparência de legitimidade substitui a autenticidade. E, nesse contexto, até mesmo pessoas bem informadas podem ser enganadas.

Se antes o crime organizado era associado a estruturas hierárquicas visíveis, hoje ele também opera em redes descentralizadas e transnacionais. Grupos especializados em invasão de sistemas, roubo de dados e fraudes financeiras atuam como verdadeiras empresas clandestinas, muitas vezes com divisão de tarefas, suporte técnico e estratégias de expansão. Essas organizações exploram a dificuldade de rastreamento em ambientes digitais, especialmente quando utilizam criptomoedas e redes criptografadas para movimentar recursos.

A globalização da internet também dificulta a ação das autoridades, já que um ataque pode ser executado em um país, afetar outro e ser coordenado a partir de um terceiro. Essa fragmentação territorial cria um desafio sem precedentes para sistemas jurídicos que ainda operam, em grande parte, com base em fronteiras físicas.

O avanço do crime digital não se limita às perdas financeiras. Ele afeta diretamente a confiança social. Quando usuários deixam de acreditar na segurança de bancos digitais, compras online ou até mesmo na veracidade de comunicações oficiais, instala-se um ambiente de desconfiança generalizada.

Além disso, há impactos psicológicos relevantes. Vítimas de fraudes digitais frequentemente relatam sentimento de impotência, vergonha e ansiedade. Em casos mais graves, o dano emocional é comparável ao de outras formas de violência, especialmente quando há exposição de dados íntimos ou invasão de privacidade. No campo institucional, o problema também é grave. Vazamentos de dados públicos podem comprometer sistemas de saúde, segurança e administração pública, afetando milhões de cidadãos simultaneamente.

A cada avanço tecnológico, surge também uma nova forma de exploração criminosa. Inteligência artificial, automação e big data, por exemplo, já estão sendo utilizados tanto para proteção quanto para ataque. Criminosos utilizam ferramentas automatizadas para criar campanhas de fraude em larga escala, enquanto sistemas de Inteligência Artificial podem gerar mensagens falsas altamente convincentes, imitando estilos de escrita, vozes e até imagens.

O fenômeno dos ‘deepfakes’ amplia ainda mais o risco, permitindo a criação de conteúdos falsos extremamente realistas. Nesse cenário, a segurança digital se torna uma corrida constante entre inovação defensiva e criatividade criminosa.

O crime digital representa uma mudança estrutural na forma como a violência se manifesta na sociedade contemporânea. Ele não depende mais de espaço físico, não exige presença direta e pode ser executado em escala global com poucos recursos.

Essa transformação exige uma nova forma de pensamento sobre segurança. Não se trata apenas de proteger bens materiais, mas de preservar identidades, dados, sistemas e, em última instância, a própria confiança que sustenta a vida em sociedade.

O século XXI já não separa o mundo físico do digital. Ambos coexistem de forma inseparável. E, nesse novo território híbrido, a violência também se reinventou de forma mais sofisticada.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

A diáspora de cientistas brasileiros

            Antonio Carlos Lua

O Brasil enfrenta, silenciosamente, a perda acelerada de capital humano altamente qualificado para o exterior. O fenômeno, conhecido como “fuga de cérebros”, deixou de ser um movimento isolado de pesquisadores buscando oportunidades mais vantajosas fora do país e se consolidou como um retrato fiel das fragilidades do sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação. Hoje, o país exporta talentos formados com recursos públicos e importa soluções tecnológicas produzidas por nações que entenderam a ciência como prioridade estratégica. Nos últimos anos, a curva de emigração científica tornou-se mais íngreme. 

Dados do Ministério das Relações Exteriores indicam que a comunidade brasileira no exterior saltou de cerca de 2,1 milhões para 4,7 milhões de pessoas em duas écadas, com crescimento mais acentuado entre profissionais de alta qualificação.

Estima-se que, apenas entre 2015 e 2022, mais de 6.700 pesquisadores doutores deixaram o país para desenvolver suas carreiras em universidades e centros tecnológicos no exterior — número que não inclui jovens que saíram antes de completar a pós-graduação. 

A migração precoce se transformou em tendência entre estudantes de excelência. Programas de intercâmbio e bolsas internacionais têm atraído talentos ainda na graduação, criando uma evasão intelectual antecipada. 

A dimensão econômica dessa perda é contundente. A formação de um doutor no Brasil custa entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão em recursos públicos — desde a educação básica até a pós-graduação — sem contar investimentos indiretos em laboratórios, infraestrutura, bolsas e orientação acadêmica. 

Quando esses profissionais deixam o país, o investimento se converte em subsídio involuntário a economias mais desenvolvidas, que incorporam pesquisadores altamente treinados sem arcar com os custos de sua formação. 

Trata-se de uma perda dupla. Além do capital humano que se vai, perde-se também o valor multiplicador que cada pesquisador é capaz de gerar em inovação, produtividade e desenvolvimento tecnológico. A raiz desse fenômeno está na fragilidade estrutural do sistema científico brasileiro. 

O cenário contrasta com o crescimento expressivo do sistema de pós-graduação. O Brasil formou mais de 24 mil doutores em 2023, mas o mercado acadêmico e científico nacional só absorveu uma fração ínfima desse contingente. 

Instituições públicas enfrentam cortes, concursos rareiam, laboratórios sofrem com falta de equipamentos e a instabilidade orçamentária mina a continuidade de pesquisas estratégicas. O resultado é um abismo entre formação e oportunidade. Para milhares de jovens altamente qualificados, o Brasil deixou de ser um ambiente previsível para construir uma carreira científica. A fuga de cérebros tem ainda efeitos diretos na produção de conhecimento. 

Após atingir um pico de publicações em 2021, a produção científica brasileira indexada em bases internacionais recuou 16,1% em 2022. Embora múltiplos fatores contribuam para essa queda, a redução de equipes, de financiamento e de especialistas é um componente central. Quando pesquisadores deixam o país, grupos de estudo se desestruturam, projetos ficam incompletos e linhas de pesquisa consolidadas se dissolvem por falta de continuidade. 

O impacto ultrapassa a academia e atinge o desenvolvimento nacional. Áreas estratégicas como biotecnologia, inteligência artificial, saúde pública, energia limpa e agritechnology perdem competitividade quando o país não consegue reter seus especialistas. Enquanto isso, brasileiros têm se destacado em centros de excelência no exterior: laboratórios de nanotecnologia nos Estados Unidos, grupos de genômica no Reino Unido, polos de energia renovável na Alemanha, projetos de IA na Suíça. São brasileiros liderando avanços globais — mas longe de casa. 

A desigualdade regional amplifica o problema. Estados do Norte e Nordeste, já historicamente subfinanciados em infraestrutura científica, são os que mais sofrem com a saída de pesquisadores. A concentração de recursos em poucos estados — São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul — reforça a fragmentação de um sistema que deveria ser nacional. Sem políticas de descentralização, regiões emergentes perdem suas mentes mais inovadoras e permanecem distantes do protagonismo científico. 

Em contraste, países que hoje lideram a economia do conhecimento adotaram políticas persistentes de atração e retenção de talentos. A Coreia do Sul implementou planos decenais de investimento contínuo em inovação. A China criou programas robustos para repatriar cientistas, oferecendo salários competitivos e laboratórios de ponta. A União Europeia mantém fundos bilionários para pesquisa colaborativa. Nos Estados Unidos, universidades e empresas disputam pesquisadores estrangeiros com pacotes de incentivo substanciais. 

Todos esses países compreenderam que soberania científica é soberania econômica. O Brasil tem tentado reagir. Nos últimos anos, novas chamadas de repatriação e cooperação internacional foram abertas, e o orçamento do MCTI começou a ser parcialmente recomposto. Mais de 2.500 cientistas brasileiros em 56 países manifestaram interesse em colaborar ou retornar ao país, demonstrando que ainda existe desejo de contribuir com a ciência nacional. Mas sem estabilidade orçamentária, valorização profissional e infraestrutura adequada, esses movimentos continuam tímidos diante da magnitude do êxodo. 

A ciência que não cultivamos hoje será a dependência que pagaremos amanhã. Reconhecer essa crise invisível é o primeiro passo para reinventar o futuro — um futuro que, por ora, continua embarcando em voos de partida.