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domingo, 29 de março de 2020

Um divisor de águas em nossas vidas

Antonio Carlos Lua

Vivemos um trauma coletivo que despedaça violentamente a nossa representação comum do mundo, com a dimensão angustiante do inesperado, do imprevisível, do ingovernável, num evento mundial traumático, que impossibilita qualquer forma de defesa, nos fazendo redescobrir que, além do individualismo, somos um conjunto e temos responsabilidades coletivas. 

Ninguém poderia imaginar que o mundo poderia parar e a morte desenfrear-se. Ninguém estava preparado para uma emergência como a que estamos vivendo. Um divisor de águas foi cavado nas nossas vidas. Como será depois? Somos  convidados, decididamente, a pensar no tempo do pós-trauma. 

Embora fechados em nossas casas e petrificados pelo medo que restringe forçosamente o nosso horizonte de mundo, vamos olhar além, para responder de forma poderosa à lição do trauma do coronavírus, extraindo dessa inesperada potência negativa uma força nova e libertadora. 

Afinal, as crises profundas sempre nos revelam uma oportunidade extraordinária de reinício, que na frente nos possibilitará gastar todo o tempo que resta das nossas vidas com apenas o essencial, eliminando o supérfluo e a utopia abstrata, para, assim, cultivarmos a potência vital do essencial.

Após o trauma, o reinício deve ser audacioso para que a experiência negativa do coronavírus possa se converter em uma oportunidade afirmativa, inspirando a dimensão generativa das nossas escolhas políticas futuras e assim nos livrar do insustentável vírus hospedado no Palácio do Planalto que infecta a sociedade, com teorias da conspiração paranoicas e explosões de racismo.

A orientação do presidente da República, Jair Bolsonaro, para quebrar a quarentena está localizada no extremo oposto do espectro de alternativas de combate ao Covid-19, ao levar em consideração apenas os aspectos econômicos nos cálculos voltados a estabelecer as políticas de saúde pública, mesmo que isso possa custar centenas de milhares de vidas.

Em uma era da mobilidade rápida, uma resposta inadequada de um presidente da República ameaça todos os brasileiros. O que precisamos é de uma liderança eficaz no topo, uma liderança que atenda à ciência, trabalhe de maneira colaborativa e foque no bem comum, levando em consideração os diagnósticos e os pareceres médicos e científicos.

Enquanto as pessoas estão morrendo, o Governo Federal foge da sua obrigação ética de dar uma resposta robusta e objetiva diante da pandemia e passa a dirigir sua preocupação apenas para o golpe na economia, a recessão, a falta de crescimento do Produto Interno Bruto e coisas do tipo.

Nada pode nos dar certeza de que o coronavírus não possa se tornar mais letal ou contagioso, embora estejam sendo feitos esforços para evitar isso pela comunidade científica que, mesmo com verbas públicas minguadas para pesquisas, pode ser a estrada mestra para nos reconectar com uma realidade em constante mudança. 

Nada garante que quando as medidas de emergência expirarem a situação retorne à normalidade. Continua sendo vital fazer agora todo o possível para esmagar a curva de contágios, diluindo e distribuindo o impacto das pessoas severamente afetadas pelo vírus ao longo das semanas, para que nossos hospitais possam atender elas.

Em tempos de emergência sanitária, é essencial continuar a confiar nos números e acreditar na ciência, que tem o método para estudar o fenômeno do contágio e descobrir a cura e a vacina. 

Nesse sentido, o Brasil poderia organizar uma força-tarefa permanente para estar pronta a enfrentar emergências semelhantes no futuro, otimizando os procedimentos sanitários e aprimorando as tecnologias. 

Para isso, é necessário ouvir a ciência e os cientistas com senso de responsabilidade e seriedade, respeitando e adotando, com transparência, medidas drásticas, para evitar que a situação piore.

terça-feira, 24 de março de 2020

Desenvolvimento predatório favorece a emergência de doenças


Antonio Carlos Lua

Em meio ao medo e à emergência para encontrar saídas para a crise gerada pela pandemia do coronavírus, o Sistema Único de Saúde (SUS) tem sido posto na arena federal como a grande arma institucional para enfrentar o caos. 

Na verdade, o SUS é o eixo da resposta brasileira e a única e grande esperança diante da presença do coronavírus, por tratar-se de um sistema com acesso universal, capilaridade e notável cobertura geográfica.Porém, há uma contradição gritante do governo brasileiro na hora de definir o que é prioridade. 

Da pandemia de H1N1, em 2009, até a chegada do coronavírus, o Brasil perdeu 34,5 mil leitos de internação, destinados a pacientes que precisam ficar por mais de 24 horas dentro de um hospital. Essa estrutura poderia atender uma boa parte dos casos mais graves de contágio pelo coronavírus.

A injeção de recursos anunciada pelo Governo Federal pode tornar o Sistema Único de Saúde mais apto a esta resposta pontual. No entanto, não podemos esquecer que nos últimos anos o SUS vem sofrendo impactos negativos contínuos. Os investimentos e ações pontuais de agora não resolverão os problemas estruturais. 

Logo que terminar a emergência, é preciso investir no  fortalecimento da saúde de maneira contínua e prioritária, até porque não devemos esquecer que outras emergências virão, cada vez mais e com maior frequência, exigindo clareza sobre o que compõe investimentos e ações concretas que, de fato, venham garantir segurança em termos sanitários e de saúde. 

A saúde tem determinantes sociais poderosos e sem democracia, sem ciência, sem educação, sem renda, sem políticas sociais e sem direitos, seguiremos muito doentes, em diversos sentidos.

As dificuldades enfrentadas com o coronavírus no Brasil mostram que com um sistema de saúde gerador de grandes iniquidades, as doenças podem jogar rapidamente milhares de pessoas para a morte. 

Quando a detecção de uma doença depende do pagamento de uma consulta, fica evidente que não há segurança sanitária para ninguém, nem mesmo para os ricos cuja segregação social voluntária raramente consegue ser completa.

O Brasil não possui um sistema de saúde eficiente devido ao efeito devastador das políticas de austeridade sobre os sistemas de saúde, que implicam na desvalorização dos profissionais de saúde e no descrédito da ciência, que não  vem tendo no país o devido respaldo oficial 

No Brasil, é avassalador o potencial de destruição de vidas causado pela ascensão ao poder de líderes messiânicos cujos interesses eleitorais primam sobre a proteção da saúde pública, área na qual não deve haver teto de gastos por ser uma prioridade nacional. 

O desenvolvimento econômico predatório favorece a emergência de doenças pela produção massiva de alimentos derivados de animais criados em condições degradantes e extremamente favoráveis ao desenvolvimento de doenças sérias e mortais.

As atuais prioridades do governo brasileiro não coincidem com as da população. Mesmo com os avanços tecnológicos, vários fatores sociais comprovam que o Brasil não é capaz de responder aos desafios da proteção médica da população, com a redução drástica de investimentos e a privatização sorrateira do sistema de saúde. 

Sucateado ao longo dos anos, nosso sistema de saúde gera filas, disfunções, sofrimento e mortes evitáveis. Abriga profissionais mal remunerados, impotentes diante da escassez de meios materiais e de valorização social, assomados pela enorme demanda social.

O descrédito das autoridades sanitárias vem gerando uma crise sem precedentes no campo da ordem pública. Antes do coronavírus, o Brasil sofreu com dengue, zika, chikungunya e se viu às voltas com doenças que pareciam erradicadas, como, por exemplo, o sarampo. 

O reaparecimento dessas doenças revela erros na condução de políticas públicas em saúde no país. Um dos maiores erros tem sido o enfraquecimento dos programas de prevenção, com a desvalorização de seu escopo e cortes de financiamento. 

A estratégia de saúde da família, os agentes comunitários de saúde e de endemias, os programas de imunização e os equipamentos de saúde em regiões periféricas foram desprestigiados nos últimos anos e estão ameaçados em diversos lugares do país, sem que seus efeitos fossem discutidos com a merecida seriedade.

domingo, 22 de março de 2020

A bolha protetora de riqueza foi destruída.

Antonio Carlos Lua

O coronavírus não conhece fronteiras e se espalhou pelos países afetando a todos, sem distinção entre ricos e pobres. Ao contrário das tragédias do passado, como a ‘Peste Negra’ e a ‘Gripe Espanhola’, a atual pandemia afeta a humanidade inteira, sem diferença de nacionalidade, cultura, língua e religião, confirmando, de forma dramática, a nossa vulnerabilidade.

O contágio espalha o vírus temido por toda parte, nas mãos, na boca, no dinheiro, nas maçanetas das portas, nas roupas, nos transportes públicos, enfim, em todos os objetos do mundo. 

Dos seus efeitos devastadores podemos constatar que a presumida bolha protetora de riqueza está sendo destruída. Mas não é boa a ideia de que se deva aprender com as desgraças, depois de esbarrarmos nelas. Ficará sempre na nossa memória essa difícil experiência que estamos vivendo juntos.

É quase impossível saber como sairemos disso. Apesar do crescimento das riquezas e das conquistas tecnológicas, continuamos expostos às catástrofes, algumas delas provocadas por nós mesmos com a poluição irresponsável e outras pelas pandemias que consistem em calamidades.

Emergência Global 

Todos estamos inseridos num contexto de emergência global, que exige também uma resposta igualmente global, com medidas eficazes, a fim de evitar que a variedade dos procedimentos adotados favoreçam o contágio e multipliquem os danos para todos. 

Nos mostramos despreparados para essa emergência. O coronavírus acabou com a dissimulação de gestões públicas catastróficas submissas ao capitalismo financeiro dominante, mostrando que sempre há mais dinheiro para os bancos e cada vez menos leitos e profissionais da saúde para os hospitais. 

Há décadas que o bem público está comprometido com o setor hospitalar, pagando o preço de uma política que favorece os interesses financeiros em detrimento da saúde dos cidadãos. 

Ameaça iminente

Diante do perigo, nossa primeira reação é a fuga, afastando-se da ameaça iminente o mais rápido possível, mobilizando nosso distanciamento. Mas no caso do Coronavírus a ameaça não é localizável. Ela foge de qualquer determinação. Sua presença é invisível. 

Por outro lado, há uma expectativa de que este seja um momento de redescoberta dos valores primários, do diálogo e da união. Há uma esperança para a qual todos somos chamados a colaborar, reconhecendo e protegendo os valores da existência, não somente quando estamos em extremo perigo. Afinal, somos todos iguais. Não temos receitas de salvação. 

Os países se movem de modo esparso, cada um adotando estratégias diferentes, cujas consequências se tornam visíveis nos terríveis números de mortos e infectados. 

As nações aplicam medidas diferentes, às vezes totalmente insuficientes como as tomadas nos Estados Unidos e na Inglaterra, cujos governos estão subestimando o perigo para não prejudicar as suas economias. 

Ruptura antropológica

Estamos diante da passagem forçada da angústia ao medo, diante de fenômeno ameaçador. O perigo é percebido em todos os lugares. A estratégia de evitar o perigo se torna quase impossível justamente por causa da indeterminação do fato ameaçador. 

A crise do coronavírus é pós-moderna e provoca uma ruptura antropológica no estatuto geral da pessoa. Nosso contato com o mundo hoje é semelhante ao que acontece com o fenômeno ‘hikikomori’, onde adolescentes japoneses vivem isolados e se recusam a sair de casa, mas se comunicam de forma intensa com o mundo inteiro através das redes sociais. 

Não vemos mais os rostos por trás das máscaras. A própria voz está suspensa, pois as interações vivas se dão à distância. Não há mais cara a cara. 

Quando a crise acabar, haverá uma alegria por existir. As primeiras horas serão muito intensas. Será um momento de encontro com os sentidos e com o mundo exterior. Vamos nos dar conta de que se locomover é um grande privilégio que havíamos esquecido.

Elemento perturbador

Não é por acaso que já estão sendo encontradas em pacientes a multiplicação das crises de pânico ou de comportamentos fóbicos caracterizados por afastamento social, autorreclusão, isolamento, medo de qualquer forma de contato. 

Do ponto de vista estritamente relacionado ao medo, a pandemia põe em xeque qualquer forma coletiva poderosa de defesa contra ameaças. Diante do alto risco mortal, todos se sentem impotentes e expostos ao flagelo da doença, tendo a  morte como protagonista absoluta e perturbadora da cena.

Por outro lado, a pandemia nos mostra que a ideologia da fortaleza autossuficiente é ilusória, frustrando impiedosamente aqueles que se empenham arduamente para bloquear os processos rumo a uma maior integração entre os países. O coronavírus frustra a evidente paixão de alguns governantes pelos muros, pelas barreiras, pela militarização de fronteiras. 

Se a presença do estrangeiro não habita o além de nossas fronteiras, ela se espalha entre nós e se insere em nossos corpos. Mais do que nunca, são necessários esforços comuns – hoje para combater o vírus, amanhã para se recuperar economicamente. 

A defesa paranoica diante da ameaça dos imigrantes se desmembrou, dando origem a uma fragmentação da massa e, consequentemente, aos fenômenos do pânico e do retiro social. O sentimento sólido produzido pela defesa paranoica foi substituído pela fragilidade e na falta de ação, com a presença inconsciente ou consciente da morte. 

Virtude heroica  

A crise do coronavírus expôs contradições quando o médico chinês, Li Wenliang, do Hospital Central de Wuhan, foi impedido de cumprir seu dever de fazer seu alerta sobre o poder destrutivo do coronavírus. Cumprindo o seu dever profissional, ele foi punido e considerado culpado de espalhar mentiras perturbadoras na China. 

A figura do jovem oftalmologista – que morreu da doença que tentara, sem sucesso, impedir de se transformar em pandemia – marca época. O caso do coronavírus eclodiu após uma longa série de escândalos na área da saúde na China. 

A virtude heroica do médico Li Wenliang expôs os erros políticos de Xi, o grande imperador. Para um presidente que acumulou todos os poderes como nunca desde Mao Tsé Tung, esse é obviamente o estado máximo de alerta.

Li Wenliang foi a primeira pessoa a alertar o público sobre o surto de coronavírus de Wuhan. Em 30 de dezembro, o médico enviou uma mensagem para colegas alertando sobre um possível surto de doença respiratória com sintomas semelhantes aos da Síndrome Respiratória Aguda Grave, (SARs-CoV), que matou mais de 700 pessoas no início dos anos 2000. 

Li Wenliang recomendou aos companheiros de trabalho que usassem equipamentos de segurança para evitar a infecção. O médico fez o alerta após perceber que, naquele fim de ano, o hospital no qual trabalhava já tinha recebido sete casos de infecção com sintomas graves. 

Em 3 de janeiro de 2020, a polícia de Wuhan convocou Li Wenliang e o advertiu por estar fazendo comentários falsos na Internet. Ele foi forçado a assinar uma carta na qual prometia não divulgar informações sobre a doença. 

Em 6 de fevereiro de 2020, ele morreu de uma infecção por coronavírus em uma sala de unidade de terapia intensiva (UTI). Li Wenliang foi contaminado enquanto tratava uma paciente infectada. 

Ele contou em seu perfil numa rede social, que, em 10 de janeiro de 2020, começou a tossir. No dia seguinte passou a ter febre e, dois dias depois, foi para o hospital. Seus pais também ficaram doentes e foram internados.

Li Wenliang disse que os primeiros exames deram negativo para coronavírus. Mas, em 30 de janeiro de 2020 ele postou novamente dizendo que um teste mais específico identificou o vírus. 

No fim de janeiro, o médico publicou em uma rede social chinesa um pedido de desculpas do governo chinês, que admitiu falha na resposta à epidemia do novo coronavírus.

segunda-feira, 9 de março de 2020

Uma nova cultura política


Antonio Carlos Lua

Diante de uma das maiores crises políticas já enfrentadas no país, a tarefa mais urgente no momento é repensar o Brasil, revendo, com serenidade, consciência, lucidez e — acima de tudo — com conhecimento, nossa experiência nacional. 

Esta é uma tarefa básica, fundamental. Temos de nos conhecer cada vez mais, em vez de ficar repetindo clichês falsificadores da nossa trajetória no tempo.

A crise política brasileira — que tem uma de suas raízes fincadas nos partidos políticos — é fortalecida pelas forças populistas que se convertem num rito vazio na hora da formulação das políticas públicas. Elas corroem a representatividade e fragilizam a democracia, ao dizer uma coisa e fazer outra, num jogo cínico e manipulador.

Essas forças retrógradas impedem que viremos a página para entrarmos no capítulo inaugural de uma nova cultura política e de um novo sistema de poder, construindo um país diferente, coisa que não interessa àqueles que tiveram a oportunidade histórica de dar o pontapé inicial nessa partida e não o fizeram por incompetência, rasurando o mapa político da democracia.

O que se defende de maneira rápida  mas nem por isso irrelevante — é a necessidade de configuração de uma política com a cidadania se constituindo como tendência à autorrepresentação, aposentando os velhos expedientes surrados e apodrecidos. 

A mudança até agora não foi concretamente sinalizada, mas há uma reivindicação adormecida, não extinta, que mais cedo ou mais tarde, promete subir acesa ao centro do palco político nacional, para nos levar a repensar a sociedade e reinventar o Brasil como Nação.

Não estamos realmente encarando, em toda a sua complexidade, a experiência nacional, com a história oficial substituindo mentiras antigas por mentiras novas. 

No quintal da política brasileira, as plantas crescem, mas não se sustentam. O agricultor remove as plantas e coloca novas mudas, mas o problema persiste, pois a terra não foi revolvida e o substrato continua comprometendo o pleno desenvolvimento da planta. 

Vivemos uma crise política sem precedentes, que coloca em xeque todo o sistema político estabelecido. Nossos partidos se renderam à lógica do corporativismo. Eles não representam os interesses da sociedade e tão somente os seus próprios interesses. 

A queixa não é apenas relativa à baixa qualidade da nossa atual representação política, que é, sobremaneira, entristecedora, com o deficit democrático. Na verdade, nós não temos partidos políticos. Temos partidos eleitorais — e só. 

Muitos fatores parecem nos levar a um descolamento da realidade social, que culmina na falta de adesão da população aos programas partidários, uma vez que estes não procuram saída alguma para a crise nacional.

Os partidos não encarnam o interesse nacional e parecem querer tudo, menos pensar. O pensamento — principalmente, o pensamento livre, nada dogmático, nada subserviente a dogmas e princípios apriorísticos — virou uma espécie de maldição e é estigmatizado.

Nossas agremiações partidárias se acham infalíveis e nunca reconhecem os erros e nem os crimes gravíssimos que cometem contra a democracia e o povo brasileiro. Pairam acima dos mortais e falam sobre coisas reais numa linguagem que ninguém entende, sem nenhum sinal de autocrítica. 

Estão em total desconexão com a realidade, com as pessoas, mas, mesmo assim, superestimam o seu lugar, sua força, em detrimento de uma leitura clara do real histórico político brasileiro. 

Chegamos ao grau absoluto da redundância política e não vamos sair disso se não rediscutirmos impiedosamente as idiotices que fizeram o país alcançar tão nítido e espetacular fracasso no campo político-democrático.

Os partidos políticos brasileiros só toleram a democracia na medida em que possam controlar o aparelho estatal e, a partir de então, fazer o que bem quiser com a sociedade. Jamais lutam pela democracia e criam uma fantasia bem distante da realidade. Eles olham a democracia como instrumento de manipulação alienante. 

Essa realidade aparece clara e escandalosamente na frente de nossas caras com a simbiose entre o público e o privado que reina soberanamente na política nacional. Exemplos extremos da promiscuidade entre o público e o privado não faltam no país.

Muita coisa aconteceu e vem acontecendo na história política do Brasil, O substrato político presente nos faz viver uma conjuntura de retrocessos, narrada no livro ‘Raízes do Brasil’, de autoria do jornalista, historiador e crítico literário, Sérgio Buarque de Holanda, que continua muito atual, fornecendo chaves de leitura para pensarmos sobre o vazio da política representativa que se vive no momento.

O contexto em que surge ‘Raízes do Brasil’ é a década de 1930. Desde lá, continua no ar a pergunta sobre o pacto político. No livro, Sérgio Buarque de Holanda chega a dizer que “a democracia no Brasil sempre funcionou como um lamentável mal-entendido”. Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus direitos e privilégios. 

Em um momento em que o Brasil passa por crises em distintas ordens – notadamente nos aspectos político, econômico e ético – a obra reveste-se de particular significado, propondo um outro olhar sobre nossa história, com uma interpretação original da emergência de novas estruturas políticas. 

Por que continuamos a insistir nos erros que constituem esse mal-entendido apontado no “Raízes do Brasil”, quando este aborda aspectos singulares, próprios da organização sociopolítica do país? Como pensar — e construir — outra democracia no Brasil? 

Não temos como desdobrar o futuro porque não possuímos dom premonitório, mas podemos afirmar que o Brasil está encolhendo cada vez no campo democrático e, por isso mesmo, deve ser rigorosamente repensado, dando-se início ao processo de reafirmação da ideia sobre o que é democracia.

O simples fato de repensar o Brasil colocará em pauta a reapresentação da ideia democrática em condições novas. Isso pode até parecer um discurso velho, antiquado, mas diante do que estamos vendo é extremamente atual como muitos célebres conceitos de Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil” sobre uma nova forma de fazer política no país. 

Ou repensamos o Brasil de forma inovadora ou não haverá mais lugar para nós. Diante da incompatibilidade entre as doutrinas políticas e a realidade nacional, faz-se necessário organizar a desordem política no país.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Machado de Assis e o seu posicionamento na arena ideológica de seu tempo


Antonio Carlos Lua

O escritor e jornalista Machado de Assis – fundador da prosa moderna brasileira – tem uma obra genial, pela complexidade e sutileza, mantendo-se atual até hoje com temas clamorosamente contemporâneos. 

Machado de Assis sentia uma profunda ligação com suas raízes e tinha algumas ideias interessantes e heterodoxas sobre o Brasil. O livro ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’ – publicado em 1881 – é considerado sua maior obra e uma das mais importantes em língua portuguesa. 

Com seus enigmas, foi revestido de uma equivocada aura de leitura erudita – o que ele nunca foi em seu tempo, senão não teria publicado crônicas num português coloquial nos jornais onde atuou como jornalista e crítico literário

Em determinado momento da sua trajetória, Machado de Assis soltou a imaginação publicando ‘Brás Cubas’, um livro muito engraçado e nada convencional. Foi quando abandonou o moralismo e o esquematismo de seus primeiros romances, partindo para uma literatura mais livre na linguagem e mais rica nos temas.

Tanto ‘Brás Cubas’ como as demais obras de sua segunda fase vão muito além dos limites do realismo, apesar de serem normalmente classificadas nessa escola, mesmo tendo como características a introspecção, o humor e o pessimismo com relação à essência do homem e seu relacionamento com o mundo. 

Há muitos elementos em sua obra explicados a partir de dados autobiográficos. A composição de personagens que fazem parte do imaginário brasileiro, como ‘Brás Cubas’ e ‘Quincas Borba’, carregavam traços do escritor, em seus posicionamentos como intérprete do comportamento humano de sua época.

Filho do descendente do escravo alforriado, Francisco José de Assis, e da imigrante portuguesa, Maria Leopoldina, que trabalhava como lavadeira, Machado de Assis, mesmo sem ter acesso a cursos regulares na escola, empenhou-se em aprender e se tornou um dos maiores intelectuais do país, ainda muito jovem.

Não obstante a posição elevada que ele assumiu durante seu surgimento na cena intelectual, houve uma série de críticos da época, enfatizando a biografia ou a raça do escritor. 

Acusado de pouca brasilidade de possuir um estilo problemático, Machado de Assis ganhou certos rótulos redutores e injustos que não merecia e não merece. As afirmações nesse sentido tem um lado perverso, calcado em muitas acusações de omissão e indiferença frente aos problemas sociais de seu tempo, especialmente quanto à escravidão. 

Dada a importância que as identidades étnicas e de gênero assumem na perspectiva dos estudos culturais, é necessário que sejam trazidas à tona as verdades sobre um escritor que mesmo sendo afrodescendente ascendeu socialmente, ocupando postos de prestígio num ambiente hostil às raças não-brancas. 

Machado de Assis foi um analista e um crítico das instituições da sociedade e da política da sua época. Ele atacou as raízes das mazelas sociais e humanas protegido pela linguagem alegórica e pela agudeza da ironia, motivo pelo qual era lido principalmente por aqueles que constituíam o alvo maior de sua denúncia – as classes abastadas da elite imperial e depois republicana. 

Não há uma linha sequer escrita por Machado de Assis onde defenda os senhores ou o direito de propriedade sobre seres humanos. Aos 21 anos, já em seus primeiros escritos, ele se posicionava contra o horror da instituição do cativeiro. Foi, portanto, um abolicionista. Muitas vezes, suas insinuações tomaram o lugar da denúncia explícita, do repto, da acusação bombástica. 

O fato é que, no tocante às relações entre brancos e negros, Machado de Assis não adota nem o discurso cristão do bom senhor e nem o discurso do Positivismo ou do Cientificismo darwinista, que rebaixa negros e mestiços como “raça inferior”. 

Mesmo sofrendo pesadas críticas em várias obras suas, não adotou em seus textos os estereótipos que rebaixam e aprisionam os afrodescendentes em imagens deturpadas e preconceituosas. 

O lugar da fala machadiana é o do ‘Outro’, do discurso contra-hegemônico. Nas crônicas e poemas como “Sabina” e “13 de maio”, ou nos contos “Pai contra mãe”, “Mariana”, “O caso da vara” ou “Virginius”, fica evidente a elevação dos afro-brasileiros a uma posição de dignidade e respeito.

O mesmo ocorre em algumas cenas de ‘Brás Cubas’, ‘Helena’ e outras obras. A poética comanda a construção da maioria dos escritos, voltados para a carnavalização e desconstrução das elites brancas e de seus pontos de vista. Nesse contexto ganha destaque a recorrência do tema da morte do senhor, presente em vários romances como indicador da decadência do patriarcado escravista.

A grande diferença para Machado de Assis estava nos meios de comunicação. Na arena ideológica de seu tempo, tendo consciência da perenidade do produto jornalístico, utilizou bastante da imprensa como arma formadora de opinião, escrevendo textos no calor da hora dos acontecimentos, seguindo o ritmo acelerado imposto às redações nos jornais.

Homem contido, tímido, Machado de Assis jamais seria capaz de subir ao palco para discursar em defesa do abolicionismo. Mas, à sua maneira, ele participou da sociedade abolicionista e escreveu nos jornais muitas páginas memoráveis sobre a questão. 

Machado de Assis não tinha delírios de grandeza. Isso permitiu que ele observasse todas as classes sociais de sua época, com todos os seus paradoxos. Não aderiu a nenhum dos credos cientificistas do seu tempo. 

Teve influências francesas e britânicas (Shakespeare,Sterne) e alemãs (Schopenhauer), para não falar das brasileiras (José de Alencar), de Cervantes e de Leopardi. 

Essas influências contribuíram na criação da prosa moderna brasileira e o ajudaram a adotar um estilo original, que vai além de uma combinação delas. Inspirado em Leibniz, em seu conceito de “mônada” criticado por Voltaire – um dos seus ídolos – Machado de Assis tinha um pessimismo parecido com o de Schopenhauer. 

Nos intriga hoje o fato de um escritor do século XIX, vivente numa sociedade imperial defasada em termos de progresso, escravocrata e de rígidos padrões sociais e morais, tenha adquirido tamanha estatura universal. É por isso que sua obra carece, pois, de estudos condizentes com sua relevância literária, para nos fornecer uma visão completa de seu conjunto.

Ultimamente, Machado de Assis vem sendo recuperado como escritor, inclusive com o relançamento de toda sua obra, que é síntese e corolário do processo histórico evolutivo da literatura nacional e eixo de um equilíbrio dinâmico da própria língua literária brasileira, sendo inevitável mais pesquisas para as diversas nuances da sua obra. 

Seus textos permanecem atuais até hoje, atendendo a distintos horizontes. É um nome essencial para se compreender diversos aspectos da literatura brasileira. Estudos atuais focam o aspecto da afrodescendência em Machado de Assis. 

Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro. Um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e seu primeiro presidente, só se tornou um escritor conhecido a partir de 1872, com a publicação do romance ‘Ressurreição’. 

domingo, 8 de dezembro de 2019

Euclides da Cunha: como pensar um Brasil despido de preconceitos


Antonio Carlos Lua

O jornalismo tem a capacidade de fazer a crítica social como nenhuma ciência humana, apresentando fatos, verdades políticas e potencialidades da sociedade, ajudando-nos a pensar o Brasil, um país que nunca amadureceu nem como Nação nem como democracia, sendo algo que nunca se realiza, nunca termina, nunca se concretiza, criando, com isso, um ambiente de tensão, pesadelo e violência. 

A crítica jornalística é importante para a compreensão política e social do Brasil, país racista que recalca continuamente o próprio racismo, com efeitos perversos, colocando-se na ponta de lança da vanguarda do retrocesso, diante dos paradigmas de violência sob o qual vive sua população.

Há séculos, o jornalismo relaciona – de forma híbrida e tensa – a política, a linguagem e a materialidade, para resgatar os fatos marcantes na história do país, a exemplo do livro-reportagem ‘Os Sertões’, do jornalista e escritor Euclides da Cunha, que até hoje continua fazendo perguntas ao Brasil e ao mundo.

A interpretação jornalística que Euclides da Cunha faz da identidade brasileira tornou-se, verdadeiramente, um clássico e, como tal, sofreu e sofre múltiplas interpretações. Obviamente, a cada nova interpretação, novas características de sua obra são postas em evidência. 

No livro-reportagem ‘Os Sertões’, Euclides da Cunha estabelece uma compreensão da realidade brasileira a partir da oposição entre litoral e interior. 

Para ele, dois tipos de mestiços existiam no país: o do litoral  que vivia sob uma “civilização de empréstimo”  e o do interior, que mesmo se afastando dos parâmetros tomados como certos pelo eurocentrismo científico do final do Século XIX, apresentava o que mais faltava aos brasileiros do litoral: o vínculo à terra. 

O sertanejo torna-se, antes de tudo, um forte, por estar harmonizado com o sertão, por defendê-lo na luta e não abandoná-lo na seca. Deste modo, além da oposição entre litoral e o interior, Euclides da Cunha procura interpretar o Brasil profundo a partir das lentes etnocêntricas do cientificismo de sua época. 

Ele soube, com maestria, aglutinar esteticamente a contribuição de variados conhecimentos. É neste ponto que entra sua riqueza estilística e literária.‘Os Sertões’ – que tornou-se um livro-estuário – pode ser entendida como uma resposta à questão sobre quem é o brasileiro. 

Pela lógica de Euclides da Cunha, o sertão é o cerne do interior do Brasil e a essência da Nação. Quando ele fala do jagunço, está falando, de alguma forma, de todos os habitantes do interior, dos lugares mais recônditos e inóspitos. 

Euclides da Cunha foi um homem do seu tempo. Nesse sentido, deve ser entendida a famosa referência que ele fez sobre a força "motriz da história”. 

A ideia remete a uma percepção universalista, racionalista, teleológica e ontológica do tempo histórico. Remete também à tradição iluminista, à crença da época que dizia que a História tinha um “H” maiúsculo, tinha um rumo único, etapas de desenvolvimento bem estabelecidas e universais.

As dualidades tradição/modernidade e objetividade/subjetividade não estão dissociadas na obra de Euclides da Cunha acerca da nacionalidade brasileira. Elas aparecem em dois planos: o individual e o coletivo. Ou seja, o do intelectual, do autor, e o do discurso sobre a Identidade Nacional. 

No primeiro, o individual, é fundamental perceber que Euclides da Cunha muda seu posicionamento político em relação à Guerra de Canudos, conforme ele vai se aproximando do local da Batalha e conhecendo de perto o sertanejo e o sertão. 

Seu espanto pela força indômita do jagunço, pela beleza do sertão em época de chuvas, pela diferença radical entre aquelas paragens e o centro do país vai alterando gradualmente suas certezas. 

A subjetividade de Euclides da Cunha interfere, então, profundamente na certeza do intelectual que era. No meio do caminho entre Salvador e Monte Santo, ele se ajoelha e reza num povoado simples, ao lado dos sertanejos, prenhes daquela religiosidade simples e sincrética que lhe é própria. 

Euclides da Cunha desnudou os limites da objetividade universal, e, portanto, do próprio conteúdo emancipatório da ciência, Quando afirmou que a Guerra de Canudos foi um crime, ele apontou para um problema epistemológico sério que só depois da Segunda Guerra Mundial o Ocidente começou a encarar. 

Afinal, o genocídio de Canudos foi feito em nome do Progresso Nacional, contra rebeldes monárquicos inventados, onde os liderados por Antonio Conselheiro tiveram apenas o papel de "bucha de canhão", pois foram construídos, na época, como os inimigos do país. 

Euclides da Cunha contribuiu para o debate sobre os principais dilemas que envolvem a formação histórica do Brasil e até hoje nos leva a questionar como pensar o Brasil despido de preconceitos. 

Este ainda é o nosso desafio e foi também o do jornalista e escritor Euclides da Cunha, que fez de ‘Os Sertões’ uma obra matricial para pensarmos a cultura brasileira, inaugurando a percepção desta tensão epistemológica e cultural.

domingo, 24 de novembro de 2019

Gabriel García Márquez: a literatura e o jornalismo como lugar de encontro


Antonio Carlos Lua

Quando o jornalista colombiano, Gabriel García Márquez, lançou – há meio século – o romance ‘Cem Anos de Solidão’, ainda não era reconhecida no mundo a grande matriz cultural que constitui a América Latina. 

O livro – uma das melhores obras hispano-americanas – criou paradigmas de identidade, contribuindo para a reinvenção de um continente plural, que agrega circunstâncias múltiplas e abarca uma gama considerável de culturas e práticas sociais.

Sobre a narrativa da obra mais célebre do jornalista colombiano, a primeira premissa a ser pensada é a que se refere à circularidade, com os fatos sendo sempre uma repetição com nova roupagem de fatos anteriores. Os personagens são espelhados e multiplicados uns nos outros. As histórias são releituras umas das outras.

O romance permite uma visão privilegiada sobre a Colômbia, com a exposição clara do imaginário e da simbologia que perpassa a consolidação do país, onde a vida é uma luta pelo mínimo necessário e a fratura que divide as classes pobres das elites que as desprezam.

‘Cem Anos de Solidão’ é uma busca pela identidade latino-americana, revelando sua história, decifrando suas origens, tendo a literatura e a arte como lugar de encontro. É um livro extraordinário, que exerce uma espécie de encantamento permanente, com uma narrativa impregnada de duplicidades e antagonismos. 

A crítica literária cunhou a expressão “realismo mágico” ou “realismo fantástico”, para classificar “Cem Anos de Solidão”, cuja principal característica é lidar com situações inusitadas e, até, irreais, como se estas fizessem parte do cotidiano. 

Com a obra, Gabriel García Márquez – vencedor do Prêmio Nobel da Literatura, em 1982 – fez eclodir a bomba literária na América Latina. Foi a partir do livro que a literatura mundial começou a enxergar os escritores latino-americanos, abrindo as portas da cultura ocidental.
‘Cem Anos de Solidão’ é um marco literário sem precedentes e se firmou como clássico, não apenas da literatura latino-americana, como também da literatura mundial. Publicado em 1967, foi o livro mais lido do chamado boom da literatura latino-americana. 

Sedutora pelo enredo, a obra – estudada pela crítica literária em numerosos ângulos e facetas – relaciona jornalismo, literatura, lendas e mitos da América Latina, mostrando que no universo cultural do continente o real e o irreal convivem e se complementam.

A paisagem estabelecida por Gabriel García Márquez no livro é a da coleção de histórias, lendas e mitos do continente latino-americano. Dialogando com magia, ele  busca na cultura popular os elementos de sustentação literária.

A obra é uma releitura magistral da relação que a Colômbia construiu historicamente dentro da ideia de Nação que as elites andinas representadas por Bogotá se identificavam. Nela encontramos lado a lado episódios que poderiam ser chamados de “realistas” no sentido tradicional do termo e que poderiam estar presentes em qualquer romance realista.

‘Cem Anos de Solidão’ continua sendo fundamental na criação de uma identidade da Colômbia, onde existe hoje um forte movimento cultural que se deve, em grande medida, a obra de Gabriel Garcia Márquez. Assim, podemos dizer que se Cervantes fundou a Espanha, Gabriel García Márquez fundou a Colômbia.
Além de ‘Cem Anos de Solidão’, o jornalista Gabriel García Márquez – um dos escritores mais admirados e traduzidos, com mais de 40 milhões de livros vendidos em 36 idiomas – é autor de obras clássicas como ‘O Amor nos Tempos do Cólera’, ‘Ninguém Escreve ao Coronel’ e ‘Crônica de uma Morte Anunciada’. 

Gabriel García Márquez nasceu em Aracataca e criou um território eterno chamado Macondo, onde convivem imaginação, realidade, mito, sonho e desejo. 

Assim como o escritor Guimarães Rosa e o ensaísta, escritor e músico cubano, Alejo Carpentier, Gabriel García Márquez tenta em suas obras retratar e estabelecer a cultura popular, sendo este o elemento de legitimidade de suas narrativas. 

Tanto Gabriel García Márquez como Guimarães Rosa e Alejo Carpentier fizeram viagens para dentro. Em fevereiro de 1952, Gabriel García Márquez faz a sua “mítica viagem” à Aracataca, povoado colombiano onde nasceu e de onde teria surgido sua vocação de escritor.

Em junho do mesmo ano, ou seja, três meses depois, Guimarães Rosa fez uma longa viagem pelo sertão. Nessa viagem ele desenvolveu a pesquisa para a produção do livro ‘Grande sertão: veredas’ e outras obras, a exemplo do ‘Buriti’. 

Em janeiro de 1953, o cubano Alejo Carpentier termina o seu mais importante livro, ‘Los pasos  perdidos’, obra que narra uma viagem ao interior de um país sul-americano por um artista frustrado, que teve a oportunidade de revitalizar sua força criadora. 

No livro ‘Buriti’, de Guimarães Rosa, Miguel retorna ao sertão em busca de seu passado e encontra o amor em Maria da Glória depois de uma vida vazia na cidade. 

Ou seja, dessa forma, tanto Gabriel García Márquez como, Guimarães Rosa e Alejo Carpentier colocam a viagem a razão de ser de suas obras,

Gabriel García Márquez nem sempre foi uma unanimidade como nos parece hoje. Partes de sua obra foram censuradas na antiga União Soviética, onde passou uma temporada escrevendo uma série de reportagens sobre a vida no bloco comunista, na década de 1950. 

A tradução feita nos Estados Unidos passou inicialmente despercebida, e, nos países árabes, como o Irã, os livros eram vendidos no mercado negro, pois não havia permissão para publicá-los. Até mesmo na Colômbia, ele inicialmente não foi uma unanimidade. 

Amigo de Fidel Castro, ele não era visto com bons olhos pelo governo da Colômbia, o que dificultou a aceitação da obra pelo particular posicionamento que o relacionava com o pensamento utópico de esquerda, que depois da Revolução cubana, começava a ter grande acolhida em todos os países latino-americanos e caribenhos.

Por conta de sua forte relação com a esquerda, Gabriel García Marquez teve que sair da Colômvia, na década de 1970, protegido diplomaticamente pela embaixada do México, depois da emissão de uma ordem de prisão contra ele, na qual era acusado de cooperar com a guerrilha e apoiar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs), criada em 1964 numa ação política do Partido Comunista Colombiano. 

A profissão de jornalista – exercida durante muitos anos por Gabriel García Márquez – fez com que ele testasse em seus livros muitas de suas técnicas narrativas de documentário, com longas reportagens escritas em forma de romance, como ‘Notícias de um sequestro’, ‘A aventura de Miguel Littín clandestino em Chile’,’Relato de um náufrago’, entre outras publicações do jornalista.

São textos híbridos, formados pela mistura de romance e reportagem. Contudo, não se pode esquecer que Gabriel García Márquez se formou na escola jornalística norte-americana da qual saíram também nomes como o do escritor e jornalista norte-americano, Truman Capote. 

Gabriel García Márquez – que faleceu em 17 de abril de 2014 – partia da ideia de que a reportagem é uma construção linguística, que pretende ter como referencial a “realidade”. Mas como construção linguística, estaria sujeita mais à própria linguagem que aos imperativos do fato.

Gabriel García Márquez iniciou a carreira de jornalista no “El Espectador', o jornal mais importante da Colômbia. Dizia sempre que ser repórter era a melhor profissão do mundo. Ele justificava isso a partir da ideia de que o repórter escuta as histórias alheias e tem por obrigação contá-las a outros.

Ponto de vista

‘Cem anos de solidão’ é um livro sedutor pelo enredo, com várias gerações se sucedendo. É um romance com sopro épico. A obra dá notícia de um mundo fenecido, um mundo soterrado pela modernização das relações de mercado, mundo que no romance aparece na forma de uma consciência irracional, ou pré-racional, presente em grande parte dos personagens. 

Cem anos de solidão contribuiu para modificar a visão que o restante do mundo tinha da América Latina. Ele fez parte do "boom" dos anos 1960 e 1970, quando grandes escritores latino-americanos, particularmente hispano-americanos, entraram em circulação na Europa e nos Estados Unidos, algumas vezes em tradução para o francês e o inglês. 

Foi uma revelação para os europeus cansados de narrativas pálidas, autocentradas, ligadas a um mundo solipsista, de indivíduos sem rumo vivendo em cidades opressivas. 

Escritores como Gabriel Garcia Márquez sopraram nas brasas do romance e deram um novo fôlego para a narrativa ocidental, enquanto narravam as mazelas do continente americano, contando as histórias locais que estavam soterradas, que nunca tinham encontrado voz literária, porque se tratava de imaginário muito ligado ao mundo indígena, de gente miserável que não se tinha integrado à cidade moderna.

Há características que aproximam a obra ‘Cem anos de solidão’ de sagas como ‘O tempo e o vento’, de Erico Veríssimo. Há, em primeiro plano, uma multiplicidade de personagens, cujas histórias são contadas por várias gerações. 

Sob esse ponto de vista, pode-se fazer uma aproximação entre o fato de García Márquez compor a cidade de Cem anos de solidão, Macondo (que já havia aparecido, por exemplo, na obra O enterro do diabo), com características da cidade onde nasceu, Aracataca, assim como em O tempo e o vento pode-se estabelecer uma ligação entre Santa Fé e Cruz Alta.

Essas questões têm bastante relação. Um escritor e roteirista brasileiro chamado Doc Comparato  relata que García Márquez conheceu O tempo e o vento e admirou muito o modo como Erico Verissimo tinha equacionado o relato das várias gerações e tempos. 

Ele teria afirmado que depois da leitura do clássico de Erico é que ele teria encontrado o caminho para escrever Cem anos. Quanto ao aspecto biográfico, seguramente há algo de depoimento verdadeiro nas cidades imaginadas pelos dois grandes narradores.


O livro Cem anos de solidão é como uma saga familiar profundamente histórica que dá notícia interna do funcionamento da opressão e do funcionamento do choque radical entre um mundo que funciona pela lógica pré-mercantil e outro em que essa regra já está no comando, tudo isso contado com maestria, misto de lirismo, caráter épico e humor.