Translate

domingo, 28 de abril de 2019

Narrativa da escravidão


Antonio Carlos Lua

Os negros brasileiros formam o único grupo populacional do mundo que não sabe a origem dos seus ancestrais, apesar do país ter recebido mais de 4,8 milhões de africanos escravizados, entre os Séculos XVI e XIX. 

Isso ocorre porque a história verdadeira sobre a escravidão não é contada com sinceridade no Brasil, onde mais de 52% da população tem descendência africana, mas, mesmo assim, se usa muito a palavra “diversidade” para se referir aos negros, como se estes fossem minoria no país.

O Brasil foi o último país a abolir a escravidão e o que mais “importou” escravos africanos – o equivalente a 46% de todos os negros que foram trazidos coercitivamente para as Américas. 

A abolição da escravatura só foi pensada no Brasil a partir do momento em que a Inglaterra – maior potência mundial da época – deixou claro que só reconheceria a independência do país se os escravos fossem libertados. 

Na época, o governo inglês, agia como se fosse a ONU e tinha o poder de garantir o reconhecimento diplomático internacional. Era também uma espécie de FMI e emprestava dinheiro aos países das Américas. Contava com uma força naval que mandava em todos os mares, desde a batalha de Trafalgar (1805). 

Para que a abolição ocorresse no Brasil pesou também o fato de a Região Norte não escravista dos Estados Unidos ter garantido a eleição de Abraham Lincoln, 16° presidente americano. Ele ocupou o cargo de 4 de março de 1861 até seu assassinato, em 15 de abril de 1865. 

Membro do Partido Republicano, Abraham Lincoln era radicalmente contrário à expansão da escravidão e pregava a sua extinção. Durante o seu mandato ocorreu uma guerra civil sangrenta para acabar com a escravidão nos Estados Unidos, cujos traumas perseguem os norte-americanos até hoje. 

Foi nesse contexto que José Bonifácio de Andrada – que era na época uma espécie de primeiro-ministro do Brasil – mandou um projeto para a Assembleia Constituinte, estabelecendo a abolição progressiva do tráfico e da escravidão no país. 

Naquele momento, a classe dirigente e o corpo da administração imperial já tinham perfeita noção de que a manutenção do tráfico de escravos criaria um impasse no país e desagradaria o poderoso governo inglês, com o qual tinha uma  relação de dependência.

Em 1831 foi votado o fim do tráfico de escravos africanos. Porém, sobretudo no Rio de Janeiro, e em menor medida na Bahia e na cidade de Recife, em Pernambuco, foram organizadas redes de comércio clandestinos de escravos africanos. 

Somente a partir de 1850, foi reduzido o comércio de escravos, caindo de 60 mil africanos desembarcados, em 1849, para seis mil, em 1851.

O governo propôs, então, uma lei de imigração para trazer trabalhadores rurais, a redução das tarifas de exportação de café e a construção de uma estrada de ferro na região cafeeira, uma vez que transporte era feito, na época, em lombo de mula. 

Quando o tráfico de escravos cessou de vez no Brasil, acabou também a fonte de reprodução externo do sistema escravista, vindo depois a Lei do Ventre Livre, em 1871, que declarou livres os filhos de mães escravas que nascessem a partir daquela data. Assim, foi estancada outra fonte de reprodução da escravidão. 

Surge então, por parte do Império, uma estratégia gradualista em relação ao fim da escravidão. Era uma artimanha, uma manobra para que os donos de escravos não perdessem dinheiro. 

Foi quando entrou em cena o movimento abolicionistas, que se acentuou na década de 1880, com heroicas lideranças, como Luís Gama, André Rebouças e José do Patrocínio, que defendiam suas ideias fervorosamente nos tribunais e nos jornais. 

Na época, houve movimentos organizados para dar fuga a escravos. Grupos abolicionistas de São Paulo e da cidade de  Recife, em Pernambuco, ajudaram os escravos a fugirem para o Ceará. Lá, a maioria dos municípios já não tinha mais escravos, desde 1884. Os escravocratas eram minoritários no Estado. 

No regime de escravidão, a inquisição portuguesa institucionalizou a tortura como prova, até a pessoa confessar. O Código Criminal da época especificava que se o condenado fosse escravo ele não iria para a cadeia, pois a pena seria transformada em açoite. 

Essa regra existia porque caso o escravo fosse para cadeia, causaria uma perda de mão de obra e dinheiro para o seu senhor. Assim, o escravo era açoitado publicamente, humilhado, torturado. Quando ficava reestabelecido do açoitamento voltava trabalhar normalmente. 

Até 1888, a tortura era permitida no Brasil, mas somente para os escravos. Os mecanismos da repressão escravista contaminaram a sociedade inteira e tem reflexos até hoje no Brasil.

Logo depois da abolição, a escravidão saiu de pauta e passou a ser abordada apenas para convencer os negros que ela foi uma generosidade, uma benevolência da Coroa, do Governo e da redentora Princesa Isabel, embora todos saibam que, na época, a Monarquia já havia fracassado. 

Com o passar dos anos, criou-se no Brasil uma narrativa da escravidão e abolição forjada na mentira, não deixando espaço para a verdadeira História dos afro-brasileiros. 

Esse foi motivo do movimento negro ter proposto a troca do 13 de maio pelo 20 de novembro (Dia da Consciência Negra), da Princesa Isabel por Zumbi – numa luta política significativa. 

domingo, 21 de abril de 2019

Cheiro de pólvora

Antonio Carlos Lua

A face cruel da violência no campo resgata uma memória que a história oficial não conta. Em 13 de maio de 1888 – há 131 anos – o Senado do Império do Brasil aprovava a Lei Áurea, abolindo a escravidão. Naquele momento, não era apenas a liberdade dos escravos que estava em jogo. Havia outro tema pertinente no centro do debate: a reforma agrária. 

Na época, a discussão sobre a distribuição de terras nacionais havia sido proposto pelo abolicionista André Rebouças, engenheiro negro de grande prestígio. A intenção dele era criar um imposto sobre fazendas improdutivas e distribuir as terras para ex-escravos. 

O político Joaquim Nabuco – também abolicionista – apoiou a ideia. Já os fazendeiros, republicanos – e até mesmo os abolicionistas mais moderados – ficaram em polvorosa.

Como o movimento republicano fez um acordo com os latifundiários para que não houvesse mudança na propriedade rural, a aprovação da Lei Áurea acabou não trazendo, concretamente, nenhuma alternativa para os escravos libertados se inserirem no novo Brasil livre. 

Com isso, a ideia de reforma agrária não prosperou, uma vez que o movimento republicano e os latifundiários resolveram trazer imigrantes para trabalharem em fazendas, dispensando a mão de obra dos negros. Assim, os abolicionistas Joaquim Nabuco e André Rebouças acabaram apoiando a monarquia até o fim. 

Foi então que no livro "Minha Formação" (1900) Joaquim Nabuco passa a renegar totalmente sua juventude abolicionista e faz uma declaração monarquista que constitui uma das frases mais infames da história da política brasileira.

Ele disse que tinha convicção de que “a raça negra por um plebiscito sincero e verdadeiro teria desistido de sua liberdade para poupar o menor desgosto aos que se interessavam por ela, e que no fundo, quando ela (a raça negra) pensa na madrugada de 15 de novembro (data da proclamação da República), lamenta ainda um pouco o seu 13 de maio”.

Com a declaração, Joaquim Nabuco mostrou claramente que a Reforma agrária nunca esteve na pauta da maioria dos abolicionistas. Até hoje ela continua fora da agenda política brasileira. 

O Brasil é um dos únicos grandes países agroexportadores que nunca fez reforma agrária, cujo ciclo de vida no país é um fracasso assombroso, tratando-se de dura vilania política, pois, enquanto a miséria no campo se esconde atrás das muletas das políticas sociais, os governos coletam números destinados meramente ao autoelogio.

Mesmo com um gigantesco orçamento destinado à reforma agrária, verifica-se uma irresponsabilidade espantosa com a problemática. Os governantes mantêm-se impassíveis diante do clamoroso desperdício de vultosos recursos públicos para realizar o que eles próprios consideram irrealizável

Resta saber se algum governante nesse país terá a coragem de finalizar este capítulo da nossa História. Para que isso aconteça, será necessário primeiramente abrir as mentes, pois a ortodoxia e a ideologização dominantes só tem contribuído para a violência no campo. 

O cenário na seara agrária é tenso. Com o corte de 70% previsto na Lei Orçamentária Anual, tudo indica que o cheiro de pólvora permanecerá sendo o incenso de uma violência extrema em mais de 37 milhões de hectares de terras –área equivalente ao tamanho do Japão e maior que todo o território da Alemanha. 

O campo é extenso e pode ser cenário de vida com qualidade e fartura para todas e todos, desde que as terras e as águas sejam utilizadas com justiça agrária e hídrica, além de responsabilidade socioambiental, sem o uso abusivo da mãe terra e da irmã água 

No entanto, os agronegociantes seguem adotando uma prática agrícola voraz, com extensas plantações de soja contaminando as nascentes dos rios e córregos com agrotóxicos, deixando os lavradores “encurralados” pela monocultura, com a iníqua estrutura fundiária reinante no Brasil.

Os agronegociantes são os pivôs da discórdia no campo e seguem secando rios, lagos e lagoas pelo uso intensivo e pelo enorme desperdício por evaporação da água que é captada para plantar grandes monoculturas de soja e eucalipto. 

No Brasil, por agronegócio, entende-se a produção em larga escala, feita em grandes extensões de terra – latifúndio – com sofisticada tecnologia em quase monopólio de empresas transnacionais, uso indiscriminado de agrotóxico e, muitas vezes, com mão de obra em condições análogas à escravidão. 

O desmatamento seca as nascentes de rios, escorraça os pássaros e expulsa os trabalhadores rurais para as periferias das cidades. 

Com a pulverização de herbicidas, inseticidas e praguicidas, feita por aviões em voos rasantes em campos de soja, balaios e mais balaios de pássaros mortos podem ser recolhidos, vítimas dos venenos altamente tóxicos. 

domingo, 7 de abril de 2019

Brasil: uma moderna colônia norte-americana

Antonio Carlos Lua

O Brasil abre suas portas para a reinserção pragmática dos Estados Unidos na América Latina com o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas que concede o uso comercial da Base de Alcântara, no Maranhão, para fazer do nosso país uma moderna colônia norte-americana. 

Caso o acordo seja aprovado no Congresso Nacional, os norte-americanos voltarão a se sentir interventores e donos do Brasil, trazendo para si a missão de salvaguardar a nossa soberania, esmagando um país subserviente, com reduzida capacidade estratégica e graves debilidades democráticas.

O famigerado acordo vem demarcar a base da política externa estadunidense na América Latina, fazendo valer a doutrina “América para os americanos”, apresentada, em 1823, ao Congresso dos Estados Unidos, pelo então presidente James Monroe. 

Embora o Governo negue sistematicamente, as premissas do acordo incluem a criação de uma área de domínio dos Estados Unidos, proibindo a utilização da base pelo Brasil, devido à confidencialidade tecnológica, aumentando a ingerência dos norte-americanos no país.

Certamente, ao assumir o comando da Base de Alcântara, os norte-americanos não dirão explicitamente que brasileiro não pode ter acesso às instâncias do complexo tecnológico, mas poderão condicionar a presença de cientistas a uma credencial de segurança. 

Como os norte-americanos terão poder de veto, hipoteticamente, um engenheiro do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais pode ser vetado se for considerado capaz de assimilar a tecnologia deles. 

Por razões técnicas e estratégicas, os EUA sempre desejaram ocupar a Base de Alcântara, tendo em vista a notável vantagem em termos de economia energética e viabilidade operacional.

A latitude privilegiada (2ºS), praticamente sobre a linha do Equador, com a força de rotação da Terra gera melhor aproveitamento para impulsionar satélites. A redução dos custos com combustível, comparado com o Cabo Canaveral (EUA) e Baikonur (Russia) varia de 13 a 31%.

Com o controle da base os EUA pretendem também continuar com o paradigma de ser a influência na América Latina, uma vez que ficou claro que a China pode se tornar esse paradigma com o desenvolvimento tecnológico do país asiático nos últimos tempos no continente.

Como hoje é real uma ameaça chinesa para as premissas de quase dois séculos da política externa dos Estados Unidos para a América Latina, os norte-americanos querem conter a emergência de novas potências com a Base de Alcântara sob seu comando, para  impor sua hegemonia geopolítica na região.

Assim, a primeira medida dos EUA quando for aprovado o acordo pelo Congresso Nacional será frear o avanço da China que – além de controlar hoje uma Base Espacial na Argentina, na província de Neuquén – registra uma ascensão com o aumento dos preços das commodities que redirecionam a política comercial cada vez mais intensamente para a Ásia. 

Para os Estados Unidos, o controle da Base de Alcântara é condição sine qua non para qualquer que seja seu interesse político na América Latina, onde, com exceção da Venezuela, Cuba e Bolívia, nenhum país se contrapõem a política externa agressiva norte-americana. 

Aliás, convém frisar que a própria Venezuela, mesmo com sua oposição retórica aos EUA, destina 40% da produção de petróleo aos norte-americanos. 

Já o Brasil, a Argentina e o Chile sempre se ajoelharam para os Estados Unidos, mostrando-nos que discursos político-ideológicos não se constituem aferidor confiável de convicção política.

Houve um momento em que a Agência Espacial Brasileira cogitou sair de Alcântara, mas mudou de ideia quando viu a possibilidade de implantar no município o mesmo projeto desenvolvido na Guiana Francesa que, à época, tinha Kourou como a maior base equatorial de foguetes do mundo. 

Em 2003, o VLS-1 V03 explodiu na Base de Alcântara, matando 21 cientistas. Na época, foi levantada a hipótese de sabotagem dos franceses, quando foram encontradas boias de comunicações em praias próximas de Alcântara, com capacidade de enviar, transmitir e medir frequência. 

A Agência Brasileira de Inteligência fez pelo menos três operações de contraespionagem cujos alvos eram espiões franceses.

A Base de Alcântara foi a segunda implantada no Brasil. Foi instalada numa área de muitos quilombos, violando direitos humanos nas comunidades de Espera, Cajueiro, Ponta Seca, Suassim, Petital, Marudá e Perú.

Na época, existiam 208 comunidades em Alcântara, com 90% delas remanescentes de quilombos. O município foi um dos grandes celeiros de fazendas e engenhos de cana-de-açúcar e algodão há 400 anos, com o trabalho mantido por mãos escravas. 

Atualmente, mais de 60% da área geográfica do município de Alcântara está sob o controle do Ministério da Aeronáutica.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Sinais dos tempos

Antonio Carlos Lua

A cena em que o Papa Francisco retira continuadamente a mão direita todas as vezes em que fiéis tentam se ajoelhar para beijar o Anel do Pescador repercute até hoje e o imortalizou pela estranheza que causou diante de uma tradição institucional no Vaticano. 

O Anel do Pescador é o símbolo que todo sucessor de Pedro – o primeiro Papa da Igreja – usa durante o seu pontificado. 

Por tradição, o anel é de ouro maciço e quando um Papa morre o camerlengo declara ‘Vere Papa mortuus est’ (O Papa está realmente morto), removendo, em seguida, o anel do cadáver para derretê-lo e com ele remodelar o anel para o novo Pontífice.

O Papa Francisco, no entanto, optou por usar o mesmo anel dos tempos de arcebispo, em Buenos Aires (Argentina), em prata dourada, tornando-se, assim, o primeiro Santo Padre a não ostentar uma joia pertencida a outro Pontífice. 

Convencido de que a Igreja deve ser simples e imersa nas raízes do povo, Francisco – desde o início do seu pontificado – sempre demonstrou grande desconforto em usar símbolos sagrados demasiadamente opulentos.

Os católicos conservadores que costumam acusar o atual Papa de se desviar da doutrina e da tradição da Igreja Católica, agora suspeitam que ele pretende acabar com os ritos tradicionais e milenares da Igreja. 

Na verdade, o Papa Francisco quer erradicar gestos de submissão, próprios de um clericalismo que representa um dos cavalos de batalha do seu pontificado. 

Ele tenta mostrar que a ‘adoratio’ (adoração) com sua pessoa não é necessária, uma vez que a Igreja deve ser serviço, nada mais, nada menos.

Francisco não gosta de falsos louvores e é um exemplo clássico da necessidade de mudanças radicais e profundas na Igreja Católica. Passou o tempo de riquezas e "ouropéis", e dos Papas infalíveis. 

domingo, 31 de março de 2019

Marcas da Ditadura


Antonio Carlos Lua

Transita no Planalto Central a sombra de um comando que evoca uma narrativa heroica sobre os crimes cometidos na ditadura militar, escondendo a verdade na tentativa de enterrar um passado não resolvido.

Há exatos 55 anos do Golpe Militar, o Brasil continua negando-se a prestar contas de um triste passado e desatar o nó que vem alentando o retorno da barbárie, o abuso de poder e outros instrumento intimidatórios.

O primeiro passo para efetivar a justiça exige fazer memória do acontecido. Sabe-se, por triste experiência, que a impunidade caminha na mão do esquecimento. 

Os torturadores não querem acertar as contas com o passado e até hoje não assumiram os crimes de lesa-humanidade. Sabem eles que a melhor estratégia para ocultar a injustiça é seu esquecimento.

Para tanto, dissimulam a injustiça conexa perpetrada nos anos de chumbo. Ao atingir esse objetivo, cometem uma dupla injustiça contra as vítimas. A primeira no ato da violação e assassinato e a segunda no seu esquecimento. 

De modo inverso ao esquecimento, a memória apresenta-se como práxis da justiça. Ela atualiza um passado de injustiça que nos interpela. O passado que os militares tentam negar pelo esquecimento, sobrevive como demanda de justiça para o presente. 

A memória é uma forma de trazer uma justiça possível às vítimas da ditadura, com o reconhecimento de suas lutas. Trazê-las até nós como parte de nossa contemporaneidade é um ato de justiça e reconhecimento. Sabemos que isso é insuficiente, sem dúvida, porém necessário para os passos subsequentes.

Somente com a memória das vítimas da ditadura militar poderemos garantir justiça a todos aqueles que sofreram com a repressão, com a tortura. A verdade sobre o terrorismo de regime militar precisa vir à tona. 

Não é plausível promover o esquecimento da barbárie praticada durante os largos anos de ditadura que, no engodo de proteger o Brasil da ameaça comunista, torturou e matou sem o menor constrangimento centenas de brasileiros.

Fala-se muito hoje em reconciliação da sociedade brasileira. Ocorre que para haver uma verdadeira reconciliação, faz-se necessário os autores dos crimes reconhecê-los como de sua autoria.

Não se deve confundir o perdão com o esquecimento. Assim seria uma nova forma de violência à memória e à história das vítimas torturadas pelo regime militar.

O fato de as vítimas do regime militar estarem mortas não muda a dignidade delas. Suas histórias de luta não se extinguiram com a morte. Como vítimas, elas continuam sendo credoras de uma justiça que o conjunto social ficou lhes devendo. 

No momento, não há tema mais atual do que resgatar a memória, pois entender o passado como morto é o caminho mais rápido para eliminarmos nosso futuro. Trata-se de um momento importante para passar o Brasil a limpo.

O silêncio que segue impedindo acesso aos principais arquivos da ditadura alimenta uma das maiores dívidas com a sociedade. Os poucos arquivos abertos pela Comissão da Verdade foram todos remexidos, invadidos e desmanchados antes de se tornarem públicos. 

Enquanto é negado à sociedade o acesso aos documentos, os militares abrem seus arquivos à pessoas escolhidas, para que a história seja contada da maneira deles. 

Os militares costumam dizer que muitos documentos foram incinerados. Não é verdade. O que pode ter sido incinerado é o papel, mas os arquivos já foram microfilmados e hoje, provavelmente, estão digitalizados. 

Nas mãos do Exército, Marinha e Aeronáutica, os arquivos seguem inacessíveis até hoje. Por que esse pacto de silêncio? Medo! Covardia! 

O general chileno Augusto Pinochet – ditador chileno de 1973 a 1990 – ainda estava vivo quando a história de tortura no seu governo começou a ser contada no Chile. 

No Brasil, ninguém teve coragem de fazer isso. Nada aconteceu. Não tiraram o ônus da prova. Não bancaram a busca de corpos. Ao contrário, houve tentativas de impedimento, levando a sociedade brasileira a ter pouco interesse pelo passado triste e vergonhoso da nossa história. 

A Lei 9.140 (Lei dos Desaparecidos Políticos) concedeu uma indenização às vítimas do regime militar, mas não disse onde estão os corpos das vítimas, como morreram, quem matou e qual a punição aos responsáveis. 

A história precisa ser contada honestamente, para que os torturadores não continuem a outorgar o perdão a si mesmos, mesmo com a memória dos mortos os interrogando com toda a veemência. . 

Punir quem cometeu crimes contra a humanidade não se trata de vingança, mas de justiça. Punir torturadores significa fazer justiça tão somente. 

Na Europa há toda uma conscientização sobre o que significou o Holocausto. Já no Brasil, os anos de chumbo da ditadura são maquiados, para dizer o mínimo. 

A ausência do passado na consciência coletiva é o que vem alimentando discurso para a perpetuação da violência nos dias atuais.

domingo, 17 de março de 2019

Planeta de plástico


Antonio Carlos Lua

Desde o pós-guerra, quando a natureza passou a sofrer com os impactos do derrame de petróleo no mar, os problemas com os oceanos não pararam, com a enorme quantidade de peixes contaminados por poluentes. 

Com o tempo, novos poluentes se agregaram aos já existentes, a exemplo dos plásticos que hoje ameaçam a sociedade humana. Seus efeitos podem afetar os ecossistemas durante centenas ou até milhares de anos.

São 13 milhões de toneladas de plástico jogadas a cada ano em nossos oceanos, ameaçando a vida marinha, os ecossistemas e a nossa saúde, já que o produto contamina nossa água.

Os microplásticos – fragmentos de polímeros inferiores a 5 mm – já não são mais um problema apenas para as criaturas que vivem nos oceanos atulhados. 

Os mosquitos ou as libélulas ingerem os microplásticos, que entram na cadeia alimentar de outras espécies quando estes insetos são comidos por animais, disseminando o consumo de resíduos plásticos entre os seres vivos da Terra.

Cerca de  83% da água da torneira contém partículas de plástico e seus químicos tóxicos podem ser encontrados em nossa corrente sanguínea. A quantidade desse tipo de resíduo aumentou em 100 vezes no Oceano Pacífico.

Pesquisa da Universidade de Reading, no Reino Unido aponta que, em 2050, a quantidade de lixo plástico nos oceanos deverá superar a de peixes. Partículas de microplástico hoje presentes no oceanos superam as estrelas de nossa galáxia.

Assim, o domínio do egoísmo humano sobre o novo período geológico – no limiar de uma nova era (Antropoceno) – está provocando a sexta extinção em massa das espécies, acelerando a degradação dos ecossistemas. 

O consumismo compulsivo está destruindo o processo civilizatório iniciado deste o surgimento do homo sapiens até a sua transformação em homo economicus

É um problema global e onipresente. Assim como uma baleia morta não tem nacionalidade, o lixo que a mata também não tem passaporte, vem de qualquer lugar do mundo, levado pelos ventos e pelas correntes marítimas. 

O Brasil é quatro país que mais produz plástico no mundo, gerando 11,3 milhões de toneladas desse resíduo – número três vezes maior que sua produção anual de café. 

Fica atrás apenas dos Estados Unidos (70,8 milhões de toneladas), China (54,7 milhões) e Índia (19,3 milhões). Na Europa Ocidental, a liderança é da Alemanha (8,2 milhões).

O superpetroleiro de nome ‘Knock Nevis’ foi o maior navio já construído pelo homem na história mundial da navegação. Desmontado em 2010, ele tinha um comprimento equivalente a quatro campos de futebol e a largura de um prédio de 23 andares. 

Era capaz de transportar, de uma só vez, uma carga com peso máximo de 564 mil toneladas. Mesmo um colosso dessa magnitude se apequenaria se tivesse que desempenhar a inglória tarefa de transportar o lixo domiciliar gerado anualmente no mundo. 

Uma montanha de lixo de 730 milhões de toneladas necessitariam de 1,3 mil viagens do ‘Knock Nevis’. Isso tratando-se só do rejeito gerado nos domicílios. 

Se o ‘Knock Nevis’ tivesse que transportar a somatória do lixo que é gerado anualmente por todas as atividades humanas levadas a cabo no mundo – estimadas em 30 bilhões de toneladas – ele precisaria fazer mais de 53 mil viagens. 

Nossa insana e insone máquina de acumulação de riqueza e capital funciona na base do modelo “Extrai-Produz-Descarta”, levando os resíduos a ocuparem um nexo central nas preocupações humanas. 

É bom saber que as batatas de Marte não são acessíveis à maioria dos humanos. Portanto, uma temporada em solo vermelho para fugir de uma calamidade civilizatória na terra soa improvável. 

Sendo assim, a saída é fazermos da era do homem a era da sustentabilidade e não a era do lixo plástico que agora vivemos. A avalanche de lixo está dominando o planeta e é a nova fronteira da evolução humana. 

domingo, 10 de março de 2019

Quem foi de aço nos anos de chumbo

Antonio Carlos Lua

A Estação Primeira Mangueira – a tradicional verde e rosa do Carnaval carioca – trouxe a memória dos heróis brasileiros marginalizados para a Sapucaí, no Rio de Janeiro.

Os versos do samba-enredo fazem memória a “quem foi de aço nos anos de chumbo”. Em outros tempos bicudos, o escritor, ensaísta e dramaturgo brasileiro, Oswald de Andrade, certamente afirmaria que “a alegria é a prova dos nove!”. 

A verdade é que se a nossa atual política causa espanto mundo afora, o Carnaval continua sendo nosso apogeu estético e – por que não, político – onde as feridas de um país machucado sangram sob os pés dos passistas, que no esplendor de sua arte popular revelam o Brasil da diversidade étnica, religiosa e cultural.

Dos versos do samba-enredo da Estação Primeira Mangueira – “História para ninar gente grande” – sobram referências à história oficial que é colocada em contraste com as violações às mulheres, à população negra e à personagens marcantes como Dandara.

Mulher guerreira, obstinada por liberdade, Dandara – mulher de Zumbi com quem teve três filhos – se suicidou, em 1694, para não voltar novamente à condição de escrava. Até hoje não se sabe a sua verdadeira origem. Não há registro histórico que confirme se ela nasceu em terras brasileiras ou na África. 

Presume-se que sua ascendência tem ligação com a nação africana de Jeje Mahin, culto dos Voduns da região Mahi a noroeste de Abomei. Dentre os daomeanos escravizados, uma mulher chamada Ludovina Pessoa, natural da cidade Mahi foi escolhida pelos Voduns para fundar três templos na Bahia.

No dia em que Zumbi teve a cabeça decepada num golpe à resistência negra, um ano e nove meses já teriam transcorrido desde a morte igualmente trágica de Dandara, face feminina do Quilombo de Palmares, que se tornou um importante símbolo da resistência à escravatura.

Além de Dandara, existiram outras mulheres guerreiras no tempo da escravidão, a exemplo de Maria Felipa – heroína da independência da Bahia e, por conseguinte, do Brasil – e Luísa Mahin, líder dos Malês e participante da Sabinada. 

Porém, o olhar racista dos livros didáticos ignoram e não reconhecem o papel dessas mulheres, cuja história é diretamente associada à resistência protagonizada pelo povo negro durante mais de 400 anos de escravidão.