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quarta-feira, 15 de julho de 2020

A literatura na caixa de ferramentas da teologia


Antonio Carlos Lua

Francisco de Assis não é apenas um dos santos e uma das figuras lendárias mais famosos da Igreja Católica. Ele também é considerado um escritor pioneiro. “Cântico das Criaturas” (Cantico delle criatura), de sua autoria, foi um dos primeiros textos da história da literatura italiana. 

O Papa Francisco – eleito Bispo de Roma em 2013 – tem também uma maneira interessante de usar textos literários. 

Embora não seja tão fluente em inglês, francês e alemão como os Papas Bento XVI e João Paulo II, há uma diferença linguística substancial que o marca em relação aos seus dois mais recentes antecessores. 

A linguagem do Papa Francisco é rica em metáforas, provérbios e expressões idiomáticas. Quem o observa enxerga um paralelo em sua maneira de empregar palavras e imagens.

Profundamente existencial é uma linguagem derivada de muitos anos de experiência pastoral do Pontífice como sacerdote, professor e bispo. 

Podemos dizer que Francisco é um “papa linguístico”. Diferentemente de seus antecessores, ele tem um currículo docente que se focava mais na literatura do que na filosofia.

Ele sempre tende a criar novos verbos e substantivos – como, por exemplo, misericordiare, “misericordiando”, e rapidacion, “rapidização”

Sua inspiração demonstra ser ancorada na experiência de São Francisco de Assis, a partir da leitura do Evangelho de Mateus, em 1942.

Entre 1964 e 1965, o Papa Francisco ensinou Cervantes, literatura gaúcha, muito popular na Argentina, no Brasil e no Uruguai entre 1870 e 1920. Ele transmite a experiência do povo através de dialetos e expressões populares, que ele considera puras e livres de sistematização.

Na exortação “Querida Amazônia”, o Papa Francisco recitou seis poesias – “Com a chuva estou vivendo”; “Chamado"; “O rio Amazonas”; “A transformação pela poesia”; “Aqueles que creram”; e “Carta de navegar” – narrando a beleza violada do pulmão verde do mundo,  em versos poéticos para descrever a Âmazônia.

Essa é uma das razões para que muitas pessoas admirem o Papa Francisco no seu diálogo com seguidores e os meios de comunicação social, tornando fácil entender porque suas palavras exigem uma análise poética e linguística e não apenas uma boa tradução teológica.

Na caixa de ferramentas da teología cristã – especialmente a católica – existe, ainda hoje, muito mais filosofia do que poesia. Mas o conceito cristão é tão poético quanto filosófico. Na própria Bíblia, encontra-se muito mais poesia do que a filosofia.

Francisco tem se mostrado um Papa verdadeiramente global e uma das principais provas dessa afirmativa é sua linguagem, que não se restringe ao discurso clássico e valoriza o caráter poético nas pregações religiosas.

A globalização do catolicismo está sendo acelerada na medida em que o Papa Francisco encontra novas expressões linguísticas para alimentar uma fé antiga, mas sempre nova.

domingo, 5 de julho de 2020

Literatura: direito inalienável do homem

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Antonio Carlos Lua

No campo da literatura, Antonio Cândido é o intelectual mais destacado de sua geração, sendo o primeiro grande estudioso universitário a permanecer com obra imediatamente relevante até agora. 

Em vida, ele nos deu a certeza de que, sem distinções entre erudita e popular, a literatura deveria ser um direito inalienável do homem. 

Não à toa, um dos textos mais conhecidos de Antonio Cândido  – “O Direito à Literatura” – inclui a arte no rol dos direitos humanos. Ele dizia que “a literatura é o sonho acordado das civilizações e como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura. Deste modo, ela é fator indispensável de humanização”.

Ele sempre fez questão de não tratar a literatura como fenômeno isolado, Como crítico e ensaísta atuou no tempo presente, escrevendo sobre as obras de Clarice Lispector, João Cabral de Mello Neto, Carlos Drummond de Andrade, voltando seu olhar também para Machado de Assis, Aluísio de Azevedo e Manuel Antônio de Almeida. 

Dessa forma, ele foi determinante para a ideia que se tem hoje da produção literária brasileira. Generoso, atuava no seu tempo. Escreveu muito sobre autores que fizeram das camadas mais baixas da sociedade seu tema principal. Talvez seja esta a razão da literatura ser vista por ele como um direito. 

Antonio Cândido dizia que uma das coisas mais importantes da ficção literária é a possibilidade de 'dar voz', de mostrar em pé de igualdade os indivíduos de todas as classes e grupos. 

No campo da sociologia, dedicou-se à figura do homem interiorano. Falou da organização social, da presença de uma cultura que, por vezes, tentou-se esquecer ou camuflar com a ideia de progresso. 

Com um olhar sempre para os de baixo, para os que estão “ao rés do chão”, evocando o título de um dos seus ensaios literários, sempre sustentou de forma clara suas posições políticas.

Por toda a sua vida, mesmo nos momentos mais agudos, nunca foi capaz de perder a preocupação com os fatores sociais e políticos, num mundo com uma situação de extremo retrocesso e de valores e bens que são muito diferentes do humanismo.

Viveu praticamente todo o conturbado século XX, escrevendo, debatendo, ajudando a dar lucidez, clareza e humanidade a toda uma geração de escritores, Faleceu em 12 de maio de 2017, aos 98 anos, não antes de trazer a literatura para a seara de todos, não só para a dos intelectuais. 

São muitos os legados deixados pelo crítico literário Antonio Cândido, que produziu textos fundamentais, como o “De Cortiço a Cortiço” no qual ele faz uma leitura de uma das mais importantes obras do Naturalismo brasileiro – “O Cortiço”, do escritor maranhense, Aluísio Azevedo.

A obra retrata o modo de vida no que diz respeito à moradia e estilo de vida da população brasileira no final século XIX, trazendo como cenário a vida social da população do Rio de Janeiro. 

Antonio Cândido foi um intérprete, do país, um humanista, que tinha um projeto cidadão, de inserção na vida de maneira cidadã e democrática. Era uma figura singular porque tinha uma “dupla militância – literatura na imprensa e sociologia na universidade. Com o feeling e a abordagem do crítico ‘impressionista, escrevia muito bem, com profundidade.

Foi inteligente, cosmopolita, utilizando as melhores estradas sociais para se manifestar politicamente. A obra mais famosa de Antonio Cândido é “Formação da literatura brasileira”, que, em lugar de ser lido como um livro de história da literatura e das ideias críticas que trazia sobre autores, passou a figurar como uma ousadia conceitual impressionante. 

domingo, 14 de junho de 2020

O Brasil em desconstrução


Antonio Carlos Lua

No mundo real, percebemos que – para além da pandemia e dos conflitos sociais – temos um Brasil em desconstrução com os eventos traumáticos na política, num processo que cozinha em fogo baixo, diante de um Estado ineficiente e inoperante.

Essa desconstrução tem uma carga de morte. Algo morreu e está morrendo no país, com políticos fisiológicos, persistentes, inabaláveis, vorazes, sem futuro e viventes de um tempo que já passou. 

A violência que explode em linchamentos, chacinas e extermínios que se propagam no país é sintoma de uma chocante realidade que aparece para além do teatro do poder de Brasília, cujos atores esquecem que o poder deve ser exercido obedecendo ao povo e não mandando no povo.

O Brasil nunca viveu de modo republicano e democrático. É por isso que o primeiro historiador do país, Frei Vicente do Salvador, fez uma declaração que até hoje permanece intocável, ao afirmar que “nenhum homem dessa terra é repúblico, nem zela e trata do bem comum, se não cada um do bem particular”. 

Não existe a possibilidade de democracia real num país onde os interesses particulares e oligárquicos sempre estão acima do bem público com a secular submissão imposta às classes populares e humildes, forjada por uma instituição política colonial, imperial e falsamente republicana.

É este modelo de política que permite agora a arrogância de um presidente tirano que se enfurece contra a extinção de sua frágil luz governamental e tenta esconder as consequências desastrosas da sua gestão num momento em que uma pandemia letal destroça nossas ilusões de força que o país nutriu entre nós para encobrir suas misérias evidentes. 

Graças à imprensa e às redes sociais, a violência fascista está gravada e difundida amplamente. Desta vez, não houve o desaparecimento progressivo dos fatos no oceano de notícias banais.

Agora, as práticas fascistas estão registradas e filmadas,  indignando a todos, nos levando às ruas com punhos e vozes erguidas em protestos pacíficos em contraposição aos levantes selvagens dos inimigos da democracia que querem nos distrair das nossas razões políticas.

Não faltam evidências de que o governo bolsonarista de extrema-direita quer usar o caos da pandemia em favor de seus próprios fins políticos, ameaçando as instituições e praticando uma violência sem limites contra o povo que jurou proteger.

A força do ódio explodiu diante de nós, em meio a uma confluência letal de razões, com o comportamento condenável de um presidente da República que, com um arsenal de atrocidades, prega a morte de forma desmedida.

Diante disso, precisamos agir começando com a nossa própria ação, ainda que pequena. Se as ruas não são possíveis, vamos fazer o que for possível em apoio à luta contra o fascismo. Tudo vale. Há muitas maneiras de se colocar e lutar, em tempos de verdade.

Vivemos um momento político crucial que pode ter dois desfechos opostos. Ou garantimos um grau de justiça superior, por meio de um esforço popular persistente ou nos enfraquecemos diante da reação autoritária que quer nos afundar em uma escuridão desconhecida.

A hora é agora para escrevermos um futuro decente para o país, sendo fiéis a nós mesmos, uns aos outros, e à legião de vítimas que exigem justiça neste vale de tristeza insuportável no país.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

O pecado original do Brasil

Antonio Carlos Lua

As manifestações contra o racismo que se multiplicam no Brasil representam o ponto central para entendermos a desigualdade, a pobreza, a miséria e a violência no país. Elas sinalizam o início de uma possível virada histórica para encerrar o longo ciclo de segregação e opressão aos afrodescendentes.

O joelho sobre o pescoço de George Floyd, sufocando-o até a morte, causou indignação e lembrou os tempos da escravidão. Os negros brasileiros têm também um joelho sobre eles, que os oprime há séculos, cuja situação é ilustrada pela violência e carências inadmissíveis nas áreas de saúde, moradia, emprego e educação. 

Existe o estereótipo de que as pessoas negras são por natureza seres humanos inferiores. Esta ideia remonta ao período da escravidão e foi incorporada pela sociedade brasileira para justificar a violência racial. A ideia da supremacia branca é, portanto, um legado da escravidão, mas, acima de tudo, um dos fundamentos próprios da nossa sociedade. 

Como podemos superar esse pecado original do Brasil em relação à questão racial? 

A primeira coisa é reconhecer que o nosso país foi construído com um sistema desumano. A escravidão beneficiou economicamente a Nação e enriqueceu a cultura  brasileira, mas mesmo assim não se discute honestamente a questão das reparações aos descendentes dos escravos. 

Em nosso país, o racismo não só se manifesta em atos de discriminação ou injúria racial. O ato discriminatório que denota o racismo é o sentimento de superioridade, o desprezo  pelas vidas das pessoas negras, o desrespeito, a indiferença. 

No Brasil, o racismo é notório. Ele é institucional, estrutural e estruturante em nossa sociedade. Está na formação sociocultural, em todas as relações e em todos aqueles que gozam as vantagens que o racismo lhes proporciona.

Uma das características do racismo à brasileira é quando sociedade procura negar, esconder, ou minimizar o preconceito. Essa prática ocorre de forma pedagógica por instituições formativas como escolas, universidades, religiões, além da política e da publicidade, que, de forma persuasiva, fazem com que as pessoas endossem essa negação. 

Para os racistas, vidas negras só importam para serem usadas. Este é um dos pontos centrais para entendermos a desigualdade no Brasil. Não há nada de cordial em nossas relações raciais. Pessoas negras são maioria entre os pobres e miseráveis nas estatísticas de mortes violentas, principalmente aquelas praticadas pelo Estado. 

Não podemos continuar nos negando a enfrentar o passado e a reconhecer que o Brasil foi construído com as mãos e os cérebros de pessoas negras, desde aquelas trazidas do continente africano para o trabalho escravo. O Brasil foi erguido por saberes, habilidades e inteligências negras, e isso é insuportável para a nossa elite parasitária.

São pessoas negras o primeiro engenheiro do Brasil – o abolicionista André Rebouças, que trabalhou pelo desenvolvimento de vários países africanos –, o maior escritor brasileiro – Machado de Assis, que é também o fundador da Academia Brasileira de Letras. Eles foram injustiçados e tiveram até suas estátuas trocadas e, em muitos casos, a cor da pele embranquecida em fotografias. 

São mulheres como Chiquinha Gonzaga, Antonieta de Barros, Enedina Alves, Carolina de Jesus, Ruth de Souza, Lélia Gonzalez, Beatriz do Nascimento, Lia Vieira, Geni Guimarães, Conceição Evaristo, Petronilha Gonçalves, Matilde Ribeiro, Luiza Bairros, Nilma Lino Gomes, Mãe Beata, que, entre muitas outras, enaltecem culturalmente nossa Nação. 

Esse é um registro escondido da nossa história que interfere diretamente no protagonismo negro até os dias atuais em todas áreas de conhecimento, nas artes, na música,  na cultura, na literatura, na política, na ciência, na educação, na mídia. 

Infelizmente, as barreiras impostas à população negra pelo racismo distancia dos afrodescendentess a governança do poder político e da produção cultural. É necessário reforçar na sociedade aquilo que Steve Biko chamou de Consciência Negra, ou seja, orgulho grupal e a determinação dos Negros de se levantarem e conseguirem a autorrealização desejada. 

Precisamos recorrer a Paulo Freire para entendermos que ninguém educa ou conscientiza ninguém e que as pessoas se educam e se conscientizam em diálogos, na relação, na dor e na luta.

O Brasil somente passará a ser digno da alcunha de democracia após a superação do racismo no país. Para isso, porém, é necessário uma mobilização social antirracista para se construir uma democracia real. 

Nesse sentido, as manifestações contra o racismo, com símbolos de resistência e a palavra de ordem #VidasNegrasImportam representam o início de uma nova fase na luta política, mostrando que democracia e racismo são coisas inconciliáveis.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Um dilema sem precedentes

Antonio Carlos Lua

A pandemia põe à prova nossos recursos emocionais, impondo uma desintoxicação profunda que, em certo aspecto, é benéfica por aliviar a carga da nossa hiperatividade cotidiana, nos levando a uma espécie de introversão obrigatória.

Perdemos os nossos hábitos e, talvez, a possibilidade de vivermos juntos como antes, ao ver, agora, a atmosfera depressiva e o retrato sem cor das cidades. 

Após nos fazerem acreditar que a ciência detinha o controle de todas as esferas da vida, constatamos que, apesar dos avanços científicos, um microscópico vírus nos faz cair de bruços em nossa impotência frente a ele.

A configuração sociológica nos remete à experiência apocalíptica, não de que o mundo acabou, mas de  que nada será mais como antes, não por razões ideológicas, mas sim por motivos científicos.

Apesar de tudo, o trauma coletivo da quarentena traz um aspecto positivo ao nosso alcance. Em vez de nos separar na dor, ele tornou nossas existências mais coesas, com algumas características em comum com a vida dos monges.

Agora, temos a convicção de que todos somos igualmente humanos e de que não há humanos que sejam mais humanos do que outros. Ou seja, após a pandemia não haverá nova humanidade. Haverá humanos que, com a mesma condição, não serão melhores nem piores.  

Nos sentimos mais unidos em uma comunidade feita de solidões, combatendo o desespero de uma doença perigosamente mortal, que irrompeu ferozmente em nosso cotidiano, alterando nossas vidas substancialmente.

Agora, o ‘nós’ deve prevalecer sobre o ‘eu’ com o caráter individualista dando lugar à ideia coletiva não só de liberdade, como também de solidariedade. Não poderá mais haver máscaras e ilusões. 

O recado que o vírus nos traz aponta para a necessidade de cuidarmos da Casa Comum e não esquecermos que muitos não têm casa e nem comida numa sociedade individualista, insensível, odiosa, intolerante e insustentável.

Três bilhões de pessoas no mundo – entre elas 900 milhões de crianças – não têm sequer água e sabão para lavar as mãos e se prevenir do novo coronavírus.

Na África, ao sul do Saara, 63% da população, ou seja, 258 milhões de pessoas, não têm como lavar as mãos. Cerca de 47% dos sul-africanos – o equivalente a 18 milhões de pessoas – não possuem instalações básicas para lavar as mãos. 

Na Ásia Central e Meridional, 22% das populações – o equivalente a 153 milhões de pessoas – também não possuem instalações para lavar as mãos. Mais de 50% de bengaleses urbanos (29 milhões de pessoas) e 20% dos indianos urbanos (91 milhões de pessoas) também não têm como lavar as mãos.

No Leste da Ásia, não têm como higienizar as mãos 28% dos indonésios urbanos (41 milhões de pessoas) e 15% dos filipinos urbanos (7 milhões de pessoas).

domingo, 17 de maio de 2020

O jogo mortífero e a lógica da cova rasa

Antonio Carlos Lua

A curva ascendente de infectados e mortos com a Covid-19 mostra o jogo mortífero da política macabra contra os vulneráveis jogados hoje à própria sorte com a estúpida incompetência dolorosamente revelada na ingovernabilidade destrutiva de Bolsonaro, que equaciona os vivos e os mortos utilizando a sinistra lógica da cova rasa.

O país vive hoje um dos piores momentos da sua história, ao tornar-se evidente o sacrifício de vidas em prol do funcionamento de uma máquina fundada na desigualdade e na injustiça, quando um fascista aproveita-se de uma pandemia para minar as instituições e alimentar sua ânsia de poder.

Com um discurso em favor da morte e mil tensões em sequência, Bolsonaro vem adotando a política de avestruz num clima de apocalipse e de guerra santa fanatizada, com seus fantasmas espectrais provocando ruídos no próprio governo cuja queda está na ordem do dia.

O primeiro consenso que podemos extrair da pandemia é o fracasso e a negligência do Governo Federal, que ao incorporar a inércia e a indiferença norte-americana em relação à letalidade do novo coronavírus perdeu um tempo precioso que custou e custará dezenas de milhares de vidas.

Agora, a situação piorou. A descrença se transformou em ação política, convertendo a arrogante postura governista em verdadeiro desdém organizado contra a sociedade brasileira. 

A realidade se impõe e o caos se agrava no Brasil, que é a única Nação – com exceção da Bielorrússia – cuja autoridade máxima não só minimiza a força avassaladora do novo coronavírus, como também  defende que as mortes devem fazer parte da rotina do país, custe o que custar. 

Na verdade, Bolsonaro quer escolher quem vai sobreviver e quem vai morrer, com suas políticas de controle através da morte – a chamada necropolítica – com milhares de cidadãos submetidos a condições de vida que lhes conferem o estatuto de “mortos-vivos”. 

Com uma manifestação abertamente mortífera, Bolsonaro ensaia um salto para o abismo multiplicando polêmicas e disputas políticas vazias com a produção contínua de bodes expiatórios, valorizando rixas improdutivas em seus círculos de fanatismo e canalizando energia antissistêmica para a exposição da população à morte. 

domingo, 3 de maio de 2020

As câmaras de eco dos fascistas online

Antonio Carlos Lua

Estamos cruzando as portas de um novo tipo de civilização – a digital – com as modernas tecnologias levando à conectividade de tudo, em registros digitais cuja integridade é garantida pelo uso de complexas criptografias. 

Não é preciso ser marxista para entender que os novos modos de produção estão tendo repercussões em cascata nas esferas da sociedade, na política e na cultura. 

Diante das mudanças, confrontam-se duas narrativas. Uma é catastrófica com o fim do trabalho humano. A outra – triunfalista – com as máquinas fazendo o esforço no nosso lugar. 

Não há dúvidas de que a civilização digital tem efeitos positivos em termos de prosperidade material, de oportunidades de escolha, de acesso ao conhecimento, interação e trocas em escala global. Hoje, basta um clique para ter acesso a todos os tipos de informação, inclusive aquelas sobre o que os políticos estão fazendo, em todos os níveis de governos.

Mas é preciso separar o joio do trigo. Existe o outro lado da moeda, que é a inundação das notícias falsas – as chamadas fake news – que funcionam como câmaras de eco dos fascistas online, com os discursos de ódio racial, étnico, religioso e de práticas manipuladoras da pós-verdade.

Existem três tipos de fake news. O primeiro é o boato espontâneo, que nasce do nada e se alastra como fogo. O segundo tem a intenção de fazer dinheiro. É quando a manchete chama atenção e a pessoa desatenta clica e chega a um site cheio de publicidade. O terceiro tem objetivo político e ocorre quando várias notícias falsas surgem ao mesmo tempo colocando histórias no ar, sem que se consiga descobrir e mapear o seu percurso.

O mundo está, convenhamos, perdido no que se refere a relação entre tecnologia e política. Em cada manifestação de políticos nas redes sociais surgem mais dúvidas do que certezas. Há uma verdadeira desinformação, através de uma miríade de posts ad hoc (com um fim específico) para influenciar a orientação política de milhões e milhões de usuários das redes sociais. 

Hoje, os humanos – e não os robôs – são os principais responsáveis pela disseminação de informações enganosas, que se espalham mais rapidamente do que as notícias reais por uma margem substancial, embora se destruam também mais amplamente do que a verdade em todas as categorias de informação. As informações falsas, com histórias inexatas e notícias imprecisas, são mais replicadas do que as histórias reais, verdadeiras.

Na discussão sobre as notícias falsas é pertinente saber se é possível eliminar a mentira da política. A informação duvidosa, distorcida e quase inverossímil deve ser criminalizada no debate político? Se a resposta for sim, então uma das primeiras providências a adotar é proibir o marketing e as técnicas de publicidade nas eleições. 

A propaganda – seja comercial ou política – seleciona elementos positivos de um candidato e os superdimensiona ou os contextualiza de modo a atrair as atenções para algo que não é efetivamente encontrado na realidade. Dito de outro modo, ela exagera, distorce.

Os governos e governantes só falam a verdade? Não! Os países convivem até mesmo com legislações que protegem ações obscuras alegando defender a sociedade. São as razões de Estado. 

Para citar um único exemplo, devemos relembrar as denúncias de Edward Snowden, ex-administrador de sistemas da CIA e ex-contratado da NSA, que trouxe a público documentos ultrassecretos que deixavam clara a vigilância norte-americana a cidadãos comuns, num escândalo que fez alterar legislações mundo afora. 

Seguindo a espetacularização que se tornou norma em nossa sociedade, algumas autoridades deveriam declarar guerra às chamadas fake news, eliminando as inverdades, os exageros e as distorções do Congresso Nacional.

Dizem que os chineses possuem exércitos prontos a teclar e a postar inúmeras mentiras e notícias falsas para alterar o resultado de eleições. Qualquer um pode contratar os chineses, a máfia russa, as empresas de negócios escusos que atuam criminosamente na rede mundial de computadores. 

A propaganda paga impulsionada nunca será transparente diante das mediações políticas e faz prevalecer as inverdades, as adulterações e deformações dos fatos, suas causas e consequências. São as notícias falsas que sustentam as escolhas políticas, sendo as mesmas um dos instrumentos de manipulação e luta pelo poder político. 

Empiricamente, é muito fácil constatar que a democracia brasileira convive hoje com grandes mentiras, que destilam o ódio, o racismo, a homofobia, a misoginia e o fundamentalismo religioso, sem os elementos constitutivos daquilo que é verdadeiro.

Quase todas as guerras modernas começaram a partir de mentiras, de notícias falsas. No caso dos Estados Unidos, praticamente nenhuma guerra que o país realizou deixou de se valer de uma notícia falsa como ponto de partida. 

Basta lembramos as supostas armas de destruição em massa do Iraque, nunca encontradas. A essa notícia falsa devemos a morte de 400 mil crianças e um embargo que impediu a chegada de remédios no Iraque 

Muitas vezes, quando os políticos citam números em seus discursos, eles fingem ser objetivos, quando na verdade escondem debaixo do tapete suas escolhas subjetivas. 

O problema em torno da informação na contemporaneidade se torna mais grave porque as discussões ocorrem em ambientes de midiatização extremamente forte e precisam obedecer e se submeter, antes de tudo, às regras de certas mídias.

A maioria das controvérsias políticas contemporâneas são falsas, graças ao trabalho de desinformação que cria múltiplas e contraditórias hipóteses poluindo a esfera do debate, neutralizando a capacidade dos fatos verdadeiros alcançarem as pessoas.

Vários fatores colaboram para que as pessoas sigam consumindo e reproduzindo notícias falsas, entre elas aquela relacionada à ideia de dissonância cognitiva, segundo a qual somos propensos a acreditar no que agrada às nossas ideias preestabelecidas e a não acreditar naquilo que as confronta, independentemente do que os fatos digam a respeito.

Em razão disso, o trabalho das agências de checagem de informação, que têm se multiplicado mundo afora, é insuficiente para impedir o agravamento do fenômeno das ‘fake news’ e da manipulação da informação. 

O que está na base desse processo de crença nas mentiras não é apenas a ignorância. Quando se constrói mentiras que agradam a um grupo, mesmo que sejam desmascaradas, elas seguem funcionando naquele grupo e usadas e reproduzidas por ele. Aquele que as desmascara recebe de volta simplesmente o ódio. Exemplos recentes comprovam isso.