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sábado, 9 de julho de 2022

A barbárie no receituário neoliberal

ANTONIO CARLOS LUA

Diante de uma crise política sem precedentes, temos agora a tarefa urgente de repensar, com serenidade e lucidez, a experiência do Brasil como Nação, num momento em que o Governo Federal – seguindo o receituário neoliberal – insiste em levar o país ao caminho da barbárie, impondo uma vida medíocre aos brasileiros. 

Esta é uma tarefa básica, fundamental. Temos que nos mobilizar, em vez de ficar ouvindo clichês falsificadores da nossa trajetória no tempo, enquanto as forças populistas reacionárias fragilizam e minam a nossa já combalida democracia, ao dizer uma coisa e fazer outra, num jogo cínico e manipulador, substituindo mentiras antigas por mentiras novas.

Vivemos um momento de extrema saturação na ordem política e econômica a nos dizer que não devemos ficar de braços cruzados. Precisamos repolitizar a legitimidade da democracia no país, o que equivale a restaurá-la, uma vez que o povo perdeu a confiança na República das Medidas Provisórias com práticas políticas cada vez mais em desarmonia com a vontade, aspirações e os interesses existenciais da população.

No lugar da ideia de poder do povo criou-se no Brasil um sistema de governantes e governados, ficando esquecida, por completo, a bandeira da soberania popular, expondo as contradições de um sistema político sem estratégias para resolver impasses em questões de interesse público.

No Brasil, o regime é igualitário, mas a sociedade é desigual. É visível o processo de erosão no falido sistema político vigente no país, tornando-se inadiável no atual cenário um forte projeto de desenvolvimento nacional, trazendo a reforma democrática do Estado, para que o país possa descortinar um novo horizonte civilizatório.

Nesse diapasão, é necessário que o país se liberte da dependência do mercado financeiro imposta pelo rentismo asfixiante de Paulo Guedes, cuja origem remonta à “era dos Fernandos” (Fernando Collor - 1990/1992), e Fernando Henrique Cardoso - 1995/2002), quando os ricos condicionaram o financiamento do Estado deficitário pela desoneração tributária do capital e pela extorsão recompensada por alta taxa de juros a sustentar o jogo da dívida pública. 

O rompimento desse círculo vicioso pressupõe, obviamente, a criação de uma nova maioria política comprometida com a reconfiguração do financiamento do Estado brasileiro, que na atual conjuntura nos impõe um regime despótico, uma tirania, onde as condições sociais de uma elite dominante impedem a perspectiva de esperança da população, num sistema econômico que se distancia cada vez mais da justiça social, deixando 31,1 milhões de pessoas literalmente passando fome.

domingo, 5 de junho de 2022

Bob Dylan: Soprando no Vento

ANTONIO CARLOS LUA

A música de Bob Dylan ‘"Blowin' in the wind" – em tradução literal “Soprando no Vento” – está sempre ligado aos nossos sentimentos, sendo o hino da nossa geração. Afinal, como foi que nossas vozes foram instigadas por um homem de calça jeans que dedilhava um violão? Que respostas a música de Bob Dylan pode dar para o mal dos nossos dias?    

A escritura sagrada nos diz repetidas vezes que o espírito santo se move no vento, sendo uma força mais potente do que qualquer outra. Essa é uma afirmação que o saudoso Papa João Paulo II também fez no dia 27 de setembro de 1997, quando Bob Dylan foi cantar para ele, em Bolonha, na Itália.

Atualmente, um vento malvado está percorrendo o mundo, deslizando-se entre as rachaduras dos nossos corações, chicoteando nossas mentes no fundo dos becos mais sombrios da nossa alma. 

Talvez seja necessário ouvir, agora, a música de Bob Dylan e aceitar a sugestão do Papa Francisco, pedindo que o Espírito Santo direcione o seu rodopio, soprando o vento, suavizando as nossas vozes irregulares, com o ‘Cântico do Irmão Sol’, de Francisco de Assis. 

A referência à Bíblia é uma bússola constante ao longo do caminho criativo de Bob Dylan. Boa parte dos seus primeiros sucessos musicais – a partir da célebre “Blowin' in the Wind” – teve inspiração em passagens dos livros de Ezequiel e Isaías.

O grande código bíblico continua sendo um texto de referência recorrente na sua produção artística. Ele o lê essencialmente como poeta, com o insuperável repertório de metáforas e de parábolas, que é mais uma referência cultural do que pedra angular pessoal.

Em certo ponto da sua trajetória, Bob Dylan passou a praticar a música como um ato de fé, com um carisma capaz de fascinar plateias. A esse respeito, é exemplar a famosa e controversa trilogia cristã, com três álbuns seus gravados entre 1979 e 1981, em um momento particular da sua vida.

Bob Dylan passou vários meses estudando a Palavra de Deus, lançando depois vários discos nos quais não se poupou em cantar a fé em Jesus Cristo. A Bíblia de Bob Dylan é implacável e exige uma fé agarrada a uma rocha sólida, com visão profética. 

Para encontrar canções de sabor bíblico e artisticamente bem-sucedidas, convém voltar o olhar para o Bob Dylan clássico, com a chave de protesto contra a corrida armamentista e o medo de uma terceira guerra mundial que, às vezes, parece iminente.

A conversão de Bob Dylan – que alcançou a glória literária ao receber, em 13 de outubro de 2016, o Prêmio Nobel de Literatura – ocorreu em 17 de novembro de 1978, quando ele estava se apresentando em San Diego e uma pessoa da plateia jogou no palco uma pequena cruz de prata. 

O cantor se inclinou, recolheu e guardou a cruz de prata. Chegando no hotel, após o show, ele remexeu no bolso, encontrou a cruz, colocou a mesma no pescoço e encontrou Jesus. Seguem-se, então, a trilogia gospel, a pregação do Evangelho durante seus shows e o anúncio do Apocalipse em um mundo cada vez mais analfabeto de Deus, com o elemento religioso sendo parte integrante do roteiro que acompanha as grandes rupturas de sua vida.

 

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Discurso degenerado

Antonio Carlos Lua

Os 199 anos da independência do Brasil, comemorados terça-feira, 7 de setembro, teve o gosto estranho da amargura, desilusão, no atoleiro da crise na qual estamos patinando com as disputas estéreis que jogam nossa democracia num lamaçal. 

Assim, no lugar de desfiles e paradas cívicas nas ruas, assistimos ataques gratuitos e intempestivos perpetrados contra as Instituições e os Poderes pelo Presidente da República, cujo discurso degenerado – próprio do seu personalismo senhorial e doentio – se distancia cada vez mais do Brasil real, ignorando os temas caros para a sociedade.

Cabem nos mencionados ataques a ideologia popular nacionalista de extrema-direita, o negacionismo e a arrogância do Presidente da República adotando uma postura antidemocrática, rasgando e esgarçando com ódio e violência a já corroída credibilidade do país. 

Atentar contra a Constituição Federal, fabricar e divulgar notícias falsas, negligenciar os avanços da ciência, da tecnologia, do conhecimento e manter-se inerte diante do sucateamento do patrimônio cultural do país enfraquece os alicerces de confiança da Nação.

Fica evidente que, para Bolsonaro, a legalidade democrática é vista e sentida como algo muito perigoso e por isso mesmo ele tenta interromper essa legalidade, uma vez que ela se volta naturalmente contra a natureza autocrática do seu governo. Ele tornou-se o inimigo número um de si mesmo. 

Dizer que Bolsonaro passou dos limites virou lugar-comum. Faltam adjetivos para qualificar o seu delírio histérico de colocar o poder acima da Constituição Federal, em discursos potencializados nas engrenagens políticas ultraconservadoras que – glorificando a Ditadura Militar – tentam solapar a cidadania, pregando a violência e a barbárie.

Mas o Brasil não pode institucionalizar a tirania – nem no Palácio do Planalto, nem nas ruas. É preciso tolerância zero com as atitudes de Bolsonaro, cujas posições desatinadas mostram uma hostilidade aberta contra a democracia, a imprensa e os direitos humanos. 

Vivemos um dos piores momentos da história brasileira. Nossa pátria está mergulhada no abismo da incerteza com os desmandos de um Presidente da República que, ignorando as transformações no mundo, quer fazer valer a velha ideia de despotismo, contra-valores e benesses de governo régio.

Precisamos de uma nova independência, uma vez que aquela que será bicentenária em 2022 tenta estabelecer a escravidão moderna, com o país agindo como uma província sem a construção de consensos civilizatórios mínimos capazes de superar a barbárie e a miséria.

domingo, 29 de agosto de 2021

Fora da via da democracia

 


Antonio Carlos Lua

A atual crise brasileira revela que temos um país não apenas com uma doença de origem biológica e viral, mas também com uma grave doença social e política. 

Não temos palavras nem ideias apropriadas para expressar como o Brasil se tornou tão violento e desigual, com sucessivos fracassos e retrocessos.

Políticos das mais variadas tendências e ideologias mostram-se incapazes de fazer um diagnóstico que aponte uma saída viável para o país, diante das manifestações da massa mercenária alienada que vem disseminando a convicção odiosa que seus líderes pautam sem qualquer responsabilidade social num momento delicado no país.

Com os desmandos de políticos descompromissados e de seus acólitos, o Brasil terá que discutir a sua reconstrução como nação democrática. Para isso, muitos políticos terão que superar suas concepções toscas a respeito do que somos e do que podemos ser, para que possamos superar nossas limitações, tendo um melhor entendimento do que é verdadeiramente uma democracia.

Em toda a história do Brasil republicano é a primeira vez que encontramos o país em situação vexatória em todos os índices de civilização, nos distanciando do conceito que representa a ideia de uma sociedade moderna e democrática. 

Tornou-se evidente no país a degradação das relações sociais e políticas, com o agravamento da pobreza, da maciça exclusão social, sem nenhuma perspectiva de mudança, diante das determinações econômicas problemáticas e perversas.

Infelizmente, ainda não superamos as iniquidades do regime autoritário. O espírito da ditadura contínua de tocaia nos escaninhos do poder. Nosso projeto de nação foi interrompido e com os políticos que temos hoje ele se tornou algo praticamente irrealizável. 

Precisamos de uma democracia plebiscitária. Nossa agenda democrática ainda está inconclusa. Os políticos fisiológicos arrancaram o Brasil do seu trajeto e o levaram para o buraco.

Assim, observamos periodicamente a postura autoritária de feitores de senzala que, com seus compromissos apocalípticos, não respeitam as instituições e tentam privar os direitos dos cidadãos, para torná-los destituídos e coisificados, promovendo o desmonte do país na mansidão de um regime servil e provinciano, fora da via regular da democracia.

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Expropriação, repressão e desigualdade

Antonio Carlos Lua

Desde quando o Brasil recebeu o primeiro europeu e se tornou uma colônia do Império extramarítimo lusitano, foram forjados modos de viver baseados na expropriação, repressão e desigualdade, insuflando um sentimento despótico que gera até hoje uma política de morte. 

Portanto, o que vivemos agora no Brasil é a expressão do sentimento antidemocrático que se materializou na política, tendo como componente a corrupção, que vem sendo uma experiência decisiva no projeto de destruição de país, freando e acabando com tudo o que ficou definido na Constituição Federal.

Nesse processo político, continuamos enfrentando os fantasmas soltos nos anos de chumbo que, ao longo dos anos, seguiram na sombra, ressurgindo agora para nos colocar numa encruzilhada, corroendo todos os mecanismos de controle estatal, mostrando que só vão largar o osso quando a morte da democracia no país estiver decretada e efetivada.

domingo, 1 de agosto de 2021

A barbárie escancarada


Antonio Carlos Lua

 A violência é um fenômeno que vem constituindo a história do Brasil, desde a colonização, com a extinção de povos originários, a escravidão de índios, de africanos, e a destruição de culturas. 

No início da República Velha, a degola fez dez mil vítimas na Revolução Federalista, no Rio Grande do Sul. O Contestado matou cerca de 30 mil sertanejos pobres de Santa Maria (RS). A Revolta da Armada bombardeou o Rio de Janeiro com canhões. Na Revolução Constitucionalista, de 1932, aviões de guerra bombardearam São Paulo. 

Hoje, a violência ganha novos contornos, fragilizando os laços sociais, atentando contra as mulheres, crianças e idosos, disseminando valores belicosos e odiosos com o narcotráfico, a venda de armas, a prostituição infantil, o turismo sexual, a lavagem de dinheiro e os assaltos à luz do dia que se multiplicam de forma acelerada, com registros diários de homicídios, feminicídios e latrocínios.

A juventude é o alvo principal da violência. Praticamente a metade dos óbitos de pessoas de 15 a 24 anos no Brasil são causadas por homicídios. A cada 7 minutos, uma pessoa é assassinada no Brasil. A escalada de violência é o aspecto terrivelmente fatal do retrocesso político, econômico e social vivido no país. 

A violência – que atravessa a história do Brasil como uma enorme e visível ferida aberta – pode ser explicada pelo contínuo processo de exclusão a que a população mais pobre é submetida, num país drenado por uma engrenagem corrupta e agressiva, onde a tirania dos homens cria um retrocesso civilizacional. 

Como se não bastasse, temos como fenômeno mais recente as balas assassinas que – cinicamente chamadas de “balas perdidas” – continuam ceifando a vida de negros e pobres inocentes todos os dias nos campos de concentração das periferias no país, onde favelados são deixados à própria sorte e escancarados para a própria morte, numa violência covarde que parece não ter fim.

Enquanto isso, somos obrigados a se contentar com a repetição do ritual hipócrita daqueles que – fugindo da responsabilidade de garantir a nossa proteção – reintroduzem inescrupulosamente em seus discursos demagógicos desgastadas declarações nas marchas fúnebres tristemente ilustradas pelos caixões dos mortos anônimos covardemente trucidados numa guerra a céu aberto, com uma quantidade de mortos semelhante à de guerras civis que explodem pelo mundo.

É por isso que milhões de brasileiros desprotegidos e acostumadas ao esquecimento num país desigual não aceitam mais um sistema político que funciona como um simulacro de democracia com uma base de sustentação alicerçada por ilicitudes, nutrindo impiedosamente uma obsessão pela morte de miseráveis que muitas vezes não têm sequer a liberdade de chorar seus mortos, vítimas da crueldade e selvageria. 

O Brasil registra, hoje, em média, cerca de 60 mil homicídios por ano, o que equivale a 45% do total de homicídios da América Latina. O país – cuja população representa 3,6% do total de habitantes do mundo – responde, sozinho, por 18% dos homicídios no planeta, numa barbárie escancarada que nos distancia dos padrões civilizados.

sábado, 17 de julho de 2021

Povo, ocupai o poder!

Antonio Carlos Lua

O Brasil vive a era da política de ciclo curto. Hoje, nenhum político mostra uma proposta estruturada capaz de atender ao clamor da sociedade ou promover qualquer mudança significativa nesse grande caldeirão de aprendiz de feiticeiro que não se preocupa com os efeitos colaterais de seus experimentos.

As propostas engendradas em arranjos pragmáticos e casuísticos apresentadas até agora constituem-se um arremedo e resumem-se apenas à defesa de interesses eleitoreiros para ocupação de pedaços da “esfera pública” com instrumentos retóricos para alcançar o poder, prometendo milagres diante da nossa tragédia continuada. 

Nesse momento, só serve aos brasileiros propostas que venham ser realmente a travessia para um regime legítimo, popular, representativo, reconstruindo a ordem constitucional-democrática comprometidas com a emergência das massas. 

Não temos no Brasil atualmente nenhum político de grande durabilidade. Com uma cultura antissistêmica, vivemos uma crise na democracia representativa num país cada vez mais desigual, com políticos de ordinário perfil, revelando um espetáculo grotesco de retrocessos e vulgaridades. 

Abriu-se um vácuo de poder na forma de interregno político no Brasil predador, forjado a ferro e fogo, na destruição das matas, tangendo gente, explorando, extraindo, sugando até não mais ter o que arrancar. 

Tudo pelo imediato, pelo aqui e agora, olhando sempre para fora, da colônia para a metrópole, esteja em Paris ou Miami, sempre uma submetrópole a se mirar. 

Com imensas distorções, o Brasil vive em tensão permanente, com grandes recuos, violência e uma democracia de baixíssima intensidade, distorcida pelo poder neoliberal. 

Intolerância e violência, se revelam no palco da política, nas relações cotidianas, no genocídio de jovens pobres nas periferias, nas aldeias remotas, nos campos agrícolas com trabalhadores assassinados e índios massacrados. 

Tudo contra a cidadania, contra nossa Casa Comum. Tudo contra todos, contra os explorados até o limite do esgotamento, com cidadãos engolidos, cooptados, destruídos, com a decadência moral e ética, com os perversos processos de concentração de poder e um modelo predatório de fazer política. 

O Brasil da desigualdade, da exploração e violência precisa se guiar na milenar ética africana do 'Ubuntu' o “eu sou porque nós somos” e “nós somos porque você é”, menos “eu” e mais “nós”. 

Precisa romper também com a própria noção de antropocentrismo, conforme nossos irmãos guarani nos ensinaram com o 'Teko Porã' (o Bem Viver), em que estar no planeta, convivendo harmonicamente com os demais seres, é muito mais importante que ter.

Só assim será possível superar os ciclos de longa história de iniquidades e injustiças. Do contrário, seguiremos nos atolando em um pântano, ou nos perdendo em um labirinto sem fim, com a projeção de nossa imagem em um espelho distorcido pelas contradições. 

Vamos lutar para que em nosso espelho brilhem imagens de esperança, com uma nova política da vida – a biopolítica – com experimentações coletivas e democráticas permeados pelo empoderamento e o protagonismo popular. 

Povo, ocupai o Poder! Um poder que emane de baixo para cima, de dentro para fora em uma nova cultura política, que radicalize a democracia. Afinal, os de cima não têm o direito de nos governar, e os de baixo não querem mais ser governados. O que está por vir só depende de nós.