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terça-feira, 19 de maio de 2020

Um dilema sem precedentes

Antonio Carlos Lua

A pandemia põe à prova nossos recursos emocionais, impondo uma desintoxicação profunda que, em certo aspecto, é benéfica por aliviar a carga da nossa hiperatividade cotidiana, nos levando a uma espécie de introversão obrigatória.

Perdemos os nossos hábitos e, talvez, a possibilidade de vivermos juntos como antes, ao ver, agora, a atmosfera depressiva e o retrato sem cor das cidades. 

Após nos fazerem acreditar que a ciência detinha o controle de todas as esferas da vida, constatamos que, apesar dos avanços científicos, um microscópico vírus nos faz cair de bruços em nossa impotência frente a ele.

A configuração sociológica nos remete à experiência apocalíptica, não de que o mundo acabou, mas de  que nada será mais como antes, não por razões ideológicas, mas sim por motivos científicos.

Apesar de tudo, o trauma coletivo da quarentena traz um aspecto positivo ao nosso alcance. Em vez de nos separar na dor, ele tornou nossas existências mais coesas, com algumas características em comum com a vida dos monges.

Agora, temos a convicção de que todos somos igualmente humanos e de que não há humanos que sejam mais humanos do que outros. Ou seja, após a pandemia não haverá nova humanidade. Haverá humanos que, com a mesma condição, não serão melhores nem piores.  

Nos sentimos mais unidos em uma comunidade feita de solidões, combatendo o desespero de uma doença perigosamente mortal, que irrompeu ferozmente em nosso cotidiano, alterando nossas vidas substancialmente.

Agora, o ‘nós’ deve prevalecer sobre o ‘eu’ com o caráter individualista dando lugar à ideia coletiva não só de liberdade, como também de solidariedade. Não poderá mais haver máscaras e ilusões. 

O recado que o vírus nos traz aponta para a necessidade de cuidarmos da Casa Comum e não esquecermos que muitos não têm casa e nem comida numa sociedade individualista, insensível, odiosa, intolerante e insustentável.

Três bilhões de pessoas no mundo – entre elas 900 milhões de crianças – não têm sequer água e sabão para lavar as mãos e se prevenir do novo coronavírus.

Na África, ao sul do Saara, 63% da população, ou seja, 258 milhões de pessoas, não têm como lavar as mãos. Cerca de 47% dos sul-africanos – o equivalente a 18 milhões de pessoas – não possuem instalações básicas para lavar as mãos. 

Na Ásia Central e Meridional, 22% das populações – o equivalente a 153 milhões de pessoas – também não possuem instalações para lavar as mãos. Mais de 50% de bengaleses urbanos (29 milhões de pessoas) e 20% dos indianos urbanos (91 milhões de pessoas) também não têm como lavar as mãos.

No Leste da Ásia, não têm como higienizar as mãos 28% dos indonésios urbanos (41 milhões de pessoas) e 15% dos filipinos urbanos (7 milhões de pessoas).

domingo, 17 de maio de 2020

O jogo mortífero e a lógica da cova rasa

Antonio Carlos Lua

A curva ascendente de infectados e mortos com a Covid-19 mostra o jogo mortífero da política macabra contra os vulneráveis jogados hoje à própria sorte com a estúpida incompetência dolorosamente revelada na ingovernabilidade destrutiva de Bolsonaro, que equaciona os vivos e os mortos utilizando a sinistra lógica da cova rasa.

O país vive hoje um dos piores momentos da sua história, ao tornar-se evidente o sacrifício de vidas em prol do funcionamento de uma máquina fundada na desigualdade e na injustiça, quando um fascista aproveita-se de uma pandemia para minar as instituições e alimentar sua ânsia de poder.

Com um discurso em favor da morte e mil tensões em sequência, Bolsonaro vem adotando a política de avestruz num clima de apocalipse e de guerra santa fanatizada, com seus fantasmas espectrais provocando ruídos no próprio governo cuja queda está na ordem do dia.

O primeiro consenso que podemos extrair da pandemia é o fracasso e a negligência do Governo Federal, que ao incorporar a inércia e a indiferença norte-americana em relação à letalidade do novo coronavírus perdeu um tempo precioso que custou e custará dezenas de milhares de vidas.

Agora, a situação piorou. A descrença se transformou em ação política, convertendo a arrogante postura governista em verdadeiro desdém organizado contra a sociedade brasileira. 

A realidade se impõe e o caos se agrava no Brasil, que é a única Nação – com exceção da Bielorrússia – cuja autoridade máxima não só minimiza a força avassaladora do novo coronavírus, como também  defende que as mortes devem fazer parte da rotina do país, custe o que custar. 

Na verdade, Bolsonaro quer escolher quem vai sobreviver e quem vai morrer, com suas políticas de controle através da morte – a chamada necropolítica – com milhares de cidadãos submetidos a condições de vida que lhes conferem o estatuto de “mortos-vivos”. 

Com uma manifestação abertamente mortífera, Bolsonaro ensaia um salto para o abismo multiplicando polêmicas e disputas políticas vazias com a produção contínua de bodes expiatórios, valorizando rixas improdutivas em seus círculos de fanatismo e canalizando energia antissistêmica para a exposição da população à morte. 

domingo, 3 de maio de 2020

As câmaras de eco dos fascistas online

Antonio Carlos Lua

Estamos cruzando as portas de um novo tipo de civilização – a digital – com as modernas tecnologias levando à conectividade de tudo, em registros digitais cuja integridade é garantida pelo uso de complexas criptografias. 

Não é preciso ser marxista para entender que os novos modos de produção estão tendo repercussões em cascata nas esferas da sociedade, na política e na cultura. 

Diante das mudanças, confrontam-se duas narrativas. Uma é catastrófica com o fim do trabalho humano. A outra – triunfalista – com as máquinas fazendo o esforço no nosso lugar. 

Não há dúvidas de que a civilização digital tem efeitos positivos em termos de prosperidade material, de oportunidades de escolha, de acesso ao conhecimento, interação e trocas em escala global. Hoje, basta um clique para ter acesso a todos os tipos de informação, inclusive aquelas sobre o que os políticos estão fazendo, em todos os níveis de governos.

Mas é preciso separar o joio do trigo. Existe o outro lado da moeda, que é a inundação das notícias falsas – as chamadas fake news – que funcionam como câmaras de eco dos fascistas online, com os discursos de ódio racial, étnico, religioso e de práticas manipuladoras da pós-verdade.

Existem três tipos de fake news. O primeiro é o boato espontâneo, que nasce do nada e se alastra como fogo. O segundo tem a intenção de fazer dinheiro. É quando a manchete chama atenção e a pessoa desatenta clica e chega a um site cheio de publicidade. O terceiro tem objetivo político e ocorre quando várias notícias falsas surgem ao mesmo tempo colocando histórias no ar, sem que se consiga descobrir e mapear o seu percurso.

O mundo está, convenhamos, perdido no que se refere a relação entre tecnologia e política. Em cada manifestação de políticos nas redes sociais surgem mais dúvidas do que certezas. Há uma verdadeira desinformação, através de uma miríade de posts ad hoc (com um fim específico) para influenciar a orientação política de milhões e milhões de usuários das redes sociais. 

Hoje, os humanos – e não os robôs – são os principais responsáveis pela disseminação de informações enganosas, que se espalham mais rapidamente do que as notícias reais por uma margem substancial, embora se destruam também mais amplamente do que a verdade em todas as categorias de informação. As informações falsas, com histórias inexatas e notícias imprecisas, são mais replicadas do que as histórias reais, verdadeiras.

Na discussão sobre as notícias falsas é pertinente saber se é possível eliminar a mentira da política. A informação duvidosa, distorcida e quase inverossímil deve ser criminalizada no debate político? Se a resposta for sim, então uma das primeiras providências a adotar é proibir o marketing e as técnicas de publicidade nas eleições. 

A propaganda – seja comercial ou política – seleciona elementos positivos de um candidato e os superdimensiona ou os contextualiza de modo a atrair as atenções para algo que não é efetivamente encontrado na realidade. Dito de outro modo, ela exagera, distorce.

Os governos e governantes só falam a verdade? Não! Os países convivem até mesmo com legislações que protegem ações obscuras alegando defender a sociedade. São as razões de Estado. 

Para citar um único exemplo, devemos relembrar as denúncias de Edward Snowden, ex-administrador de sistemas da CIA e ex-contratado da NSA, que trouxe a público documentos ultrassecretos que deixavam clara a vigilância norte-americana a cidadãos comuns, num escândalo que fez alterar legislações mundo afora. 

Seguindo a espetacularização que se tornou norma em nossa sociedade, algumas autoridades deveriam declarar guerra às chamadas fake news, eliminando as inverdades, os exageros e as distorções do Congresso Nacional.

Dizem que os chineses possuem exércitos prontos a teclar e a postar inúmeras mentiras e notícias falsas para alterar o resultado de eleições. Qualquer um pode contratar os chineses, a máfia russa, as empresas de negócios escusos que atuam criminosamente na rede mundial de computadores. 

A propaganda paga impulsionada nunca será transparente diante das mediações políticas e faz prevalecer as inverdades, as adulterações e deformações dos fatos, suas causas e consequências. São as notícias falsas que sustentam as escolhas políticas, sendo as mesmas um dos instrumentos de manipulação e luta pelo poder político. 

Empiricamente, é muito fácil constatar que a democracia brasileira convive hoje com grandes mentiras, que destilam o ódio, o racismo, a homofobia, a misoginia e o fundamentalismo religioso, sem os elementos constitutivos daquilo que é verdadeiro.

Quase todas as guerras modernas começaram a partir de mentiras, de notícias falsas. No caso dos Estados Unidos, praticamente nenhuma guerra que o país realizou deixou de se valer de uma notícia falsa como ponto de partida. 

Basta lembramos as supostas armas de destruição em massa do Iraque, nunca encontradas. A essa notícia falsa devemos a morte de 400 mil crianças e um embargo que impediu a chegada de remédios no Iraque 

Muitas vezes, quando os políticos citam números em seus discursos, eles fingem ser objetivos, quando na verdade escondem debaixo do tapete suas escolhas subjetivas. 

O problema em torno da informação na contemporaneidade se torna mais grave porque as discussões ocorrem em ambientes de midiatização extremamente forte e precisam obedecer e se submeter, antes de tudo, às regras de certas mídias.

A maioria das controvérsias políticas contemporâneas são falsas, graças ao trabalho de desinformação que cria múltiplas e contraditórias hipóteses poluindo a esfera do debate, neutralizando a capacidade dos fatos verdadeiros alcançarem as pessoas.

Vários fatores colaboram para que as pessoas sigam consumindo e reproduzindo notícias falsas, entre elas aquela relacionada à ideia de dissonância cognitiva, segundo a qual somos propensos a acreditar no que agrada às nossas ideias preestabelecidas e a não acreditar naquilo que as confronta, independentemente do que os fatos digam a respeito.

Em razão disso, o trabalho das agências de checagem de informação, que têm se multiplicado mundo afora, é insuficiente para impedir o agravamento do fenômeno das ‘fake news’ e da manipulação da informação. 

O que está na base desse processo de crença nas mentiras não é apenas a ignorância. Quando se constrói mentiras que agradam a um grupo, mesmo que sejam desmascaradas, elas seguem funcionando naquele grupo e usadas e reproduzidas por ele. Aquele que as desmascara recebe de volta simplesmente o ódio. Exemplos recentes comprovam isso.

domingo, 26 de abril de 2020

O concerto desafinado dos virologistas

Antonio Carlos Lua

Diante do cenário de medo com a expressiva letalidade do novo coronavírus, chegamos finalmente à conclusão de que o melhor mesmo é ficar em casa e lavar as mãos continuamente a cada suspiro, mesmo com a euforia irresponsável do presidente da República, Jair Bolsonaro, que usa a pandemia para tentar implementar o estado de exceção, priorizando a morte em lugar da vida.

É por isso que com ou sem razão desconfiamos dos políticos e, agora, até mesmo da ciência, com a falta de respostas plausíveis aos inúmeros questionamentos sobre a força avassaladora da covid-19.

Até ontem, a ciência era a divindade de cujo poder celebrávamos, antes que o novo coronavírus desnudasse os seus insucessos e limites, com o concerto desafinado dos virologistas, onde cada opinião se despedaça diante de qualquer entendimento conflitante.

O último insulto à dignidade da ciência, no entanto, vem ainda da boca dos políticos, que na crise estão usando as incertezas dos especialistas como um para-brisa para não tomar as decisões certas e, assim, fazer aquilo que lhes agrada.

O fato é que sabemos pouco, realmente muito pouco, sobre o novo coronavírus, que atingiu de forma violenta o mundo inteiro. Nem a própria China diz exatamente a sua fonte, se foi em um mercado de animais ou em um laboratório de pesquisas científicas em Wuhan.

Continuam desconhecidos os números reais do contágio e a possibilidade de reincidência para quem se curou, assim como o tempo de incubação. Não se sabe também se o vírus permanece no ar em suspensão, por quanto tempo, em que porcentagem. 

Os virologistas não esclarecem se o vírus teme o calor, se no verão é mais fácil derrotá-lo, qual é a distância social a ser observada, se os animais de estimação são uma fonte de contágio. Até aqui, falta uma vacina, mas também falta um teste sorológico confiável. 

Deve ser pela quantidade de dúvidas que zunem nas nossas cabeças que as nossas instituições médicas chamaram às suas cabeceiras todos os duvidosos. Daí a pletora de comissões, comitês, consultores. As estimativas estão viciadas por padrão.

Surge disso uma lição dupla sobre o papel da política e da ciência. O novo ministro da Saúde, Nelson Teich, por exemplo, procura o “sim” de um cientista para acabar com o isolamento social. 

Ele sabe que a discórdia da comunidade científica permite ao político escolher o que vai fazer por conta própria. Caso o político acerte na decisão, se  apossa de todo o mérito. Caso contrário, a culpa será toda dos especialistas.

Em 2016, a revista ‘Nature’ revelou que mais de 70% das pesquisas científicas falham nos testes de reprodutibilidade. Sendo assim, em tempos de clausura, é necessário que não nos enganemos com as informações incompletas e tóxicas que ocultam a crise causada pelo novo coronavírus. 

Mentira da década 

Em meio a crise, a ciência talvez precise de um banho de humildade. Afinal, ela possibilitou o desperdício dos recursos naturais, a poluição, o aquecimento global e, talvez, até mesmo essa própria pandemia, como afirmou o cientista francês Luc Montagnier, prêmio Nobel de Medicina, em 2008, pela descoberta da Aids.

A versão de Luc Montagnier é de que cientistas chineses estavam trabalhando na produção de uma vacina contra a Aids e usaram para isso um coronavírus, que acabou se desenvolvendo por acidente no Wuhan Institute of Virology (WIV), laboratório chinês de alta segurança especializado nesse tipo de vírus. 

O prêmio Nobel de Medicina afirmou que o novo coronavírus teria sido produzido a partir de um coquetel de vírus que inclui o HIV e o coronavírus presente em morcegos e, por ser artificial, tende a ser eliminado pela natureza com o tempo. 

Reportagem do canal de notícias norte-americano ‘Fox News’ enfatizou que o governo chinês esconde a verdade sobre o surgimento do novo coronavírus, suprimindo 100% dos dados científicos, modificando datas, destruindo amostras sobre a covid-19 e perseguindo jornalistas independentes que investigam o caso.

É fácil para o governo chinês negar como tudo aconteceu. Os regimes autoritários são especialistas em controlar narrativas, suprimir informações e perseguir os jornalistas. 

Isso aconteceu também no acidente nuclear de Chernobyl, em 26 de abril de 1986, na Usina V. I. Lenin, localizada na cidade de Pripyat, na extinta União Soviética, atual território ucraniano. Entre as semelhanças, há sobretudo a falta de informação. 

No desastre de Chernobyl, os cientistas alertaram que haviam detectado altos níveis de radioatividade, mas muito tempo se passou até que a URSS informasse ao mundo sobre o acidente nuclear. 

O mesmo acontece agora na China, onde no início os cientistas deram a entender que a Covid-19 era apenas um problema local sem grandes proporções no país asiático. Esqueceram que é impossível esconder algo em pleno 2020.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

A trama de um poder que difunde meias verdades


Antonio Carlos Lua

Não devemos mascarar a culpa dos chineses no avanço do coronavírus, cujo cenário polêmico em que foi criado é bem conhecido, inclusive pelas prisões e desaparecimento de jornalistas que buscaram a verdade.

Há uma negação da catástrofe, mas a realidade está no encalço do imperador da China, Xi Jinping, líder do Partido Comunista, mesmo com a propaganda espetacular que difunde meias verdades ao mundo. 

Cabeças rolam na China, enquanto a repressão aumenta ferozmente sobre os jornalistas. A trama é obra de um poder que gostaria de controlar tudo no planeta e teve a proeza de construir alegremente um gigantesco hospital em dez dias, com falsas mensagens de vitória sobre o controle do coronavírus. 

Será que os cidadãos que viajam, leem e observam o mundo se contentam com a resposta formatada e coercitiva das autoridades chinesas sobre o coronavírus? A aprovação do mundo em relação aos métodos chineses permanecem sem reservas?

Na China, o coronavírus apareceu em um clima de grande desconfiança com um sistema de saúde notoriamente saturado e subfinanciado (5% do PIB). Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), lá existe 1,5 médico por 1.000 pessoas. 

Os hospitais, em sua maioria, são velhos e desaparelhados. A corrupção dos profissionais da saúde mal remunerados ganham manchetes nos jornais. A medicina liberal não existe no país. Muitas clínicas são desprovidas de equipamentos, com o agravante de terem médicos não diplomados exercendo irregularmente a medicina. 

Como se percebe, a confiança não é algo patente em relação a China, onde as reações dos cidadãos à crise na saúde não existem, tendo em vista as violentas retaliações  políticas. Na ausência de informações confiáveis, em quem acreditar? O que fazer? 

Por que a China só tomou providências para conter o coronavírus quando ele já tinha saído do país e se espalhado pelo mundo? Por que a oficialização da existência do alastramento da covid-19 em Wuhan se deu de maneira atrasada? 

Por que o jornalista Li Zehua, o advogado Chen Qiushi e o comerciante Fang Bin, desapareceram após filmarem a situação do coronavírus em Wuhan, postando seus testemunhos nas redes sociais?

Por que Xu Zhiyong, militante dos direitos civis, que criticou abertamente a forma como Xi Jinping lidou com a crise do coronavírus no país foi preso e não se sabe se está vivo ou morto?

O próprio cientista chinês, especialista em doenças respiratórias, Zhong Nanshan, afirmou, em estudo publicado na revista científica, ‘Caixin’, que os médicos reagiram cedo ao surgimento da covid-19, mas o governo da China não aplicou as medidas para deter o vírus em tempo hábil, embora com o alerta sobre o poder destrutivo do coronavírus pelo médico Li Wenliang, que acabou morrendo contaminado pelo coronavírus.

Afirmação de Zhong Nanshan é sólida, pois parte de um cientista respeitado na China e no mundo e que se dispôs a divulgar uma conclusão explosiva, sendo um indicativo de que a questão é realmente muito séria.

É louvável a coragem e a velocidade dos pesquisadores chineses para publicar suas conclusões em revistas científicas internacionais, informando sobre os estudos acerca do surgimento da covid-19 na China.

Quanto aos jornalistas que estão na linha de frente para esclarecer a questão, é necessário uma mobilização mundial para que desta vez a faca da censura não impeça que as lições do desastre da covid-19 não sejam assimiladas pelo mundo.

Daí a importância dos cientistas passarem seus testemunhos, para não dar cegamente ao poder chinês a possibilidade de continuar escondendo a verdade sobre o coronavírus que, muito mais que um agente infeccioso, é um revelador implacável de que muitas vezes não queremos ver o que está diante dos nossos olhos.

Olhando para as origens das pandemias anteriores podemos verificar que as gripes de 1958 e 1968 vieram da China. Da China vieram também o Sars, em 2002, a gripe suína, em 2009, e agora, a Covid-19. 

Só que o Partido Comunista acha que não precisa prestar contas para ninguém e tem adotado uma postura beligerante. A China resiste em colaborar com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e as demais agências especializadas internacionais. 

Os dados até agora divulgados pela China sobre o coronavírus não são confiáveis. Mesmo assim, o diretor da Organização Mundial de Saúde tem aceitado as parcas informações, com medo de ofender os chineses. 

Depois de fingir durante dois meses que nada estava errado no país, o governo chinês decretou uma série de medidas drásticas, estabelecendo uma ferrenha censura no país e não aceitando qualquer crítica do descaso inicial. 

Há inúmeras incoerências do governo chinês que preocupam o mundo inteiro. Uma delas é semear dúvidas sobre a origem do coronavírus e exigir o agradecimento do resto do mundo passando a ideia que sozinha e com sua própria força barrou decididamente o coronavírus no país. 

Na China 1,4 bilhão de habitantes (92%) são da etnia ‘han’, que são ensinados a pensar que, como detentores de uma civilização de 5 mil anos, são superiores aos demais. Na rua, os poucos negros são rotineiramente chamados de “macacos”, os japoneses de “bárbaros peludos” e os brancos de “yangguidz”, ou “demônios-fantasmas de além-mar”.

A China tem o direito de se governar do jeito que quiser. Mas não pode, de maneira alguma, brincar com a saúde do resto do mundo só para proteger os interesses de uma elite que acha que todo mundo que não é “han” é inferior. Aí está o grande perigo. A Covid-19 vai passar. A prepotência da China, não.

Prometendo um caminho de prosperidade crescente, o imperador chinês do Partido Comunista, Xi Jinping, não deve ter um sono nada tranquilo com um inesperado e invisível inimigo que pode colocar tantas conquistas a perder chegando na hipótese mais negativa a abalar o projeto de ascensão da China como superpotência dominante no mundo.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Máquina do ódio

Antonio Carlos Lua

O presidente da República, Jair Bolsonaro, quer fazer do coronavírus uma arma poderosa de desorientação em massa. Com um discurso movido pelo ódio e um nacionalismo torto e ultraliberal ele insiste em dizer que as mazelas vêm de fora e, no fundo, tenta passar a ideia de que se os idosos morrerem com a pandemia da covid-19 será um mal menor para o Brasil.

Mesmo num cenário dramático com milhares de pessoas mortas e infectadas pelo coronavírus, a máquina do ódio não para e tenta nos paralisar, nos atirar ao precipício, para deixar a esperança escondida, envergonhada e pisoteada por um ex-militar insano, que insiste em tripudiar uma pandemia que colocou o mundo de joelhos.

Com um ego avantajado alimentado pelos desvarios das forças ultraconservadoras de extrema direita, Bolsonaro odeia a liberdade e procura desesperadamente o aprisionamento da democracia.  

Ele prega o projeto de morte e representa hoje um perigo real para o Brasil. Dizer que o presidente da República passou dos limites virou lugar-comum. Faltam adjetivos para qualificar o seu delírio histérico de colocar o poder acima das regras da convivência civilizada.

Essa prática de sempre tem seus efeitos potencializados nas engrenagens políticas ultraconservadoras que – glorificando a Ditadura Militar que ensanguentou o Brasil entre os anos de 1964 e 1985 – se colocam hoje como a base de sustentação de um presidente estúpido que quer solapar a cidadania, lançando a sociedade na violência e na barbárie.

Mas o Brasil não pode institucionalizar a tirania – nem no Palácio do Planalto, nem nas ruas. É preciso tolerância zero com as atitudes de Bolsonaro, cujas posições desatinadas mostram uma hostilidade aberta contra a democracia, a imprensa e os direitos humanos.

Na sua possível insanidade, Bolsonaro se insurge contra as medidas do seu próprio governo, ou seja, é ele contra ele mesmo, num mundo circular fechado. Num caso típico de esquizofrenia, pediu o fim do isolamento social e disse que o ministro da Saúde, Luis Henrique Mandetta teria que se demitir. Feliz com a fama adquirida, o ministro não o fez e não o fará. Os ministros Paulo Guedes e Sergio Moro estão calados. São eles que contam para os setores dominantes. 

Enquanto isso, a Rede Globo troca claramente de lado. O Jornal Nacional e os analistas políticos da Globo News vêm dando luz verde sistematicamente ao Governo Federal. Mas Bolsonaro é burro e ainda não se deu conta de que os ventos mudaram.

O ímpeto geral das ações do presidente da República são de políticas que têm como consequência direta a morte. As principais medidas de sua gestão vão nessa direção, sendo a mais evidente a sua política para as armas, com a equação ‘Mais Armas=Mais Mortes’, com fortes efeitos potencializadores de violência.  

Podem ser mencionadas ainda suas ações contra os povos indígenas e quilombolas, o incentivo aos desmatamentos, à liberação de agrotóxicos, além da publicação do decreto que permite a impunidade ao proprietário de terra que mate ou mande matar trabalhadores rurais. Como explicar esta opção deliberada de Bolsonaro pela morte? 

Os setores populares precarizados que o apoiaram por esta agenda se tornaram vítimas do bolsonarismo armado e privilegiado pelo direito de matar, numa relação entre poder e violência, vida e morte, com o extermínio dos indesejáveis e daqueles que ousarem resistir. O assassinato de Marielle Franco – crime ainda sem solução – vem inserido nesta lógica.

Em sua campanha eleitoral, Bolsonaro tinha na mímica do pistoleiro, com o gesto de armas com as mãos, um claro apelo à violência. Aliado a uma retórica explicitando um conteúdo de ódio, ele provocou a emergência de uma violência política até então inédita no país. 

A milícia paramilitar nazista e as vítimas fatais como o capoeirista baiano, Mestre Moa do Katendê, assassinado por um eleitor bolsonarista em uma discussão política, mostram como estamos distantes de qualquer normalidade democrática.

O Brasil é um país secularmente violento. Fundado pelo ato cruel da conquista e do colonialismo português, o país, hoje – como Nação independente – conservou muitas das marcas da desigualdade e exclusão social do período colonial, tendo como evidência o fato de ter sido o último país da América a abolir a escravidão. 

Desta herança não é difícil apontar as raízes históricas que amparam o discurso violento e excludente de Bolsonaro, que remonta a lógica da ‘Casa Grande’ e, de forma mais direta, com a chamada “linha dura”, que passou por uma recente transformação ganhando ares civilizados, através do neoliberalismo. 

Esta vinculação entre o neoliberalismo e o autoritarismo está longe de ser fortuita. Nunca é demais lembrar que a primeira experiência de governo neoliberal foi implementada no Chile durante a sanguinária ditadura de Pinochet, a quem Bolsonaro presta elogiosas deferências. 

Existe um profundo distanciamento entre a razão neoliberal e a democracia. Nas ocasiões em que governos adotaram políticas neoliberais estas resultaram invariavelmente em algum nível de restrição democrática, com práticas imunes ao sufrágio popular.

O governo de Bolsonaro é uma versão radicalizada do neoliberalismo, cuja agenda inclui a promessa de privatizações generalizadas, abertura de setores estratégicos da economia do país para o capital estrangeiro – preferencialmente o norte-americano –, políticas de inversão econômica com restrições aos investimentos sociais, supressão de direitos e a ampliação da desigualdade social.

A política de Bolsonaro se orienta por um sentido geral de governo para os seus, não para a população brasileira. Com essa orientação, ele busca atender aos interesses corporativos de forma seletiva, potencialmente próximos ao espectro social que o elegeu, mas com um claro corte de classe, gênero e raça. 

domingo, 29 de março de 2020

Um divisor de águas em nossas vidas

Antonio Carlos Lua

Vivemos um trauma coletivo que despedaça violentamente a nossa representação comum do mundo, com a dimensão angustiante do inesperado, do imprevisível, do ingovernável, num evento mundial traumático, que impossibilita qualquer forma de defesa, nos fazendo redescobrir que, além do individualismo, somos um conjunto e temos responsabilidades coletivas. 

Ninguém poderia imaginar que o mundo poderia parar e a morte desenfrear-se. Ninguém estava preparado para uma emergência como a que estamos vivendo. Um divisor de águas foi cavado nas nossas vidas. Como será depois? Somos  convidados, decididamente, a pensar no tempo do pós-trauma. 

Embora fechados em nossas casas e petrificados pelo medo que restringe forçosamente o nosso horizonte de mundo, vamos olhar além, para responder de forma poderosa à lição do trauma do coronavírus, extraindo dessa inesperada potência negativa uma força nova e libertadora. 

Afinal, as crises profundas sempre nos revelam uma oportunidade extraordinária de reinício, que na frente nos possibilitará gastar todo o tempo que resta das nossas vidas com apenas o essencial, eliminando o supérfluo e a utopia abstrata, para, assim, cultivarmos a potência vital do essencial.

Após o trauma, o reinício deve ser audacioso para que a experiência negativa do coronavírus possa se converter em uma oportunidade afirmativa, inspirando a dimensão generativa das nossas escolhas políticas futuras e assim nos livrar do insustentável vírus hospedado no Palácio do Planalto que infecta a sociedade, com teorias da conspiração paranoicas e explosões de racismo.

A orientação do presidente da República, Jair Bolsonaro, para quebrar a quarentena está localizada no extremo oposto do espectro de alternativas de combate ao Covid-19, ao levar em consideração apenas os aspectos econômicos nos cálculos voltados a estabelecer as políticas de saúde pública, mesmo que isso possa custar centenas de milhares de vidas.

Em uma era da mobilidade rápida, uma resposta inadequada de um presidente da República ameaça todos os brasileiros. O que precisamos é de uma liderança eficaz no topo, uma liderança que atenda à ciência, trabalhe de maneira colaborativa e foque no bem comum, levando em consideração os diagnósticos e os pareceres médicos e científicos.

Enquanto as pessoas estão morrendo, o Governo Federal foge da sua obrigação ética de dar uma resposta robusta e objetiva diante da pandemia e passa a dirigir sua preocupação apenas para o golpe na economia, a recessão, a falta de crescimento do Produto Interno Bruto e coisas do tipo.

Nada pode nos dar certeza de que o coronavírus não possa se tornar mais letal ou contagioso, embora estejam sendo feitos esforços para evitar isso pela comunidade científica que, mesmo com verbas públicas minguadas para pesquisas, pode ser a estrada mestra para nos reconectar com uma realidade em constante mudança. 

Nada garante que quando as medidas de emergência expirarem a situação retorne à normalidade. Continua sendo vital fazer agora todo o possível para esmagar a curva de contágios, diluindo e distribuindo o impacto das pessoas severamente afetadas pelo vírus ao longo das semanas, para que nossos hospitais possam atender elas.

Em tempos de emergência sanitária, é essencial continuar a confiar nos números e acreditar na ciência, que tem o método para estudar o fenômeno do contágio e descobrir a cura e a vacina. 

Nesse sentido, o Brasil poderia organizar uma força-tarefa permanente para estar pronta a enfrentar emergências semelhantes no futuro, otimizando os procedimentos sanitários e aprimorando as tecnologias. 

Para isso, é necessário ouvir a ciência e os cientistas com senso de responsabilidade e seriedade, respeitando e adotando, com transparência, medidas drásticas, para evitar que a situação piore.