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domingo, 25 de outubro de 2026

O desafio do nosso tempo

 

Antonio Carlos Lua

A crise de civilidade que ameaça as democracias contemporâneas não pode ser dissociada do neoliberalismo, modelo econômico e social que transformou a competição em princípio de convivência, a acumulação de riqueza em objetivo prioritário e o indivíduo em único responsável por seu próprio destino. Mais do que uma doutrina de organização dos mercados, o neoliberalismo consolidou uma lógica que ultrapassa a esfera econômica e influencia as relações sociais, enfraquecendo os laços de solidariedade e o compromisso com o bem coletivo.

Ele é também uma racionalidade política e social que procura subordinar o Estado, os direitos e as relações humanas aos imperativos da rentabilidade. Seu problema central está na pretensão de converter os interesses do capital em medida universal das decisões coletivas. Quando o lucro se sobrepõe à dignidade, a desigualdade é justificada como mérito e a proteção social é tratada como obstáculo econômico. O que está em jogo não é somente um modelo de desenvolvimento, mas a própria qualidade civilizatória da sociedade.

O neoliberalismo precisa ser superado porque, quando elevado a princípio dominante da organização social, enfraquece as condições materiais da liberdade, legitima desigualdades e subordina o interesse público ao poder econômico. Não basta corrigir seus excessos ou humanizar superficialmente seus efeitos. É necessário romper com a ideia de que o mercado deve determinar as prioridades da sociedade e reafirmar que a economia existe para atender às necessidades humanas e não para exigir que a humanidade se adapte às suas imposições. Isso não significa abolir a economia de mercado, mas retirar dela a pretensão de governar a vida coletiva.

Uma das engrenagens centrais dessa lógica é a transferência de problemas estruturais para a esfera da responsabilidade individual. O desemprego, a pobreza e a insegurança passam a ser apresentados como consequências de escolhas pessoais, enquanto as desigualdades de origem, a concentração de oportunidades e as relações assimétricas de poder são relegadas a segundo plano.

A meritocracia, nesse contexto, deixa de ser um reconhecimento legítimo do esforço e se transforma em instrumento de justificação dos privilégios. Aos que vencem, atribui-se o mérito exclusivo e, aos que ficam para trás, reserva-se a culpa. Assim, uma sociedade profundamente desigual consegue apresentar suas injustiças como resultados naturais da competição. O resultado é uma sociedade pressionada a avaliar tudo pela produtividade, pela competitividade e pelo retorno financeiro.

O trabalhador se torna custo, o serviço público vira despesa e o cidadão é reduzido à condição de consumidor. Direitos sociais passam a ser submetidos à lógica da rentabilidade, como se saúde, educação e previdência fossem mercadorias comuns, e não condições fundamentais para o exercício da cidadania. Quando a capacidade de pagamento se transforma em critério de acesso ao que é essencial, a liberdade deixa de ser um direito efetivo e se converte em privilégio de quem dispõe de recursos.

Essa estrutura também compromete a democracia. A concentração de riqueza não produz apenas desigualdade econômica. Ela amplia a capacidade de determinados grupos influenciarem governos, agendas públicas e decisões estratégicas. Quando o poder financeiro consegue condicionar as alternativas políticas, a soberania popular fica enfraquecida.  

No Brasil, essa contradição adquire gravidade particular. Um país marcado pela escravidão, pela concentração de renda e pela exclusão histórica não pode tratar a justiça social como consequência automática do crescimento econômico. A expansão da riqueza não garante sua distribuição, assim como a modernização produtiva não assegura, por si só, a universalização de direitos. Enquanto parcelas expressivas da população enfrentarem obstáculos no acesso à saúde, à educação, à moradia, ao trabalho digno, será impossível sustentar que o desenvolvimento brasileiro cumpre plenamente sua função social.

Superar essa realidade exige um Estado capaz de planejar o desenvolvimento, regular os mercados, combater abusos econômicos e assegurar serviços públicos de qualidade. A responsabilidade fiscal e a eficiência administrativa são indispensáveis, mas não podem funcionar como justificativas universais para a restrição de direitos, sobretudo quando os custos recaem desproporcionalmente sobre os mais vulneráveis.

O equilíbrio das contas públicas deve assegurar a continuidade das políticas públicas, não servir de instrumento para preservar privilégios ou transferir à população os encargos de decisões econômicas injustas. O argumento decisivo é que crescimento econômico e justiça social não são objetivos incompatíveis. Uma economia pode estimular a inovação, a iniciativa privada e a produtividade sem transformar a precariedade em regra ou aceitar a exclusão como preço inevitável da prosperidade.

O problema não é produzir riqueza, mas permitir que seus benefícios sejam concentrados enquanto os custos sociais são distribuídos entre aqueles que possuem menos condições de suportá-los. Uma economia que funciona bem para os detentores do capital, mas falha em assegurar condições dignas à maioria, não pode ser considerada um sucesso civilizatório.

Não há civilidade duradoura quando o lucro vale mais do que a dignidade, nem democracia plena quando a liberdade de todos é condicionada pelos recursos de poucos. Salvaguardar a civilidade exige recolocar a economia a serviço da vida, o Estado a serviço do interesse público e a política a serviço da soberania popular. A verdadeira medida do desenvolvimento não é quanto uma sociedade consegue acumular, mas como transforma sua riqueza em direitos, oportunidades e condições dignas de existência.

O desafio de superar o neoliberalismo consiste, em última instância, em impedir que a economia continue governando a sociedade e devolver à democracia a capacidade de decidir, coletivamente, a serviço de quem deve estar o progresso. 

domingo, 18 de outubro de 2026

O envelhecimento e a ressignificação da existência humana

Antonio Carlos Lua

Envelhecer é confrontar-se com uma das mais profundas contradições da existência humana. À medida que o tempo passa, nossas limitações físicas se tornam mais evidentes, a consciência da finitude se aprofunda e somos levados a fazer escolhas e renúncias. Ao mesmo tempo, a vida nos oferece a oportunidade de descobrir dimensões de nós mesmos que permaneceram ocultas durante grande parte da nossa trajetória. A velhice não deve ser vista apenas como o território das perdas, como insiste em sugerir uma sociedade obcecada pela juventude, pela produtividade e pela aparência. É, sobretudo, uma etapa de reconstrução da consciência, de revisão dos valores e de compreensão mais profunda daquilo que realmente importa. Afinal, envelhecer não significa apenas acumular anos, mas também adquirir a possibilidade de olhar para a vida com mais lucidez, reconhecer o essencial e atribuir novos significados à própria existência. 

É nessa fase da vida que somos convidados a rever nossas certezas, questionar antigas convicções e reconhecer que nem tudo aquilo que perseguimos com tanto empenho merece, de fato, o valor que lhe atribuímos. Com o passar dos anos, aprendemos que o acúmulo de bens, o reconhecimento social e a busca incessante por conquistas não são suficientes para garantir a plenitude da existência. Descobrimos, muitas vezes depois de longas jornadas, que a verdadeira riqueza está na qualidade dos vínculos que construímos, na serenidade com que enfrentamos as adversidades e na capacidade de encontrar sentido nas experiências mais simples do cotidiano. 

Envelhecer também exige coragem para aceitar as transformações que o tempo produz em nosso corpo, em nossas relações e na maneira como percebemos o mundo. Nem sempre é fácil reconhecer que determinadas capacidades já não respondem como antes, que algumas pessoas deixam de fazer parte da nossa caminhada e que certos sonhos precisam ser ressignificados. Entretanto, aceitar essas mudanças não significa desistir de viver, tampouco se render à ideia de que o melhor da existência ficou para trás. Significa compreender que cada etapa da vida possui suas próprias possibilidades e que a disposição para descobri-las é fundamental para preservar a autonomia, a dignidade e a vontade de seguir adiante. 

Há, nessa trajetória, uma oportunidade de desenvolver uma relação mais honesta com nós mesmos. Ao revisitar o passado, podemos reconhecer erros sem nos aprisionarmos à culpa, compreender escolhas sem alimentar arrependimentos permanentes e valorizar conquistas que, durante muito tempo, talvez tenham passado despercebidas. A experiência acumulada não nos torna necessariamente mais sábios, mas pode nos ensinar a distinguir o que merece nossa atenção daquilo que apenas consome nossas energias. A sabedoria depende, sobretudo, da disposição para aprender com o vivido, rever posições e reconhecer que ninguém chega a uma idade avançada com todas as respostas. 

Também é necessário questionar os preconceitos que associam o envelhecimento à inutilidade, à dependência e ao afastamento da vida social. Uma sociedade que transforma a juventude em padrão absoluto de valor acaba desconsiderando a contribuição de milhões de pessoas que continuam capazes de aprender, criar, trabalhar, amar, ensinar e participar ativamente da construção coletiva. A idade cronológica não determina, por si só, a capacidade de pensar, sentir, produzir ou estabelecer novos objetivos. Cada pessoa envelhece de maneira singular, e respeitar essa diversidade é reconhecer que a dignidade humana não diminui com o passar dos anos. 

Por isso, envelhecer com consciência significa também recusar a ideia de que precisamos corresponder às expectativas alheias para justificar nossa existência. É compreender que não temos obrigação de demonstrar produtividade a todo instante, competir com gerações mais jovens ou esconder as marcas que o tempo deixa em nós. Nosso valor não está condicionado à aparência, ao ritmo de trabalho ou à aprovação dos outros. Está na nossa humanidade, na história que construímos, nos afetos que cultivamos e na capacidade de continuar atribuindo significado à vida, mesmo quando as circunstâncias exigem mudanças profundas. 

Talvez uma das maiores lições do envelhecimento seja entender que a vida não perde seu sentido quando deixa de corresponder aos planos que fizemos no passado. Ela pode adquirir novos significados quando aprendemos a acolher o presente sem ignorar as limitações, mas também sem renunciar às possibilidades que permanecem abertas. Enquanto houver curiosidade para descobrir, disposição para aprender, afeto para compartilhar e liberdade interior para repensar caminhos, haverá espaço para novas experiências. 

No fim, envelhecer é compreender que a existência não precisa ser medida apenas pelo tempo que passou, mas pela maneira como vivemos cada etapa. Não podemos impedir o avanço dos anos, recuperar todas as oportunidades perdidas ou evitar as transformações inevitáveis do corpo e da realidade. Podemos, entretanto, escolher como nos relacionamos com essas mudanças. E talvez seja nessa escolha, entre a resistência inútil ao tempo e a aceitação consciente da vida, que encontramos uma das formas mais profundas de liberdade, que é a possibilidade de continuar vivendo com lucidez, dignidade e esperança, reconhecendo que cada idade, inclusive a mais avançada, ainda pode nos ensinar algo essencial sobre quem somos e sobre o que significa estar vivo. 

Envelhecer é confrontar-se com a verdade essencial da existência. Afinal, somos seres finitos em permanente busca de sentido. O tempo desfaz ilusões, relativiza conquistas e nos ensina que a grandeza de viver não está em negar a passagem dos anos, mas em compreender que cada instante, mesmo diante da finitude, oferece a possibilidade de ressignificar a própria existência.